O
homem que não dirige
* Por Gustavo do
Carmo
Henrique é apaixonado por carros. Mas
não dirige. Conhece todos os modelos, de todas as épocas, que circulam pelas
ruas do Brasil e do mundo. Mas não pode guiar nenhum deles. Foi reprovado duas
vezes na prova de direção. Depois da segunda, desistiu de vez. Convenceu-se de
que seria um perigo a mais para o trânsito se tirasse carteira. Considerava-se
muito inseguro e, ao mesmo tempo, muito ansioso.
Os pais, amigos, parentes e até o avô,
muito querido, tentaram convencê-lo a tentar pela terceira vez. Sem sucesso.
Henrique achava muito cansativo treinar, em pleno verão carioca, em um carro
quente e apertado. A simulação para o exame, então, era um tormento. Tinha que
ficar quase seis horas num lugar deserto, esperando que todos ensaiassem a
prova de baliza e de trânsito. Duas vezes.
Outro dia, encontrou o secretário da
auto-escola que lhe disse que mudaram o local da prova. Mais perto de casa. Com
o trajeto mais fácil. E melhor sinalizado. Henrique não quis. O dono da
auto-escola lhe ofereceu isenção do aluguel do carro. Henrique também não aceitou.
O pai queria matriculá-lo em outra auto-escola de outra cidade. Nada feito.
Primeiro, porque a auto-escola era muito longe. Segundo, pelos mesmos motivos:
não tinha nenhuma vontade de passar pela mesma tortura e ainda não se sentia
seguro para enfrentar o trânsito. Deixou o prontuário vencer.
Passaram-se cinco anos. Para tentar
tirar a carteira agora, ele teria que enfrentar tudo de novo: quinze aulas
teóricas, estudos, prova, teste psicotécnico, quinze aulas práticas e etc.
Agora mesmo que ele não quer tirar.
Os amigos estranhavam quando ele dizia
que gostava de carro, mas não sabia dirigir. Perdeu várias oportunidades de
emprego porque não sabia dirigir. Principalmente na área dele: jornalismo
automotivo. Deixou de conquistar várias garotas porque não sabia dirigir.
Saber ele sabe. Mas sem carteira não
pode. Quando fez dezoito, o código de trânsito ainda não havia mudado e ele
podia comprar carteira. Mas tinha que fazer algumas aulas práticas. Henrique
ainda não se sentia preparado. Veio o novo código e a obtenção da carteira
passou a ser mais rigorosa.
Ia para as aulas da faculdade e pós-graduação
de ônibus mesmo. Às vezes pegava um táxi. Viajar, só de ônibus ou de carona com
o pai. Ir para o shopping, só de ônibus ou de carro com a irmã. Não tinha
vergonha de não dirigir. Passou a achar que a sociedade deveria aceitá-lo sem
carteira da mesma forma que aceita algumas preferências sexuais.
Um dia, teve sorte ao encontrar um
empregador que entendeu a sua opção e o contratou como repórter automotivo em
uma revista. Começou escrevendo textos, mas logo passou a avaliar os carros.
Como? Ele sentava no banco do carona e sentia dali mesmo o comportamento do
carro. Sabia dizer se a suspensão era dura ou macia. Se o motor engasgava ou
era ágil. Reparava na fisionomia do fotógrafo encarregado de dirigir o carro.
Se ele demonstrasse muito esforço a direção era pesada. Se estava tranqüilo, a
direção era leve. Às vezes, ele mesmo girava o volante e fazia a sua própria
constatação. Henrique sempre mudava as marchas. Para compensar o trabalho do
fotógrafo que deveria ser seu, o avaliador de carros que não dirige aprendeu a
fotografar. Na hora da edição, cada um assinava de acordo com a sua função.
Henrique, os textos e o fotógrafo, as imagens.
Seus textos eram corretos e
interessantes. Fez sucesso por avaliar tão bem os carros sem saber dirigir que
foi até pauta de reportagens jornalísticas e programas de entrevista pelo seu
talento peculiar.
No trabalho, conheceu Mercedes. Não o
carro, mas uma bela morena de pele clara, com quem se casou. Mercedes tinha
algo em comum com Henrique. Também não sabia dirigir. Mas ela era apenas a contadora
da revista. Não tinha a obrigação de dirigir. Quando namorados, andavam de
táxi.
Mas Mercedes perdeu a paciência com
Henrique, que se recusava a tirar carteira de motorista. Ela não queria mais
depender de táxis e nem de amigos para sair com ele. Quase deu um ultimato para
ele tirar a carteira de motorista ou assinar o divórcio. Henrique foi salvo
pela gravidez da mulher.
Como Henrique não queria a esposa andando
grávida de ônibus lotado ou tendo dificuldade para encontrar um táxi, comprou
um carro usado. Contratou um motorista. Meireles era um rapaz prestativo que
trabalhava como auxiliar de taxista.
Meireles levava Henrique e Mercedes
para a revista. Ficava à disposição do casal. Também ajudava Henrique a avaliar
os carros do trabalho. O fotógrafo já não era necessário para sentir a suspensão
do carro para Henrique comentar. Meireles fazia tudo.
— Vamos para onde, senhor? Para a
revista.
— Vamos para onde, senhora? Para o
shopping.
— Vamos para onde, senhor? Para
biblioteca e depois para a revista.
— Vamos para onde, senhores? Para Cabo
Frio.
— Este carro é muito confortável,
senhor.
Ás vezes, Meireles conduzia Mercedes
sozinha. Muitas vezes para os exames pré-natal que Henrique não podia
acompanhar.
— Vamos para onde, senhora? Para a
consulta pré-natal.
— Vamos para onde, senhores? Para a
maternidade! Rápido, que o bebê já está nascendo!
Quando ela tirou licença-maternidade,
Meireles ficou mais tempo a disposição de Mercedes, levando-a para a casa de
sua mãe e para a casa do irmão mais velho em São Paulo.
Um dia, na volta para o Rio, o carro de
Henrique enguiçou à noite e eles precisaram dormir em um motel. O jornalista
estava no exterior para cobrir o lançamento de um carro.
Na volta, Henrique foi recebido por
Mercedes, que lhe avisou que ia abrir um negócio com o irmão em São Paulo. Levaria
tudo: o filho, a mãe e Meireles. O rapaz se prontificou a pedir transferência
para a capital paulista. Mercedes não deixou. Disse que estava apaixonada por
Meireles.
Henrique pediu demissão da revista de
automóveis e se matriculou na mesma auto-escola pela qual tinha tentado tirar a
carteira. Assistiu às quinze aulas, fez a prova teórica. Passou com 100% de
acerto. Passou no exame psicotécnico. Só precisou das quinze aulas para marcar
a prova prática, na qual foi aprovado com elogios do examinador.
Foi aplaudido pelo pai, pela mãe e pelo
avô querido, que agora pode morrer satisfeito ao ver o neto tirar a tão sonhada
carteira de motorista. O diretor da revista também o readmitiu.
No primeiro passeio com a habilitação
na mão, Henrique pegou o carro que tinha comprado para Meireles conduzir a sua
ex-esposa. Acelerou, acelerou, acelerou. Chocou-se com uma figueira centenária,
que resistiu ao impacto.
* Jornalista e publicitário de formação e
escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz
Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos”.
Bookess
- http://www.bookess.com/read/4103-indecisos-entre-outros-contos/ e
PerSe
-http://www.perse.com.br/novoprojetoperse/WF2_BookDetails.aspx?filesFolder=N1383616386310
Seu blog, “Tudo cultural” -
www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores
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