Numa
noite de Natal
* Por Pedro J.
Bondaczuk
O escritor Antônio Arnault escreveu, no
livro “As noites afluentes”: “Breve é a vida e o seu rasto. A posteridade é
apenas a memória acesa de uma vela efêmera. Para que a memória não se apague,
temos que nos dar uns aos outros, como elos de uma corrente ou pedras de uma
catedral”. Ou seja, tudo e todos passam e só restam (quando restam) as memórias
e nada mais.
Na véspera do Natal de 2006, escrevi um
texto – que sequer sei como caracterizar, se como crônica, se como poesia ou
como sei lá o quê – homenageando pessoas que foram muito importantes em minha
vida, mas que já morreram, embora permaneçam vivíssimas na minha lembrança e na
minha estima e que assim ficarão, pelo menos enquanto eu viver.
Imaginei uma ceia, em que todas
estivessem presentes, com suas características e personalidades, trazendo os
presentes que certamente me dariam e ganhando, em troca, o que gostariam de
receber de mim. Entre elas destacavam-se meus
avós – os paternos, Hilarion e Matrena e os maternos, Simeão e Rosa – meus
tios, irmãos da minha mãe, Pedro e João (em homenagem dos quais fui batizado
com o nome de Pedro João) e os amigos inesquecíveis, Maurício de Moraes, Célia
Búrigo e Mauro Sampaio.
Os dois primeiros foram eminentes
jornalistas em
Campinas. Trabalharam comigo, por vários anos, no Correio
Popular, formando laços de amizade e apreço que nem o tempo e nem mesmo a morte
conseguiram (e nem conseguirão) romper. Qualquer homenagem que lhes prestar,
por maior que seja, ainda será pouca, pelo tanto que representaram para mim. Já
Mauro, um dos mais sensíveis poetas que conheci, presidiu, por muitos anos, a
Academia Campinense de Letras, instituição que tenho orgulho de integrar e foi
dos amigos mais leais, abnegados e sinceros que já tive na vida.
Na ocasião em que escrevi esse texto,
eu ainda não havia sofrido a perda mais dolorosa e irreparável de todas
(felizmente poucas) que tive: a do meu pai. É verdade que ele continua vivo,
vivíssimo, em mim, em cada célula do meu corpo, em cada sensação, idéia e
emoção que eu tenho ou venha a ter. Sinto, porém, uma falta imensa dos seus
conselhos, do seu bom-senso, da sua confortadora presença e, sobretudo, da sua
incomparável amizade.
É com prazer, pois, que partilho com o
amigo leitor este texto que, reitero, sequer sei como caracterizar, se como
crônica, se como poesia ou como sei lá o quê:
“A casa está toda arrumada para um evento
insólito e especial. Até as paredes parecem sentir, expectantes, a antecipação
de um momento ímpar, inesquecível.
A
mesa está posta para receber tantos e ilustres convidados. Néctares
inestimáveis, inacessíveis aos mortais, enchem terrinas de porcelana. Aos que
optarem pelo exótico, há generosas porções de ambrosia, procedente, direta, do
Olimpo. Os comedidos, de postura espartana, poderão apreciar o milagroso maná que
alimentou Israel no Sinai. E o vinho?Especial para a ocasião! É da safra
original, que embriagou o patriarca Noé, após deixar a arca, tão logo baixaram
as águas do dilúvio.
Ao
canto, um pinheirinho, garboso, enfeitado com bolas coloridas de vidro elaboradas
por artesãos de Sidon. Dezenas de estrelinhas douradas pisca-piscam mistérios insondáveis,
ao comando da estrela de Belém, que encima a árvore (símbolo da vida).
E
os convidados chegam, em silêncio, um a um, posto que radiantes, com sorrisos
avassaladores e estranhos embrulhos sob o braço... Meus avós... Tio Pedro e tio
João... O Maurício de Moraes, com olhar brejeiro... O Mauro Sampaio, com sua
lira dourada, com sete cordas de crina... A Célia Búrigo, recitando versos e beijando,
carinhosa, os convidados...
E
eles chegam e se acomodam ao redor da magnífica mesa posta. Antes, trocam
presentes comigo. O avô Hilarion brinda-me com um álbum dos seus feitos mais
notáveis, o que me comove, às lágrimas. O avô Simão, com seu gorro de astracã, e
um pesado casaco, vermelho e branco, que o faz parecer Papai Noel, me entrega
rico samovar de vidro e uma insólita pomba de cristal.
Tio
Pedro, compenetrado, me dá um caderno amarfanhado, com poemas, ricos versos, que
compôs na juventude. As avós, Rosa e Matrena, dão flores, suaves e imperecíveis
flores: um lírio branco e a rosa de Sharon.
E
recebo presentes... Outros presentes... Tio João oferta-me uma antologia rara com
poesias de Wladimir Mayakowski. Maurício traz-me raras crônicas da sua infância
em Minas Gerais ,
emolduradas num quadro, com molduras de ouro.
Mauro
presenteia-me com os originais do seu livro “No silêncio do espelho”. E Célia? Célia
oferta, generosa, seu último verso (o que não escreveu). Retribuo, a todos, com
presente-padrão: a fidelidade da perpétua lembrança.
A
noite avança. Lá fora, a lua cheia ilumina a casa, o bairro, o mundo, enquanto
meu pensamento vagueia numa estrada, luminosa, de estrelas. Ao longe, o som
sereno de um sino embala sonhos e as nossas conversas, num ritmo de recordação
e saudades.
Finda
a ceia, os convidados se vão, um a um, Mas com solenes promessas de voltar... Meus
avós... Tio Pedro... Tio João... O Maurício de Moraes, com olhar brejeiro... O
Mauro Sampaio, com sua lira... A Célia Búrigo, recitando versos...
Seguem,
alegres, pisando estrelas, com seus pés incorruptíveis, para o seu novo mundo:
o das lembranças... O relógio marca duas da madrugada... Estou só... A casa?
Vazia! E a noite? De Natal!”
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Que belo! Arrancou-me forte emoção. Eu não tenho medo dos finados e ando pensando muito em minha mãe, que se foi há 13 anos 10 meses e 21 dias. Ela tinha pavor dos mortos, e pedia para nunca ver nada. Seu "texto" lírico, Pedro, fez-me lembrar de Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. Os mortos podem voltar para nos encantar e não para assombrar. Eu creio nisso.
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