Loucos?
* Por
Eduardo Oliveira Freire
Uma vez, quando
criança, gritei em pensamento.
Desde que me entendo
por gente, quando a noite chegava e o sono vinha, ninguém dormia. Todos ficavam
vagando por aí como zumbis e à espreita de quem está acordado, para mordê-lo e
o transformar como igual. Ao amanhecer, todos voltavam ao normal e agiam como
se nada tivesse acontecido.
No início, tinha medo,
mas me acostumei com os sons que minha família emitia. Comecei a dormir
tranquilamente, enquanto os outros acossavam. Sempre escutei gritos na alta
madrugada, era um "acordado" que foi descoberto. Ao crescer, curti
minha infância e juventude sem muito drama. A única coisa que me incomodava era
os gritos ou quando alguém ficava a me observar para ver se dormiam realmente.
O tempo passou, tive mulher
e filhos. Eram zumbis, também. Como estava habituado, nem me importei. Até quis
ser mordido por eles para não ser mais diferente.
Quando surgiram as
redes sociais, descobri o "grupo dos acordados". Entrei em contato e
conversei bastante com os integrantes. A que dialogava mais comigo era Ana e
nos conhecemos no mundo real. Era casada também e sofria de ver os seus na
madrugada, caçando os acordados.
Nós nos apaixonamos,
porém, não podíamos abandonar nossas famílias. Encontrávamos um jeito para
passar a noite se amando trancados num quarto de motel, enquanto os zumbis
noturnos perambulavam pela madrugada.
Será que somos os
loucos?! Ou pertencemos aos poucos sãos que ainda existem no mundo?
*
Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante
a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/
Nenhum comentário:
Postar um comentário