Devaneios de uma roqueira 21
* Por
Fernando Yanmar Narciso
CAPÍTULO 6 (2/3)
Se ‘ocêis’ se
espantaram com o cachorro lilás, esperem até conhecer o dono dele! Saca aqueles
típicos gays ‘pintosos’ e caricatos que aparecem em qualquer novela ou comédia
romântica? Pois Edir Costello Garcia é tão exagerado que faria o David Brasil
parecer um bárbaro! Como não podia deixar de ser, nem cheguei a colocar a ponta
do pé no tapete da entrada e lá veio Costello, todo ‘sambativo’ e espaçoso, pra
me receber. Ele ‘num’ se apresenta, ele EXPLODE na sua cara! I dunno, certas
pessoas simplesmente nascem pra ser o centro das atenções...
Magricela, quase tão
branco quanto eu, tem os cabelos loiríssimos cortados de tigelinha à moda dos
Ramones em início de carreira, a orelha esquerda repleta de piercings
multicoloridos e um bigode fininho esticado pra cima com gel, como o de
Salvador Dalí. Acho que nunca o vi sem usar diadema de jogador de tênis,
shortinhos atochados no rêgo, sandálias Havaianas fluorescentes e nem alguma
camiseta estilo ‘mamãe, sou forte’, bem justa e agarrada à sua secura.
- Nem acredito!
Vermelha! Há quanto tempo ‘num’ te via passar por essas bandas! Dá um abraço
aqui, amiga!
- Yeah, yeah, também
fiquei feliz em te ver, Costello!
- Menina, como ‘ocê
tá’ maltrapilha! E essa juba toda desgrenhada? ‘Teve’ perdida , batendo perna
pela Estrada Real?
- Tive uma ressaca
daquelas e Barbie me deu um banho gelado ontem de roupa e tudo, ‘cabei’
dormindo de cabelo molhado mesmo...
- Faz quanto tempo que
esse cabelo ‘num’ vê uma tesoura ou um?
- I dunno, acho que a
última vez foi na véspera do natal passado, né?
- Ah, nem vem,
Vermelha! Cinco meses sem cuidar de seu ganha-pão? Mas ‘num’ tem nada não,
assim que eu acabar com o cavalheiro aqui, ‘nóis’ dá um jeito nesse cabelo!
- Mas já sabe, hem?
Encosta a tesoura na franja, e eu te dou mais de um motivo pra andar sambando,
viu?
‘Cavalheiro’... O dia
em que aquele gordão barbudo, de camiseta regata toda suada e manchada de graxa
e um tremendo nariz inchado de bebum puder ser considerado um ‘cavalheiro’, eu
vou ‘tá’ pronta pro matrimônio!
Difícil de acreditar,
mas Costello, mesmo sendo cabeleireiro, maquiador e até fashionista nas horas
vagas, ‘num’ tem o menor preconceito quanto a fazer barba, cabelo e bigode.
Isso porque o ‘requebra’ vem de uma longa linhagem de barbeiros, e o pai dele
só o deixou ser como é com a condição que ele se graduasse na Associação Dos
Barbeiros de Minas Gerais.
- Xá com a gente.
Quando ‘nóis’ terminar o serviço ‘ocê’ vai ter de fazer uma carteira de
identidade nova, nem sua família vai te reconhecer!- Deu uma requebradinha,
bateu palmas três vezes e berrou como um soprano pra chamar as suas ‘sócias’:
Lays, Monique e Tandera.
Foram colegas minhas
de escola e desde que as conheci nunca as vi separadas uma da outra. NEVER! Até
moram juntas num barracão aqui em São Modesto, onde costuma rolar uns
bundalelês bem barra-pesada. O cafofo é só uma garagem enorme com uma
churrasqueira, um quartinho com um beliche e uma piscina, socados no fundo. Nem
Kurt Cobain lá no inferno deve entender como nenhuma delas nunca chegou bêbada
em casa e enfiou o nariz no fundo da piscina vazia...
Anos atrás elas
combinaram de engravidar juntas numa mesma festa, para dar o golpe do baú e
largar de vez a vida de ‘assistentes de palco’ do Costello. O sujeito que
passou a semente à Lays, ela o flagrou na própria cama com a mãe dela. Monique
descobriu que o macho dela tinha mania de postar fotos do pênis no Instagram.
Já mandaram um pro corredor da morte pelo mesmo motivo nos Estados Unidos!
Já o pai do filho de
Déra teve um pouco mais de sorte... Comeu um saco de pregos e se matou quando
ela contou que tinha engravidado. Agora as três têm seus catarrentinhos,
continuam na pior e permanecem em estado de ‘semiescravidão’ no salão de
beleza. That’s life, folks!
A loira Lays, a mais
alta das três, foi a primeira a me dar um abraço. Depois veio Monique, a
baixinha escandalosa do grupo. Déra, a dona do barracão e, não oficialmente,
líder do trio, ainda terminava de passar esmalte nas unhas de uma dona que mais
parecia um chefe de fase daqueles games antigos de pancadaria de rua, disse que
me abraçaria na hora de minha manicure.
Como manda a tradição,
Nica perguntou se eu e Viola de Cocho- Apelido de Barbie na escola, por causa
da cinturinha e das coxas grossas- já tínhamos desencalhado, se ainda vivíamos
como homens das cavernas, protocolo típico de quando um grupo de mulheres se
encontra depois de muito tempo... Lays diz que minha prima só arruma um homem
no dia que Ubaí virar Dubai, sacanagem...
- Vermelha?- disse
Déra lá do fundo, com uma tremenda cara de nojo de uma unha encravada daquela
tiazona- Nós três ‘tamo’ organizando uma vaquinha pra levar Tassiane para
Fernando de Noronha na despedida de solteira, quer entrar?
- Ah, não. Jura?
Tassí, dona do brechó, ‘tá’ pra casar? Are you serious?
- Pois é!- Lays
interpelou, enquanto ligava na tomada o secador de cabelo- As gêmeas ‘tão’ pra
nascer daqui a dois meses, e ela quer celebrar o chá de neném e o casório numa
mãozada só!
- Gente, e eu que nem
sabia dessa história!
- ‘Nóis’ sabe, ‘ocê’
raramente aparece em nosso ‘Zap-zap’...
- Só sobra pra gente
torcer pro cavalo do Fabrício ‘num’ amarelar de novo e dar com os calcanhares
na véspera da cerimônia...
- E quanto ‘ocêis’ já
conseguiram juntar na vaquinha?
- De mês passado até
hoje... Cem de cada uma. E mais nada. ‘Tamém’, com essa recessão, amiga, fazer
o quê, né?
CONTINUA...
*
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