O
contador de histórias
* Por Núbia
Araújo Nonato do Amaral
Passando em frente a uma livraria, me
deparei com uma raridade, pois se tratava de uma obra que já havia se esgotado
há tempos. Um livro recheado de histórias diferentes, sobre contos de fadas, de
bruxas e de heróis, chuvas, sol, gotas de água e girassóis. Não precisava
abri-lo, pois suas palavras as conhecia de cor.
Eu tinha cinco anos e apressava a minha
irmã para levar-me à pracinha.
- Tá na hora Deta! Tá na hora!
Quase chorando, implorei que saíssemos
logo. Finalmente na rua, sentia-me em júbilo e bem mais calma, constatei que
ele ainda não havia chegado. Nos sentamos
nos primeiros degraus da escadaria com os saquinhos de jujuba nas mãos;
Deta também gostava dele.
De repente a criançada começou a gritar
e eu batia palmas de puro contentamento.
- Tio Leopoldo chegou! Tio Leopoldo chegou!
Ele abriu um sorriso tranquilo e com
seu ar de anjo, sentado num banquinho desconfortável, começou a contar a
história de uma pequena gota de água que vivia no fundo de uma caverna.
Solitária, a gotinha via os seus dias
passarem sem cor e sem luz e, assim chorosa, pingava sem parar. Um dia, ela
ouviu um barulho ensurdecedor, parecia que o céu havia desabado e a gruta tão
tranquila se viu invadida por um turbilhão de águas violentas que a arrancaram
do teto, engolindo-a sem pena.
Um silêncio reinava agora e a gotinha
achou que estivesse no céu. Demorou para ela perceber a luz do sol e o reflexo
de seus raios na água grande. A gotinha se deu conta de que agora ela era um
rio!
- Meu Deus! Um rio...
Que suas águas inquietas sempre corriam
e levavam; mais do que isso, descobriu que a vida reinava perene em seu leito.
Deta, disfarçadamente limpou uma
lágrima teimosa que insistia em
cair. Eu , fiquei séria. Tio Leopoldo sorrindo com os olhos
disse:
- Tudo o que há na Terra ou no
Universo, faz parte de algo muito maior do que os vossos olhinhos possam ver,
mas, se você prestar atenção o seu coração poderá sentir e então jamais vai se
sentir pequeno. Somos parte de tudo
isso.
Durante anos essa criatura mágica
povoou o imaginário de todos os que o cercavam nas escadas da pracinha. Anos
mais tarde, sua filha o convenceu a publicar seus contos e ele reinou além mar.
Hoje, com seu livro nas mãos e os olhos cheios de luz e lágrimas, sigo feliz,
conduzindo mais um que vai aprender a viajar com um velho contador de histórias.
* Poetisa, contista, cronista e colunista do
Literário
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