Século
de cambalacho é gíria de malandro
* Por
Mouzar Benedito
“Que o mundo foi e
será uma porcaria eu já sei…”
Assim começa a letra
do tango “Cambalache”, do argentino Discépolo, composto em 1935, falando do
século XX. Acordei um dia desses me lembrando dele e me perguntei: mas ele se
refere “só” ao século XX?
Andam falando por aí
que o ano de 2016 não acabou, o 2017 é um bis do ano passado, mas eu vou mais
longe: o século vinte e um não parece deixar pra trás o “cambalache” do século
vinte.
Dezesseis anos já se
foram e a ideia de que o mundo anda pra frente está meio sem respaldo.
Eu me lembro de quando
era criança, nos anos 1950, e na barbearia do meu pai, numa cidadezinha de dois
mil e poucos habitantes, quase sem comunicação com o mundo, um monte de
roceiros e homens simples, que tinham estudado no máximo até o quarto ano
primário, falava sobre como seria o ano 2.000 e os que viriam depois.
Na imaginação deles,
não haveria mais miséria, desemprego, injustiças, nada disso. Todo mundo teria
casa decente pra morar, emprego digno, boas escolas, médicos e bons hospitais
para tratar da saúde… E não haveria violência, porque não teria motivo para
isso.
Pena que nossos bons
caipiras não tenham sido também bons profetas. Em vez dessas previsões terem se
realizado, o que vemos é o mundo, não só o Brasil, estar mais pra letra do
tango argentino, que não prevê o fim das desgraças, ao contrário, diz que
sempre houve – e haverá – ladrões, maquiavéis, estropiados, contentes e
amargurados.
Não consigo tirar da
cabeça uns trechos desse tango, como os que se seguem, numa tradução livre e
sem dividir o texto em versos:
Hoje resulta igual ser
honesto ou traidor. Ignorante, sábio, ladrão, generoso ou vigarista. Tudo é
igual! Nada é melhor!
Se um vive na impostura
e outro rouba em sua ambição, dá no mesmo que seja padre, dorminhoco,
dedo-duro, cara-de-pau ou vagabundo.
Século vinte
cambalacho, problemático e febril… O que não chora não mama, e o que não rouba
é imbecil.
É o mesmo o que
trabalha noite e dia feito um boi, que o que vive dos outros, que o que mata e
o que cura, ou que está fora da lei.
Pois é… É muito
pessimismo. Mas, será que dá pra ser otimista?
Vemos a Europa indo
morro abaixo, continente de uma cultura muito forte, dos direitos humanos e dos
sonhos de turistas virando continente do medo?
E os Estados Unidos
abandonando conquistas e radicalizando seus defeitos? Descendentes de
imigrantes (e até imigrantes já instalados) aprovando a construção de um muro
para impedir a chegada de novos imigrantes!
E o fanatismo
religioso crescente no mundo todo, justificando massacres e guerras (embora por
trás de guerras haja também, e muitas vezes principalmente, interesses
econômicos)?
E muita gente tendo
que fugir de seus países, arriscando a vida (e morrendo) em travessias
marítimas precárias? No ano passado, cerca de cinco mil pessoas morreram em
naufrágios no Mediterrâneo!
E os que fogem, quando
chegam a algum lugar sendo vistos não como seres humanos, mas como perigos,
vítimas de preconceitos e ódios?
E o ódio político?
Voltemos ao Brasil.
Como se nossos problemas fossem poucos (não é de hoje, claro) há novos “santos
homens” no poder, exigindo do povo sofrimentos que eles mesmos nunca tiveram!
Previdência indo pro brejo, violência crescente, miséria crescente, direitos
minguantes…
Claro, a vontade de
mudar tudo isso continua, e também uma consciência de que a História é cíclica,
mas é muito sintomático que eu, que deveria ocupar este espaço pra falar com
humor de coisas da cultura brasileira, só me lembre agora de um dos mais
dramáticos tangos argentinos.
Mas o que é
cambalache?
A palavra cambalache,
cambalacho em português, pode ter o sentido de negócio mutreteiro, trapaça,
plano para enganar alguém ou, simplesmente, brechó – quer dizer, comércio
barato de coisas usadas.
A letra desse tango,
como de muitos outros, tem muito do lunfardo, a gíria dos malandros de Buenos Aires
(Rosário e Montevidéu também). Uma das versões da origem do lunfardo é que os
presos a inventaram para que os carcereiros não os entendessem. Mas existem
outras versões.
Acredita-se que seus
criadores foram italianos e descendentes, pobres. E passou a ser uma gíria
popular, não só de malandros. Mas com a fama de ser da malandragem. E do tango
também, especialmente de letristas como Discépolo, um dos maiores do gênero.
Por mera curiosidade,
levantei um pouco dessa gíria, que coincide com muito da gíria da malandragem
brasileira (e policial também), e parte tornou-se usada por todo mundo.
Nem sempre
“importamos” a gíria de lá. Às vezes, o lunfardo é que importou a daqui, como
no caso de catinga (mau-cheiro). E às vezes adaptamos: lá, defunto é mortadela,
e na gíria policial e malandra daqui é presunto. A nossa “vaquinha”,
levantamento de dinheiro de um grupo, pra fazer alguma coisa, no lunfardo é
“vaca”.
E tem uma outra coisa
do lunfardo que coincide com algo bem interiorano do Brasil: lá eles chamam de
“vesre” (pronuncia-se vés-rê), revés com as sílabas trocadas, de trás pra
frente. Em algumas cidades brasileiras, existia o revestrés, com o mesmo
sentido. Nos anos 1980 existia, por exemplo, em São Luiz do Paraitinga. Muitos
meninos falavam o revestrés, e até cantavam músicas conhecidas com as sílabas
truncadas. Não sei se ainda haja quem pratique o revestrés.
Eis algumas palavras
do “vesre” lunfardo: Broli (libro – livro), gotan (tango), davi (vida), goman
(mango, grana), ispa (país), naca (cana, cadeia), sover (verso), trompa
(patrón, patrão), nami (mina)
Agora vejam uma
pequena lista de palavras da nossa gíria que coincide com o lunfardo (quantas
importamos, quantas exportamos?):
Achacar, afanar,
engrupir, patota, alcaguetar, fajuto, bacana, aliviar (no sentido de roubar,
furtar), cafiolo (proxeneta, cafetão), bandear (mudar de posição), cabreiro
(desconfiado), bife (tapa), cafua (cadeia, e também esconderijo), bronca,
fuleiro, cagaço, calote, gatuno, cancha (traquejo), caradura, cantar (na gíria
policial, entregar o jogo, entregar outras pessoas), cana (cadeia), cobres
(dinheiro), embalado (vindo a toda), escrachado, espichado (morto), farra,
forrado (cheio da grana), programa (relação amorosa), mango, gazua, gorila
(militar golpista), lelé (senil), matungo (cavalo ruim), naco (pedaço), pelar
(limpar – no jogo, por exemplo), pinta (postura – boa pinta, por exemplo),
punguista, tira (policial), tramoia, gigolô, retranca, otário, pachorra, parada
(aposta), pechinchar, onda (estar na onda: estar na moda)…
Terminei com “onda” –
estar na onda – né? É de propósito: essas palavras entraram para a nossa língua
oficial, nossos dicionários, continuam “na onda”, como o século XXI continua na
onda do século XX. Tem muito a ver.
*
Jornalista.
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