Obsessão pelo tempo 1
O tempo, em seus múltiplos aspectos, é uma das minhas principais
obsessões (diria que a maior delas), quer como escritor, quer como intelectual
em busca do sentido das coisas e, sobretudo, da vida. Não por acaso, o livro
que escrevi e pelo qual tenho a maior afeição (não só entre os que publiquei,
mas entre todos os que produzi, incluindo os dezesseis inéditos), é “Cronos e
Narciso”. Ou seja, é o que tem por tema central esse abstratíssimo conceito,
paradoxalmente com tão concreta importância em nossas vidas. Redigi centenas de
crônicas tendo-o por foco. Abordei-o em dezenas de extensos e analíticos ensaios.
Um número que nem consigo contabilizar de poemas que compus trata de sua
passagem e, principalmente, conseqüências. Vários dos meus contos tratam,
sutilmente do tempo. Como se vê, ele é, mesmo, minha obsessão, no mais lato
sentido, sem tirar e nem por.
Quando penso em mudar de assunto, eis que termina mais um
ano e, por conseqüência, outro começa na sequência (como é o presente caso). E
lá vou eu de novo tratar batidíssimo, porém inesgotável tema, enfocando novos
ângulos que não havia, ainda, abordado. Hoje resolvi fazer algo diferente a
respeito: realizar uma rápida e informal pesquisa, sem nenhum método especial,
sobre como alguns dos meus poetas preferidos trataram e têm tratado do assunto.
Claro que, se eu fosse me aprofundar, reuniria poemas suficientes para
preencher não só um espaço, como este, mas toda uma coleção de antologias sobre
o tema. Talvez um dia eu elabore uma, mas não para publicação, contudo para meu
próprio deleite.
Pesquisando alguns livros de poesia a esmo, reuni alguns
(poucos) versos e até poemas completos alusivos ao tema que peço licença para
partilhar com vocês. A primeira peça literária do gênero é uma jóia de
sensibilidade e inteligência de Cecília Meirelles. Separei de um de seus poemas
(cujo título esqueci de anotar, mas não importa) quatro expressivos versos. No
primeiro deles, a poetisa indaga: “De que são feitos os dias?”. E na sequência
responde, de forma lírica e bela:
“De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças”.
E não são essas, ao fim e ao cabo, as matérias-primas dos
dias? Claro que são!!! Já a poetisa norte-americana Emily Dickinson explora
outro aspecto desse abstrato, posto que tão concreto ditador de nossas vidas,
nestes dois magníficos quartetos:
“Dizem que o tempo ameniza
Isto é faltar com a verdade
Dor real se fortalece
Como os músculos, com a idade
É um teste no sofrimento
Mas não o debelaria
Se o tempo fosse remédio
Nenhum mal existiria”.
O tempo não ameniza coisa nenhuma nossas dores e
frustrações. Apenas “encrua-as” e as mantêm, digamos, “congeladas”, em uma
hibernação que pode acabar a qualquer momento, voltando à tona não raro com
redobrada intensidade. Já o “poetinha” Vinícius de Moraes trata da principal conseqüência
da passagem do tempo: o envelhecimento. Conclui, nos versos mágicos deste “Soneto
de aniversário”, que há algo que nunca fica velho, passem quantos anos
passarem. Diz:
“Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
Faça-se a carne mais envelhecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece”.
Pois é, o amor genuíno, profundo, correspondido ou não,
nunca fica velho. Ou seja, não acompanha o envelhecimento dos respectivos
amantes. O meu, pelo menos, nunca envelheceu e nem dá o mínimo sinal de velhice
próxima, embora eu esteja prestes a completar meu 74º aniversário. Certamente o
seu também, prezado leitor, nunca envelheceu. Querem versos mais bonitos e
verdadeiros sobre o tempo do que este trecho da composição “Roda Viva” de Chico
Buarque?:
“Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu (...)”
Lindo, lindo, lindo! Como lindo, também, é este soneto do meu
conterrâneo Mário Quintana (este não poderia faltar!), intitulado “Recordo
ainda”:
“Recordo ainda... e nada mais me
importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...
Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!”
Encerro estes descompromissados comentários à margem com
versos “mágicos” de outro “monstro sagrado” das letras mundiais, que foi este
gênio francês chamado Victor Hugo:
“Desejo que se amem hoje, amanhã e nos
dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e
sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a desejar”.
Isso é o que também lhe desejo, amável e fiel leitor. E não
apenas para o próximo ano que se aproxima, mas ao longo de toda a sua vida. Ou
seja, que você se ame, e que ame ao próximo, “hoje, amanhã e nos dias seguintes”,
enquanto houver tempo para amar, o que significa viver. E que este seja, como é
para mim, também a sua obsessão!!! E, como Hugo afirma, “não tenho mais nada a
desejar” a você e ao mundo, se não um dilúvio de amor!!!
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Como escrevi no Facebook, as suas escolhas foram tão boas que emudeci.
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