Liberdade "para"
O meu vizinho do lado direito de quem
desce a rua em que moro, curtinha, de apenas quatro quarteirões, em um bairro
considerado “nobre” de Campinas, é apreciador de passarinhos. Responsável, como
é, tem apenas aqueles nascidos e criados em cativeiro, como determina a lei.
Não tem, portanto, problemas com o Ibama. Entre os inúmeros exemplares que
possui, se destaca um curió, que, certamente, venceria qualquer concurso de
canto. É um “artista” sem igual, de fazer inveja a Luciano Pavarotti, Plácido
Domingo, José Carreras, Enrico Caruso ou Mário Lanza!
Todas as manhãs ele me desperta com
seus gorjeios vibrantes, que me parecem entusiasmados (talvez sejam apenas
lamurientos, sei lá) e, invariavelmente, no mesmíssimo diapasão. É sempre a
mesma “música”, sem tirar e nem pôr que, no entanto, como ato de magia, me
parece, a cada dia, nova, embora não o seja. Esse passarinho já me suscitou
inúmeras reflexões, notadamente sobre liberdade.
Trata-se, óbvio, de tema polêmico,
debatido desde que, provavelmente, o homem tomou consciência de si e do mundo
em que vivia, sem que nunca se esgotasse. Jamais irá se esgotar. É daqueles
assuntos que nunca obtêm consenso. Em nome desse conceito, diga-se de passagem,
já foram cometidas incontáveis atrocidades, que seguem, na verdade, sendo
praticadas, cotidianamente, por verdugos, caudilhos, ditadores e demagogos de
toda a sorte, poderosos ou não.
O canto do curió, hoje, que me
despertou, como sempre, para a aventura de um novo dia, me levou a pensar, aqui
com meus botões: “É verdade que este pássaro nasceu em cativeiro. Jamais
conheceu a sensação de voar livre pelos céus. Até para se acasalar, foi-lhe
determinada uma parceira, não a da sua escolha, mas a que seu dono decidiu que
seria a ideal. Não seria melhor, para esta ave, a liberdade da natureza, de uma
floresta com muitas árvores, cortada, aqui e ali, por suaves regatos, como
ocorre com tantos outros espécimes da sua espécie?”.
Em princípio, esta me pareceu ser a
lógica. Daí veio-me à mente a questão da segurança. “Esse curió, pelo qual já
me afeiçoei tanto, pelo seu canto tão inspirador, seria mais feliz, de fato, no
mundo exterior à sua gaiola, que nunca conheceu, já que nasceu em cativeiro?
Saberia, apenas por instinto, sem que ninguém o ensinasse, a encontrar o
alimento para sobreviver, ele, que agora não precisa se preocupar com isso, já
que tem alguém que o alimente? Teria condições de se livrar dos predadores?
Saberia se defender? Sobreviveria por muito tempo? A liberdade lhe seria um bem ou um mal?”.
Claro que a esse propósito as opiniões
se dividem e todos, defendam a posição que defenderem, certamente terão fortes
argumentos para fundamentar o que pensam. Raros, raríssimos de nós somos, de
fato, livres. Nascemos, fomos criados e permanecemos até a nossa morte, a
exemplo do curió do meu vizinho, numa “gaiola”: a dos compromissos. Somos
(salvo raras exceções), não o que, no fundo da alma, queremos, mas o que nossas
famílias planejaram para nós. Agimos de acordo com as convicções que nos foram
incutidas pela educação que nos foi dada e não com os ditames do nosso coração.
Gozamos da segurança de um emprego, o
qual, mesmo manietando nossas verdadeiras potencialidades, nos dá a segurança
de um razoável (para alguns, claro) salário no final do mês para manter nossas
famílias com razoável conforto e tranqüilidade. Temos, pois, liberdade “de”,
não “para”.
O poeta indiano, Rabindranath Tagore
(de etnia “sikh”), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1918 (que
devolveu, em protesto pela política da Grã-Bretanha em relação à Índia),
escreveu o seguinte a respeito: “Tenho sobre minha mesa uma corda de violino.
Ela é livre. Torço uma de suas pontas e ela reage. É livre. Mas não é livre
para fazer aquilo que uma corda de violino deve fazer – produzir música.
Pego-a, pois, prendo-a no meu violino e aperto-a até ficar tesa. Só então ela é
livre para ser uma corda de violino. Do mesmo modo nós somos livres quando
nossas vidas não têm compromissos, mas não para ser o que fomos destinados a ser.
A verdadeira liberdade não é liberdade ‘de’, mas liberdade ‘para’”.
Não temos, pois, que nos condoer da
sorte do curió do meu vizinho. Guardadas as devidas proporções, somos iguaizinhos
a ele. Talvez o pássaro (se tiver raciocínio e consciência) não se contente com
a segurança da sua gaiola e prefira se arriscar na natureza. Talvez... Nós,
todavia, conformamo-nos com ela. E, até certo ponto, nos sentimos felizes (ou
achamos que somos) com essa situação. Mas será que somos?
Talvez nos sintamos assim por não
conhecermos outro tipo de vida. Pode ser que o curió também se sinta dessa
maneira. Ninguém poderá, óbvio, afirmar, com absoluta certeza, que a ave seja
ou não seja feliz. Raros, raríssimos de nós gozamos da verdadeira liberdade.
Não a “de” que nos seja outorgada, mas a “para”, que não tenha a interferência
de nada e ninguém.
A esse propósito, aliás, vem a calhar o
poema da poetisa Fabiana Bórgia, intitulado “Gargalhada sem censura”, que
consta do seu livro intitulado “Desconexos”, que tenho em mãos neste momento e
que diz:
“Liberdade é
verdade sobre a mesa,
prato principal.
Sinceridade de amigos,
amor não de bicho,
mas de homem.
Liberdade é o que não tem preço:
é apreço.
Liberdade
não tem prazo de validade.
É gargalhada sem censura.
Liberdade é escolher
estar preso”.
A cada dia que passa, sinto-me mais e
mais ligado ao curió, até pela identidade de situações e destinos (guardadas,
claro, as devidas proporções). Ambos cantamos, posto que cada qual à sua
maneira. Ele, talvez exaltando a floresta que sequer conhece. E eu... falando
de uma vida que poderia ser mais breve, é fato, mas, no entanto, mais feliz e
digna de ser vivida. Somos livres? Quem sabe?
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Ninguém sente falta daquilo que não viveu, que não sabe o que é. O curió não deve ser infeliz, assim como não é infeliz uma criança que quase não vê a mãe, caso tenha sido sempre assim. No entanto, nunca se sabe com certeza.
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