Banqueiros e bancários
* Por
Urariano Mota
Recupero aqui um texto
que publiquei no Vermelho e no Direto da
Redação. Por infelicidade, em toda greve de bancários o texto é atualizado. Se
não, acompanhem.
Sempre não querem
nada, os pobres banqueiros. Menos impostos, regras mais duras para recuperar o
empréstimo inadimplente, e a prática de viver acima das regras de todo e
qualquer cidadão.
Vale dizer, desejam o
mesmo que sair da área econômica para entrar na área criminal, porque medidas
mais duras equivalem a tomar tudo de quem deve até a vida. É sério. Os sofridos
donos de banco reivindicam até maior “velocidade processual”, para a retomada
mais rápida dos bens financiados. Na tora.
O leitor, que apenas
tem com os bancos a relação em que entra com o pescoço e os banqueiros com a
guilhotina, atente para como agem com outros mais explorados, os bancários
empregados no sistema.
Segundo pesquisa da
CUT e do Dieese, os bancos abriram 23.599 postos de trabalho em 2011 no Brasil,
mas os novos contratados receberam salários 40,87% inferiores, em média, ao dos
trabalhadores desligados das instituições. (Quais piores números em 2016?) Na
ponta das contratações oportunistas, está o bravo Bradesco. O que isso
significa? Mais carga de jumento para quem entra por preços mais baixos.
De minha experiência
de bancário, posso dizer que nunca quis ser caixa, pois grande era a tentação
de pedir empréstimo em condições de anistia. Mas lá na retaguarda bem pude
sentir a parafernália tecnológica, aquela propaganda maravilhosa de
financiamentos fáceis, que se contraem com um piscar de olho à recepcionista,
naquele ambiente de ar-refrigerado, de eficiência, teclados on-line, telefones
e sorrisos, muitos sorrisos, como eu poderia chamar a isso trabalho? Era a
própria expressão do sofrer no paraíso.
Se o grande público
tirasse as névoas dos comerciais, em lugar de se enfeitiçar com o mobiliário,
com as máquinas, de ver apenas o palco onde se encena o bancário feliz, e
passasse a olhar com o cérebro as informações dos balanços econômicos, bem
perceberia a vida que pode levar um bancário em meio a tamanha selva de lucros
astronômicos.
Ganharia uma aula viva
do conceito de mais-valia, esse outro brilho de Marx. E saberia que há muito as
estatísticas põem os bancos em primeiro lugar no ranking dos Dort (Distúrbios
Osteomusculares Relacionados ao Trabalho), que inclui doenças da coluna,
tendinite, bursite e LER (Lesão por Esforço Repetitivo).
Talvez os números de
sucesso empresarial de um lado e sucesso em mandar trabalhadores para o inferno
de outro não sejam capazes de ferir a percepção. Pode-se até dizer, a relação
entre as duas coisas não está clara. Isso é apenas uma coincidência, pode ser
dito, uma coincidência forçada por quem escreve. Ora, se um avião cai no
momento em que escuto Roberto Carlos, nem por isso podemos relacionar desastres
aéreos à voz do Rei. Por isso passo a falar da viva experiência, que pode ter
sido forçada, mas jamais uma coincidência.
O homem que se costuma
imaginar como um trabalhador de jornada de começo às 10 e fim às 16 horas,
chega ao banco muitas vezes às 7 da manhã, e sai por volta das 19, ou 20, ou
21, ou 22 horas, a depender do dia, que na linguagem bancária se chama de
“movimento”. De um deles ouvi:
– A gente fecha os
olhos no banco, e quando volta a abri-los, está no mesmo lugar.
Isso foi dito em um
dia de grande “movimento”, em que cochilávamos em pé, poderia ser dito, por
volta das 23 horas, quando estávamos todos mal cheirosos e pior ainda vestidos.
Na rede privada,
mulheres não casam, ou melhor, não podem dizer que se casam, porque o banco não
pode correr o risco de pagar a licença-maternidade. Isso por um lado.
Por outro, significa
também que as bancárias, digo, mulheres sempre jovens, com formas e feições que
despertem o calor do investimento, devem sempre guardar a perspectiva de uso
para os clientes mais ricos. Maridos atrapalham, quando não embaraçam. Para quê
esposos na vitrine dos produtos oferecidos?
Entendam, não é bem
que nos bancos privados seja oferecida à mulher a perspectiva de ser
prostituta. Não, dizer isso seria cometer uma grosseria. Devemos dizer, de modo
mais educado: os bancos apenas desejam que elas acenem, em mais uma das suas
operações enganosas. Um sorriso, uma esperança… quem sabe? Mas se o cliente
poderoso agarrar essa promessa com garras fortes, a isso comentará o banqueiro:
– Em minha empresa
todos são livres.
Notícias assim não
saem no Jornal Nacional. Quem pagaria o patrocínio?
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho
renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros
As suas palavras e ideias criaram um cenário forte e explosivo.
ResponderExcluir