As
três forasteiras
* Por Ana Suzuki
Numa data qualquer, tiraram o K, o W e
o Y do nosso alfabeto. As três letras foram tratadas como forasteiras. Só que
continuaram sendo usadas nas listas telefônicas e nas abreviaturas de medidas -
Km para quilômetro, Kg para quilograma, W para watt. E também nos nomes
estrangeiros.
Para os puristas de cartório, Suzuki
seria Suzuqui. O japonês Kawamura teria nome de índio - Cauamura. Felizmente a
maioria percebeu que isto seria uma descaracterização. Houve uma certa
fidelidade, consciente ou não, ao primeiro sistema criado para
adaptar os sons da língua nipônica aos da língua
inglesa - o sistema Hepburn, criado pelo reverendo James Curtis Hepburn,
por volta de 1867.
Então vieram os filmes e novelas.
Crianças que antes se chamariam José, Joaquim, Maria, passaram a ter nomes mais
"chiques" e diferenciadores. Pra que chamar o filho de Guilherme,
podendo chamá-lo de William? Pra que Rosa Maria se podia ser Rosemary?
E finalmente veio o computador, impondo não só as três letras, como um
novo vocabulário.
Bem-vindas, enfim, sejam as três
forasteiras, já que nunca saíram daqui. Mas tenho pena das crianças que já
decoraram o alfabeto sem elas, porque estudos neurológicos demonstram que
certas seqüências gravamos em série, sendo depois um tanto difícil inserir alterações
na série gravada.
Isto explica por que razão nós, os mais
velhos, jamais conseguimos abolir totalmente aquelas três letras do alfabeto e
por que, mesmo que mentalmente, as mantivemos nos lugares que lhes pertenciam,
tal como na lista telefônica.
*
Escritora e acadêmica da Academia Campinense de Letras.
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