Lúcia foi para o céu
* Por
Marcelo Sguassábia
Era uma vez a recatada
Lúcia, que farta de tudo abandonou o jogo. E após lançar-se de um penhasco
próximo, deu consigo a flutuar e a atravessar paredes. Livre do carne e da
gravidade, vestiu-se de luz e pôs-se a vagalumear calma e displicentemente. A
chave do tempo nas mãos, todo o espaço de outros mundos a percorrer como quisesse.
Via-se agora como sonhava ver-se, intercambiando entre as várias Lúcias dos
dias felizes. Via-se Láctea universo afora. Via-se as muitas que fora outrora.
Mamava sôfrega o leite da mãe, pulava sela e batia cara contando até cem – lá
vou eu!
E lá foi a Lúcia. Já
foi tarde da imundície desses dias mutilantes. Um bilhete só de ida com destino
a never more. Ao entrar no vagão do itinerário eterno, pegou uma janelinha na
poltrona nove. Desceu na estação seguinte, onde topou com a Lúcia em seu
vestido verde de babados brancos. Recém-entrada nos dezesseis, recende a
sândalo e odor de fêmea. Lúcia olhando Lúcia, encontram-se finalmente,
estranham-se mutuamente.
Embarque para Saturno
na plataforma 2. Lúcia cósmica cintila, enlaçada em seus anéis. Alianças várias,
de formatura, de noivado e casamento. Aceita, Lúcia, esse sujeito como esposo?
Pode ser que sim, pode ser que não. Provavelmente talvez. Núpcias de Lúcia.
Gastando a vida em meio a trapos, afazeres e panelas de pressão. Faz as unhas,
tinge o cabelo, fuma, ganha filhos e olheiras. Os dias voaram, os meses voaram,
os anos voaram e Lúcia também. É, agora Lúcia voa para onde bem entender. A
senhora Lúcia, senhora de si.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Belíssimo relato sobre o tempo e o encontro de todas as lúcias que ela foi. Gostei demais e fiquei a imaginar as diversas Maras que eu fui.
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