Psicopatia
* Por Daniel Chutorianscy
Vou começar cometendo uma heresia,
tentando explicar a psicopatia – um quadro psiquiátrico – de uma forma
metafórica "entre aspas". PSICOPATIA é um "defeito" na
personalidade, o indivíduo não sente a menor culpa do seu ato, sente-se
vitorioso por executá-lo. Lesa, engana, agride, corrompe, tortura, mata, como
se fosse a coisa mais natural e tranquila. Logo em seguida, vai tomar um
"cafezinho na esquina", como se nada houvesse acontecido, e já
está pronto para outra.
Pecado, culpa, cobrança: o triângulo que
agrega princípios religiosos tanto ocidentais como orientais. Guerras são
grandes inutilidades. Guerras são enormes psicopatias e sem aspas. "Cordata
vertebrata, mammalia, vulgar, vulgaris, vulgaris", nós, os seres humanos,
temos enorme predileção por psicopatias; nunca houve um só dia neste
planeta em que não houvesse uma guerra em algum lugar.
Mecanismos mais utilizados para remover a
culpa: o dever, a defesa, a honra, a pátria, a família, a propriedade, a
vingança, o prazer, o se sentir poderoso e superior. Tanto do lado de cá, como
do lado de lá, uma divindade protetora no alto do estandarte.
Provocamos guerras, cultivamos guerras, pelo
psicopático prazer de dominar o outro, suas riquezas culturais e materiais. Escondemos
nossas impotências pelas onipotências das armas. Somos iguais em nossas
diferenças: agressivos, hipócritas, fraudulentos, dissimulados, plenos de
verdades oficiais. Quanto prazer subjugar, escravizar o que julgamos
inferiores! Quanto mais desenvolvida a cultura, maior a coerção e a
sutileza da tortura. Seria esse o "mal estar da civilização?"
Inútil ficar mais citando exemplos. Tanto
aqui como acolá, o sangue, o desespero, a dor alimentam nossa psicopatia de
cada dia, somos cúmplices, protagonistas e platéia, em um processo de
retro-alimentação. Essa é a natureza humana, não nos cabe julgá-la, não é boa
ou má – julgamentos morais, apenas é, é e ponto, com seus traços psicopáticos,
pequenas vitórias, grandes torturas, em nome de deuses, códigos, convenções,
uniformes que inventamos para aliviarmos nossas culpas. "Bom",
"mau" são idealizações dependentes da ótica de quem vê, o que é bom
aqui não é bom lá, ou vice versa.
A grande revolução do homem: o pensar.
A explicitação do pensamento é a justiça. Fazer justiça é combater
injustiças e privilégios.
O nosso senso de justiça, livrando-nos da
culpa, amém, é impô-la ao outro, a qualquer custo ou preço, para sorrirmos
poderosos e satisfeitos. Esvazia-se a coerência e arma-se a
coerção. Conquiste riquezas, destrua culturas. É doloroso admitir,
porém admitir é maturidade, admitir é transformar. A lucidez
depende de não perdermos a capacidade de indignação.
Envergonho-me muitas vezes de mim mesmo e da
minha espécie. Envergonho-me de minha psicopatia e de todas as psicopatias
coletivas.
Envergonho-me da psicopatia deste momento,
envergonho-me de balbuciar baixinho a palavra Gaza.
*Médico- Rio de Janeiro
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