Almoços de domingo
* Por Laís de Castro
Todo domingo era a mesma coisa. Minha
avó do lado de cá da praça atravessava e ia falar com a minha avó do lado de lá
da praça, vamos juntar as panelas, é uma delícia benigna, ninguém fica triste
com ninguém e, uma levava as panelas ou travessas para a casa da outra e comia
todo mundo junto era assim que funcionava. O padre, claro, era o convidado de
honra, que almoço de domingo sem padre, sem pão e sem maionese, não é almoço de
domingo. Nós éramos os menores e ficávamos observando os maiores, eles faziam
tudo sempre igual, repetiam os mesmos gestos, os mesmos trejeitos, os mesmos
escorregões.
Minha avó do lado de cá da praça,
depois que sentava à mesa, fazia uns dez nomes-do-padre, até o padre resolver
enxergar aquele gesto religioso como se aquilo fosse a senha para ela subir
mais um degrau em direção ao céu. Padre Gilberto era gordo, vermelho, bolachudo
e mais distraído que gato caçando mosquito, para azar da minha avó, ele
demorava a ver o nome do padre, ela ficava lá repetindo, parecia que tinha
entrado em surto. Mas, quando ele via, a reza já podia ir adiante, como ia. Meu
avô tinha mania de usar roupa de professor, ele era professor mesmo, punha
aquele jaleco branco como anúncio de Omo, com a gravata borboleta e quase
sempre se fazia ouvir, contava uma história, até cantar cantava, cantigas bem
antigas “mostraram-me um dia, na roça cantando, mestiça formosa...”.
Quando ele estava comendo cofiava a barba que não tinha com a mão esquerda e
depois que acabava, tirava grandes cochilos ali fingindo que estava acordado e
se a gente dizia o vovô está dormindo corria risco de vida. Um dos meus tios
tinha mania de encher os copos de água, cada um numa altura e depois ele ia
molhando o dedo e tangenciando em torno da boca daqueles copos de cristal meio
frouxo e tocava músicas que hoje seriam celestiais aos meus ouvidos velhos e
saudosos. Naquele tempo a gente nem aplaudia, nem ouvir direito ouvia e, quanta
coisa eu não sabia, nunca imaginaria que aquela música ficaria impregnada no
meu cérebro como o som da minha infância.
Era uma festa aquele almoço. Os garotos
mais velhos, já na adolescência, hormônios borbulhando à flor da pele, queriam
mostrar para as primas – todo garoto que se preza tem tesão pela prima e sonha
em comer a professora de história – que eram machos e tomavam um cálice de
pinga pura e comiam sanduíche de pimenta. O cálice de pinga era do tamanho de
um dedal, mas tomado como num ritual, sob o olhar soberano e magnânimo dos tios
e tias, que pareciam entender aquele teatro essencial para o masculino dos
meninos. E o sanduíche de pimenta era feito sob supervisão do primo Pedro, come
que não arde, rapaz, você é mariquinha ou o que, nem arde, quer ver,
experimenta. Não arde mesmo, depois eu soube que pimenta apanhada do pé, antes
de curtir arde menos, quanta coisa eu não sabia.
As meninas, por sua vez, excitadas com
aquele espetáculo viril, trocavam segredos e riam, com as mãos tapando a boca e
falando no ouvido, duas queriam o mesmo primo e elas se dividiam em facções,
umas apoiavam uma e outras a outra, primo Carlos combina com a Dinha, porque a
Ioiô quer se meter entre eles, ela vai sair perdendo, prima Fininha é que tem
razão, escolheu para ela o primo Tico, que é horrível e ninguém quer (esse
seria o casal mais feliz da família mais tarde).
A mesa era tosca, pintada de um azul
colonial-brega e tinha, em volta de cada pé uma lata de manteiga Aviação cheia
de água para as formigas não subirem. Claro que aquela água também ia
apodrecendo a mesa e, a cada ano ela ficava um centímetro mais baixa, quem é
que se importa com isso é bem melhor do que ter formiga no açúcar e no doce,
dizia minha tia solteirona. A mesa estava lá há tanto tempo que parecia
plantada no varandão que dava para o quintal, de acabamento de cimento grosso
no chão e nas paredes. As vigas que sustentavam o telhado eram de madeira,
pareciam dormentes longos, sobre os quais já haviam passado muitos trens.
Talvez fossem mesmo, o bisavô era maquinista e tinha uma foto dele na sala de
tábuas largas e gastas de tanto lavar, orgulhoso, com a farda de lã pesada azul
marinho e botões dourados.
Naquela varanda almoçavam, todos os
domingos, umas 30 pessoas, incluindo as crianças. Falava-se de política,
futebol, da vida alheia, de crianças, receitas, doces. Não havia televisão, mas
havia o barulho do vento batendo nas folhas das dezenas de árvores do pomar
que, embora as casas já fossem na cidade, teimava em sobreviver. O pomar era de
verdade. Já a cidade, era uma vila de cerca de cinco mil almas claras e noites
escuras, mal iluminadas por lâmpadas avermelhadas, penduradas no alto de postes
de trilhos, projetando embaixo uma rodelinha de luz triste, eivada de besouros.
Os dias, sim, eram ensolarados,
alegres, felizes, nós não tínhamos mais do que 10 anos e podíamos sair sozinhos
de casa, jogar futebol, subir em árvore, roubar goiaba vermelha do quintal do
Roberto Querido e caju do quintal do Dr. Hugo! Os dias eram assim. E, aos
domingos, tinha aquele almoço.
Lembro o sabor de cada prato, a
lazanha, porque diabos havia lazanha naqueles interiores, a infalível maionese,
a meia dúzia de frangos assados e recheados de farofa, o arroz branco e o
saladão de folhas verdes que horas antes tomavam vento na horta. O tempero da
salada vinha numa grande molheira, era óleo de milho com vinagre e sal e olhe
lá, naquela época eu nunca tinha visto um azeite de oliva de perto, nem sabia
que existia, quanta coisa eu não sabia. Mas como era bom aquele molho ralo, que
levava sal e açúcar e um pouco de alecrim, eu via minha tia fazer.
Antes do almoço, os mais velhos tinham
direito a caipirinha e desfrutavam de seu direito com um certo exagero. O
Menossi tomava vinho. Taí. Talvez a existência deste feroz tio italiano, marido
de uma das tias, explique a presença da lazanha naquele fim de mundo.
Refrigerantes eram caros e raros, mas laranjada, melada de açúcar, era farta e
barata.
A varanda era enorme, generosa, tem pra
todo mundo, sombreada, mas se chovesse, a gente já sabia que era picotada de
goteiras. Quanta coisa a gente sabia que os meninos e meninas da cidade grande
jamais saberão! A água das goteiras nem faria mal, contudo eu não me lembro de
ter almoçado lá nem um dia sem o sol acariciando a nossa pele, nós, os menores,
que ganhávamos o prato primeiro e podíamos comer na escada que dava para o
pátio, com o prato no colo, não derruba, menino que te dou um tabefe, já varri
esta escada dez vezes hoje. As galinhas é que gostavam, porque eles iam
juntando aquela farofa, arroz e o resto da porcariada e depois jogavam no
galinheiro. Do lado direito tinha uma
parreira de uvas vermelhas, daquelas bem comuns e do lado esquerdo havia uma
mangueira generosa em oferecer mangas coquinho, aquela redondinha que parece um
coco mesmo. Havia outras mangueiras por lá, manga-família, manga-bourbon, manga
comum, aquela cheia de fibras.
Outra coisa que a gente nunca tinha
ouvido falar na vida era a tal de manga-haden, que os japoneses inventariam uns
30 anos depois, com centenas de casamentos de espécies de mangueiras, enxertos
bem e mal sucedidos como os das pessoas. Quanta coisa eu não sabia. No meio
tinha, e ainda tem, quem quiser acredite, duas jabuticabeiras rainhas,
frondosas e donas do quintal. No seu tronco, duas garrafas de cabeça para baixo
com uma rolha mal furada, pingavam gotas de água permanentemente.
Jabuticabeiras gostam de água para dar mais frutos. Quanta coisa eu sabia!
Aquele era o tempo da delicadeza,
falava-se alto mas sem ofensas, as crianças tomavam palmadas mas nunca surras,
ficavam de castigo no quarto, mas nunca ajoelhadas no milho. Uma das avós, a
matriarcona, vivia chorando pelos motivo mais tolos. A outra avó, transplantada
da cidade para o interior, ainda parecia fora de seu ambiente natural, mas
fazia um esforço visível – e muitas vezes frustrado – para se adaptar. Uma
tinha uns óculos foscos e velhos, a outra tinha uns óculos de cristal límpido,
mas nenhuma tinha maldade na alma, nem dinheiro na conta bancária, que nem
banco tinha lá. Eram pessoas simples, de boas famílias, gente honesta, que
trabalhava e vivia do fruto de seu trabalho, nunca exploraram nem humilharam ninguém, nunca roubaram e nem
maltrataram os mais fracos e oprimidos. Digo mais, porque todos ali eram
também meio fracos e oprimidos.
Naqueles almoços, no entanto, todos
eram fortes, livres e felizes. Naqueles almoços que iam terminando não sei bem
como, as meninas saíam para trocar seus segredos em paz, os mais velhos saíam
para dormir, o padre dormia na mesa mesmo, as mulheres lavavam a louça e os
adolescentes talvez fossem acertar suas necessidades hormonais em outras
plagas. O sol ia se tornando tépido e as sombras se alongavam, poucos comiam as
compotas de abóbora, de mamão verde e as goiabadas cascão em colheradas que
vinham para a mesa já lá pelas 4 da tarde. E poucos tomavam o café adoçado no bule,
de matar diabético. Era uma preguiça tão linda, tão pura, tão sonora, e tão
densa, que se poderia cortar com faca.
Nós, os menores, íamos correr na rua,
brincar de esconde-esconde, barra-manteiga-da-fuça-da-nega, amarelinha e jogar
queimada ou futebol, ah, o futebol amado, já falei dele, mas nunca é demais
repetir, eu pegava no gol, e bem.
Depois,
exaustos, meninas e meninos se deitavam no chão da varanda, para contar
terrificantes histórias de medo, sabe que quando desenterraram a filha da dona
Silvéria, o cabelo dela tinha crescido mais de um palmo, olha, quando foram lá
no cemitério pintar o muro ouviram uns gemidos, mentirosa, meu pai que falou,
mentiroso é você, tudo acabava numa boa briga, gritaria infantil, besta é você.
Mas tinha que ser antes que anoitecesse, para a gente ter tempo de esquecer e
dormir o sono dos justos, de crianças tranqüilas, com sonhos leves. Bem,
haveria a sessão de histórias se não fosse tempo de jabuticabas. Se fosse,
aquela reunião infanto-literária ficava para outro dia, que o alto da
jabuticabeira era nossa estrada.
*
Jornalista e escritora.
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