O cardeal que enfrentou a ditadura
* Por
Frei Betto
Em janeiro de 1970, o
então bispo auxiliar, dom Paulo Evaristo Arns, da ordem dos franciscanos, era
responsável pela Pastoral Carcerária, e conseguiu, enfim, visitar-nos no
Presídio Tiradentes, em São Paulo. Na presença do diretor da prisão, nós,
frades dominicanos presos, denunciamos as torturas durante os interrogatórios.
Um ano depois, já
nomeado arcebispo pelo papa Paulo VI, dom Paulo denunciou a prisão do padre
Giulio Vicini e da agente pastoral Yara Spadini. Encontrados com manifestos de
protesto contra a morte do operário Raimundo Eduardo da Silva – que se achava
recolhido ao Hospital Militar à disposição das autoridades policiais –, foram
torturados no Deops. O arcebispo invadiu a repartição e conseguiu avistar-se
com os dois, que lhe mostraram as marcas das sevícias. Indignado, mandou afixar
em todas as paróquias da arquidiocese nota em defesa dos presos e de denúncia
das torturas sofridas.
Dom Paulo jamais
conheceu o medo. Em maio de 1971, ao ser recebido pelo general Médici, no
Palácio do Planalto, lhe relatou casos de torturas. O ditador, com a rispidez
que o caracterizava, não se fez de rogado e reiterou: “Elas existem e vão
continuar porque são necessárias. E a Igreja que não se meta, porque o próximo
passo será a prisão de bispos...”
Quando fizemos greve
de fome coletiva, em maio de 1972, dom Paulo foi nosso mediador junto às
autoridades. Estávamos na Penitenciária do Estado, misturados aos presos
comuns. Não nos permitiram vê-lo. Em encontro com o juiz Nelson Guimarães, do
Tribunal Militar, o arcebispo questionou-o: “O senhor sabe que é responsável
pela vida dos presos?”. O juiz auditor assentiu: “Assumo a responsabilidade se
vierem a morrer”. Dom Paulo retrucou: “Meu filho, assume dois ou três dias.
Depois, não assume mais. Sua consciência passa a martirizá-lo. E que contas
dará o senhor perante si mesmo e perante Deus?”. O juiz respondeu de cabeça
baixa: “O senhor tem razão”.
Quando o jornalista
Vladimir Herzog foi “suicidado” na prisão, dom Paulo decidiu celebrar missa
solene na Catedral da Sé em homenagem a ele. Judeus que apoiavam a ditadura
tentaram demover o cardeal: “Por que missa para Herzog? Ele era judeu!”. Dom
Paulo respondeu: “Jesus também”.
O cardeal Paulo
Evaristo Arns era um dos homens mais corajosos que conheci. Imbuído da fé que
caracterizou seu patrono e modelo, Francisco de Assis, jamais pensou no próprio
sucesso. O mesmo cuidado amoroso que são Francisco dedicava aos pobres e à
natureza, dom Paulo estendeu às vítimas da repressão. A resistência à ditadura
que nos governou 21 anos deve muito à figura ímpar de dom Paulo.
O livro “Brasil: Nunca
Mais” é uma radiografia irrespondível da ditadura, graças à iniciativa de dom
Paulo e do pastor Jaime Wright, que promoveram uma devassa nos arquivos da
Justiça Militar. Analisaram o conteúdo de mais de um milhão de páginas de
processos políticos. A anistia ainda evita que torturadores paguem por seus
crimes. Mas, graças a esses dois pastores, não se apagarão da memória
brasileira o terror de Estado e o sofrimento de milhares de vítimas.
Dom Paulo Evaristo
Arns rezou, com a vida, a oração de São Francisco de Assis, adaptada aos nossos
tempos: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver... repressão e
pobreza, que eu leve liberdade e justiça”.
*
Escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol
dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial
da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de 60 livros, editados
no Brasil e no Exterior, entre os quais "Batismo de Sangue", e
"A Mosca Azul".
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