Mudamos nós e por isso o Natal está
mudando
“O Natal está com os dias contados!”. Quem fez esta
afirmação peremptória e, sobretudo, sombria, com ares “sapienciais” de um
profeta bíblico, foi um amigo meu, desses azedos e pessimistas, que não veem,
em nada e em ninguém, motivos para qualquer tipo de celebração. Por se tratar
de um “zero à esquerda” (e que ele me perdoe a franqueza, mas é isso o que ele
é, embora não seja, para mim, motivo para desfazer nossa amizade), meu primeiro
impulso foi o de ignorar o que no momento considerei um disparate, sem pé e nem
cabeça. Todavia, não sei por qual razão, aquela sua “predição” ficou martelando
em minha cabeça por vários dias. Analisando as coisas com frieza, todavia, de
repente a afirmação do meu esquisito amigo não me pareceu totalmente despida de
sentido.
Que o Natal mudou muito, e já não digo do tempo da minha
infância (de quase sete décadas atrás), mas, digamos, do início deste terceiro
milênio da era cristã, é fácil de observar. Aliás, essas mudanças vêm ocorrendo
num crescendo, sobretudo do início do século XX até nossos dias. Um dos
escritores mais citados internet afora, neste período que antecede à celebração
máxima da cristandade, é Machado de Assis. Tal citação não se deve a algum de
seus incríveis romances ou de seus originalíssimos contos, mas a um poema, mais
especificamente seu “Soneto de Natal”. E o que o “Bruxo do Cosme Velho”,
travestido de excelente poeta (o que, de fato, também foi), expressa nos
citados 14 versos dessa peça literária, transformada num clássico da nossa
Literatura? Constata a “mudança” ocorrida na forma de, já não digo celebrar,
mas até mesmo de encarar essa tradicional data.
Machado relata, basicamente, o empenho de um poeta para
escrever um poema expressivo, quiçá definitivo, sobre o Natal. Tenta, insiste e
persiste em buscar inspiração para definir o real motivo da sacralidade dessa
celebração. Em vão! É quando lhe surge a dúvida (que, no entanto, não é a
minha) para, “em vão lutando contra o verso adverso”, só “lhe sair este pequeno
verso”: “Mudaria o Natal ou mudei eu?”. Respondo sem pestanejar, amado mestre:
ambos mudaram. E continuam mudando. E vão mudar muito mais ainda, o que torna
plausível a sombria previsão do meu amigo pessimista. Tudo mudou e, tirando as
facilidades proporcionadas pela tecnologia, considero que todas essas mudanças
foram para pior.
Mudou o mundo, cada vez mais superpopuloso, poluído, injusto
e violento, que a qualquer momento pode implodir, ou explodir, eliminando para
sempre a nossa espécie como já ocorreu com outras tantas. Mudou a mentalidade
do homem, cada vez mais cético e egoísta, que não se dá conta da sua óbvia
efemeridade e que se julga poderoso e invulnerável, esquecido que a morte pode
abatê-lo no segundo seguinte. Mudaram as religiões, corrompidas pela ganância e
pelo mercantilismo. Mudou a família, instituição que deu origem à própria
civilização, que pouco a pouco se transforma para pior. Por isso, não é de se
estranhar que o Natal também tenha mudado. Pudera! Muitos condenam, por
exemplo, o fato da data ter sido apropriada pelo comércio. Isso, todavia, nem
mesmo seria ruim se, simultaneamente a essa preocupação, fosse mantida sua
finalidade original. Não vejo nenhuma incompatibilidade entre dar e receber
presentes, entre reunir a família ao redor de uma farta mesa para
confraternizar e, ainda assim, pensar no verdadeiro significado do Natal: a
celebração do aniversário de Jesus. Infelizmente... não é o que ocorre.
Prioriza-se o lado material, em detrimento do espiritual.
Nos dias atuais, em muitos países, os estádios de futebol vivem superlotados, no 25 de dezembro, e as igrejas andam cada vez mais às moscas. Na Premier Ligue inglesa, por exemplo, já se tornou tradicional a rodada natalina. O mesmo ocorre no futebol americano. A “religião” do homem moderno é o seu clube, não importa de que modalidade. Por conseqüência, sua “igreja” são os estádios e as quadras, onde ele esbanja ignorância e fanatismo, como se o futebol, o basquete, o beisebol, o futebol americano etc.etc.etc. fossem o que de mais sagrado existe, o máximo ideal de suas medíocres vidas. A prosseguirem e se acentuarem tais mudanças, que se tornam mais aceleradas de ano para ano, meu amigo pessimista logo, logo estará com total razão. Se a mentalidade não mudar, o Natal estará, mesmo, com os dias contados. Tomara que não! Tomara que a humanidade caia em si e mude de atitude, sem a necessidade de nenhuma catástrofe para lhe abrir os olhos. Feliz Natal a todos... enquanto ele ainda existe!!!
Boa leitura!
O Editor.
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Dos 7,5 bilhões de humanos, 2,2 são cristãos, dentro das várias denominações. Os outros 5,3 milhões não têm porque comemorar o Natal.
ResponderExcluirErrata: 5,3 bilhões
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