Rios que não saem da memória
* Por
Paulo Clóvis Schmitz
Do rio que é um filete
ao que não permite ver a outra margem, é ali, em grande medida, que muitas
vidas se reproduzem e ganham forma, sem que percebamos o milagre em andamento.
Em todos nós,
acredito, há um rio a fustigar a memória, porque rios há em todos os lugares,
dos caudalosos aos fios d’água que o desmatamento legou ao campo e às cidades,
assoreando margens e profundezas. A ideia de falar sobre rios me veio depois
que um ator foi transformado em celebridade ao morrer num caudal traiçoeiro como
soem ser muitos caudais, dos portentosos àqueles que perderam pujança em vista
da ação humana nos vales e sertões desse mundão de Deus.
Lembro do riozinho que
passava atrás da casa e do paiol de madeira da infância, que de tão modesto nem
peixes abrigava. Ali perto havia um rio maior, desses que inundam lavouras e
quintais quando sobrevém o temporal. Mais tarde, corria um riacho entre a casa
dos pais e a escola, e ali já nadavam jundiás e lambaris que tiravam o sossego
de pescadores mirins com abundância de tempo livre. Esse córrego ia dar num rio
maior, com remansos que afrontavam a nossa habilidade de mergulhadores. Por sua
vez, tal rio desembocava num congênere de respeito, tão largo e pedregoso que
de vez em quando, na distração que nos é companheira, tolhiam uma vida
desavisada.
Rios estão em autores
como José Eutasio Rivera, de “A voragem”, um monumental relato sobre o âmago da
vastidão amazônica, a partir da fralda colombiana da floresta. Há o rio de
Fernando Pessoa, o rio de Heráclito, os rios de Borges e Llosa, os riozinhos de
Moravia, nos livros, e de Kurosawa, no cinema. Por aqui, há os rios de Lausimar
Laus e de Guido Wilmar Sassi, os rios que aparecem em Viana Moog, Quintana e
João Cabral de Mello Neto, e aqueles que nem Drummond ou Bandeira puderam
ignorar.
Mau nadador, admito
que já poderia ter sucumbido aos rios que desafiei, por ignorância ou
imperícia, quando não tinha noção dos perigos que eles escondem. Uma vez, não
consegui vencer a correnteza e precisei de ajuda de amigos para voltar à
margem. E aprendi, vendo os maus passos alheios, que a água é um elemento a
reverenciar, respeitar, tratar com vênia e mesura.
Do rio que é um filete
ao que não permite ver a outra margem, é ali, em grande medida, que muitas
vidas se reproduzem e ganham forma, sem que percebamos o milagre em andamento.
Se uma celebridade morre no rio, viva o rio, que não deve explicações a
ninguém.
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Paulo Clóvis Schmitz é jornalista, Florianópolis / SC
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