Herança de luz
* Por
Ana Suzuki
Agora eu já conhecia
todas as cegas. Quando vi uma na rua, corri para ela.
- Quer que eu ajude,
quer que eu lhe dê o braço?
- Deus me livre! Muito
obrigada, dona Ana.
- Entendo! É uma
questão de independência...
- Independência nada!
O diabo é que esta rua tem calçadas muito estreitas, o vidente começa a
conversar e acaba esquecendo que a gente não enxerga...
- Esquecendo?
- É, é isso mesmo. Ele
se entusiasma e a gente, confiando nele, acaba metendo a cara num poste.
Fiquei quieta, ia
deixá-la em paz, mas ela acrescentou, eufórica:
- Isso não me deixa
triste, porque está próxima a minha vez de receber um transplante de córnea.
Vou enxergar muito bem os postes... e aí sim vou poder conversar enquanto ando.
Quando me lembro
disso, sinto um certo orgulho de minha família. Somos todos, há muitos anos,
doadores de córneas. E por que não? Querer levar os nossos olhos terrenos para
o outro mundo é o mesmo que querer levar dinheiro.
A luz dos olhos de meu
pai e de minha mãe andam por aí, iluminado os caminhos de alguém.
Um dia eu, minhas
filhas, meu irmão, minhas sobrinhas, todos estaremos deixando neste mundo, para
pessoas que nem conhecemos, uma herança de luz.
*
Escritora e acadêmica da Academia Campinense de Letras.
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