Temer no Roda Viva: entrevistá-lo-ei
* Por
José Ribamar Bessa Freire
A entrevista do
presidente Michel Temer no Roda Viva da TV Cultura, segunda-feira (14), tem de
ser exibida nos cursos de jornalismo para familiarizar os futuros profissionais
com o gênero entrevista e ensinar-lhes o que não deve fazer um entrevistador.
Durante hora e meia, seis jornalistas de projeção nacional inverteram a
conhecida lição de Millôr Fernandes para quem "jornalismo é oposição, o
resto é armazém de secos e molhados". Sem qualquer senso critico, suas
perguntas transformaram o programa numa quitanda para Temer vender seu peixe.
Tudo farsa, encenação.
A falsidade desse tipo
de entrevista já foi ironizada num texto discutido em sala de aula com meus
alunos dos cursos de jornalismo da UERJ e da Universidade Federal do Amazonas
(UFAM). Seu autor, Nelson Rodrigues, conta que no "dia excepcional e
crudelíssimo" do assassinato de Kennedy, com o mundo pegando fogo, uma
repórter estagiária do Jornal do Brasil pediu para entrevistá-lo, ele preparou
frase de impacto sobre o crime político, mas ela queria saber sua opinião
sobre... o jogo Vasco x Botafogo.
- "Humilhado e
ofendido, pensei no dia em que nós jornalistas estaremos sob as ordens das
estagiárias" - suspira Nelson, que era tricolor. Pois bem, esse dia
chegou. Pior: quem está dando ordens não são inexperientes estagiárias, mas a
temerosa voz do dono. Quem duvidar, confira no Roda Viva as perguntas dos
coleguinhas que sepultaram a informação em detrimento de futilidades. O país
caindo aos pedaços e eles sequer mencionaram a palavra "crise". A
estagiária, pelo menos, estava interessada no campeonato carioca - um evento da
vida pública e não da privada focada por
Ricardo Noblat do Globo que perguntou:
- Presidente, como foi
que o senhor se apaixonou por dona Marcela? Como foi essa descoberta?
Por amor
Temer era uma pose só.
Fez caras e bocas. Com a ponta da língua esticada pressionou a bochecha, girou
os dedões de proctologista e contou para seis jornalistas embevecidos que
conheceu Marcela há quinze anos, em campanha para deputado federal, num
restaurante do tio dela, em Paulínia. Noblat enxugou uma lágrima furtiva, mas
mesmo assim, com aquela coragem que o caracteriza, apertou o entrevistado em busca
de apuração rigorosa e exaustiva de fato tão relevante para o Brasil, que
ansiava por ela:
- Sim, mas o senhor
passou quanto tempo até se declarar? - insistiu.
Temer contou que só
foi possível retomar o contacto com Marcela porque ela, não resistindo ao seu
charme, parabenizou-o pela vitória eleitoral em carta enviada não para o
endereço do PMDB, como era de praxe, mas para o escritório do seu amigo
Gaudêncio Torquato, que serviu de cupido e lhe entregou a missiva com o
telefone dela. Sete meses depois estavam casados. A novela "Por Amor"
pode, enfim, ser reescrita, graças a Noblat, que certamente entrevistará
Marcela para checar assunto tão transcendental, como manda o bom jornalismo. O
Brasil aguarda ansioso.
Nunca olhei o Noblat
como ele olha o Temer, mas admirava o autor do livro "A Arte de Fazer um
Jornal Diário", no qual afirma que um jornalista não pode ficar para trás
quando seus leitores avançam. Ele ficou. Sua inspiração - parece - são os
antigos colunistas sociais de Manaus, entre eles Little Box, Gil, Ana Maria
blá-blá-blá e Nogar tudo-vê-tudo-informa. No final, o âncora Augusto Nunes
anunciou que Willian Corrêa, diretor de jornalismo da TV Cultura, estava com
cara de quem queria fazer uma pergunta dissonante. Passou a bola ao
colega:
- "Presidente,
fiquei sabendo que o senhor é gente como a gente, que quando criança pediu a
seu pai um piano, mas ele lhe deu uma máquina de escrever. Perdemos um grande
pianista, mas ganhamos um grande escritor. E um passarinho me contou que o
senhor está escrevendo um romance. Adianta o tema para nós,vai" - suplica
o intrépido Willian, espiritualmente agachado. A porra do passarinho bem que
podia lhe piar que o desemprego está chegando a 12% e que o Brasil está virando
uma panela de pressão prestes a explodir. Mas o passarinho do Willian não é ave
de mau agouro.
Grandes figuras
Vaidoso, patético, com
pose de estadista de Paulínia, Temer enfrentou a dissonância com galhardia.
Relatou que aos 10 anos obteve seu diploma de datilógrafo. Que morou até os
quatro anos numa chácara no interior paulista e que recordava de tudo. Que seu
romance será autobiográfico como o "Bom Dia, Tristeza" de Françoise
Sagan. Que todo romance faz ficção da vida do autor. Que Saramago contou
"uma coisa curiosa" ao afirmar que ele não era criador dos seus
personagens, mas os personagens é que o criaram. Só faltou citar Pollyana.
Mas quem se superou
mesmo foi Eliane Cantanhêde da Globo News e do Estadão. No vídeo de sete
minutos que circulou nas redes com cenas depois da entrevista, ainda no Palácio
da Alvorada, ela avaliou, quase de cócoras, que Temer "foi muito bem,
muito equilibrado e muito afirmativo, não recusou nenhuma pergunta". E
sussurrou para Willian Correa em tom de segredo:
- Ele está escrevendo
um romance. E olha, cá pra nós, aqui baixinho, que ninguém nos ouça: de romance
o presidente entende, hein?
Willian Corrêa
qualificou essa edição especial comemorativa dos 30 anos do "Roda Viva"
como um encontro de "grandes figuras perguntando e uma grande figura
respondendo". Sem vergonha e sem timidez pudibunda, ele se incluiu entre
os "grandes". Só faltou o Merval Pereira. O resultado, é claro, não
podia ser outro: perguntinhas e respostinhas.
Os demais tópicos
abordados foram o elogio ao senador Romero Jucá envolvido na Lava-Jato,
citações ao próprio Temer nas delações premiadas, eventual prisão do Lula,
reformas trabalhista, da previdência e do ensino médio, a anistia ao Caixa 2.
Visto assim parece que tinha tutano naquele osso. Não tinha. Temer não era a
favor, nem contra, muito pelo contrário. Confirmou a pedra cantada há mais de
meio século por Nelson Rodrigues:
- "O entrevistado não diz uma palavra do
que pensa ou sente. O que vale é o cinismo gigantesco".
Os entrevistadores, em
vez de contestar, se curvaram diante de afirmações vagas, evasivas e
supersimplificadas. A única verdade dita por Temer foi após a gravação, quando
ele agradeceu diante das câmeras aos seis entrevistadores e à TV Cultura:
- "Eu cumprimento
vocês por mais essa propaganda".
As gargalhadas
indecorosas dos jornalistas cúmplices confirmaram: aquilo não era jornalismo
nem aqui nem na China. Era armazém de secos e molhados. Pura propaganda do
governo, com elogios e bajulação, confundindo o respeito devido a qualquer
presidente com a subserviência que se deve evitar, negadora da relativa
independência almejada por todo bom jornalista.
Quem entrevista
representa a audiência diante do entrevistado, que deve ser apertado e
questionado para extrair dele informações de interesse público. Ocorreu o
contrário. Os seis colegas inverteram os papéis e representaram Temer diante do
telespectador, ocultando o que devia ser mostrado, apelando para a emoção
barata e nos tratando como se fôssemos lesos. Perdi o respeito por eles. O riso
do Willian diante do Temer, francamente e com todo o respeito, é abjeto, de
quem está de quatro. Confesso que fiquei morto de vergonha do armazém de secos
e molhados, do jaraqui vendido naquela vendinha vagabunda. Até para puxar saco
se exige um mínimo de pudor.
*
Jornalista, professor e historiador.
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