sábado, 3 de dezembro de 2016

Herança de luz


* Por Ana Suzuki


Agora eu já conhecia todas as cegas. Quando vi uma na rua, corri para ela.
- Quer que eu ajude, quer que eu lhe dê o braço?
- Deus me livre! Muito obrigada, dona Ana.
- Entendo! É uma questão de independência...
- Independência nada! O diabo é que esta rua tem calçadas muito estreitas, o vidente começa a conversar e acaba esquecendo que a gente não enxerga...
- Esquecendo?
- É, é isso mesmo. Ele se entusiasma e a gente, confiando nele, acaba metendo a cara num poste.

Fiquei quieta, ia deixá-la em paz, mas ela acrescentou, eufórica:
- Isso não me deixa triste, porque está próxima a minha vez de receber um transplante de córnea. Vou enxergar muito bem os postes... e aí sim vou poder conversar enquanto ando.

Quando me lembro disso, sinto um certo orgulho de minha família. Somos todos, há muitos anos, doadores de córneas. E por que não? Querer levar os nossos olhos terrenos para o outro mundo é o mesmo que querer levar dinheiro.

A luz dos olhos de meu pai e de minha mãe andam por aí, iluminado os caminhos de alguém.

Um dia eu, minhas filhas, meu irmão, minhas sobrinhas, todos estaremos deixando neste mundo, para pessoas que nem conhecemos, uma herança de luz.

* Escritora e acadêmica da Academia Campinense de Letras.



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