Megalópoles
que neurotizam
O ritmo alucinado de vida que o homem contemporâneo se
auto-impõe – notadamente o morador das grandes cidades – e os problemas de toda
a sorte com os quais se depara no dia a dia, (ou por ser afetado diretamente
por eles, ou porque toma conhecimento dos mesmos pelos meios de comunicação, e
que o podem atingir a qualquer momento, como a miséria, a fome, a violência, as
doenças, as injustiças sociais etc.), tendem a produzir conseqüências danosas,
quando não catastróficas, em sua mente.
Estimativas divulgadas recentemente por especialistas em
saúde mental dão conta que 40% dos habitantes de grandes e médias aglomerações
urbanas sofrem de algum tipo de neurose. O contingente de desajustados,
portanto, é imenso, se o quantificarmos. Se não, vejamos. Cerca de 60% da
população mundial, de 7,2 bilhões de pessoas, vive, hoje, em apenas 75 cidades.
Fazendo as contas, chegaremos a um resultado surpreendente e incômodo. São 4,32
bilhões de indivíduos que estão nessa situação. Completando o cálculo, chegamos
à constatação de que 2,88 bilhões de pessoas têm alguma espécie de
comportamento neurótico. Por se tratar de estimativa, as cifras podem não ser
exatas, mas são, aproximadamente, estas. Isso nos permite concluir que pelo
menos dois em cada sete habitantes do Planeta têm algum desvio comportamental,
mais ou menos grave, não importa.
Claro que o acelerado processo de urbanização mundial – que
se acentuou, notadamente, a partir de meados do século XVIII, com o advento da
chamada “Revolução Industrial” – não pode e nem deve ser apontado como a única
causa do problema. Mas é, sem dúvida, um dos fatores determinantes para que a
vida de tão expressivo contingente de pessoas se transformasse num verdadeiro
inferno.
O curioso é que, para milhões e milhões de camponeses que
migraram, a partir desta época, para as cidades, isto significou importante
evolução. A agricultura, como se sabe, é uma atividade de alto risco. Depende
de uma série de fatores para ser lucrativa, principalmente do clima. Foram
inúmeros os períodos de fome em toda a Europa, em decorrência de desastrosas
quebras de safra. Ademais, os camponeses não tinham (e em muitas partes do
mundo ainda não têm) voz na determinação das políticas de Estado. O voto,
então, não era tão livre como hoje. Poucos tinham acesso a ele. Para ter o
direito de votar, por exemplo, o cidadão tinha que dispor de determinada
quantidade de bens, ou seja, de ser proprietário de alguma coisa (e que não era
pouca).
O historiador britânico Paul Johnson observou, a esse
propósito, ao explicar a principal razão do êxodo avassalador do campo para as
cidades, no início da “Revolução Industrial”, em vários pontos da Europa: “As
massas não podiam votar nas urnas, mas votaram de uma forma muito mais positiva
e impressionante, com seus pés. E isso por uma razão simples. O membro mais
pobre da sociedade aprecia a liberdade política tanto quanto o membro mais rico
e culto – penso eu. Mas a liberdade que tem mais significado para ele é a
liberdade de vender seu trabalho e sua habilidade no mercado. É exatamente isso
que o capitalismo industrial proporcionou ao homem, pela primeira vez na
história”.
O processo de urbanização cessou, ou pelo menos diminuiu?
Ainda não! Para que isso ocorra, é necessária certa estabilização populacional.
Ou seja, que pare de nascer tanta gente, em especial nos países mais pobres,
onde a população tem carência de tudo, desde a comida à educação. Karl Wolfgang
Deutsch – pensador nascido em Praga, sob o Império Austro-Húngaro, mas que
emigrou para os EUA em 1939 – escreveu a respeito, num artigo publicado há umas
três décadas: “Em primeiro lugar, segundo as projeções demográficas, a
população mundial se estabilizará pelo ano 2180. Ao mesmo tempo teremos um
nível de educação e desenvolvimento bioquímico que permitirá ao homem decidir
sobre a procriação sem os problemas e preconceitos de hoje”.
Será? Tomara que sim, para o bem de todos. É indispensável
que se desarme, o mais rápido possível, essa “bomba demográfica” que ameaça a
todos. Em um outro trecho do citado artigo, Deutsch apontou alguns aspectos em
que as massas evoluíram. Destacou: “Outra coisa: em 1955, pela primeira vez na
história, a maior parte da humanidade tornou-se alfabetizada. Hoje, dois terços
estão alfabetizados. Em 2100, 85% ou 90% estarão nessa condição”. Mas fez esta
previsão sombria: “Em 2100 a maior parte da humanidade viverá em cidades, ao
contrário do que tem acontecido nesses 2 mil anos. Com essas enormes mudanças,
a humanidade jamais voltará a ser a mesma”.
Todavia Deutsch, um dos pioneiros na introdução de conceitos
de cibernética e da teoria dos sistemas gerais na política, não é pessimista
quanto ao futuro. Assinala, no seu lúcido artigo: “De resto, houve mudanças não
seculares, mas milenares, nos últimos 80 anos. Por exemplo, a velocidade com
que podemos nos locomover na Terra aumentou cem vezes; houve substanciais
transformações nas formas de habitação: hoje podemos trabalhar e viver no fundo
do mar ou no espaço, e isso é só o começo; aumentamos enormemente a nossa
capacidade de concentrar e usar energia. Evoluímos, enfim, em todos os ramos da
ciência e da tecnologia. Certamente, algumas dessas inovações podem ser usadas
para o mal, mas, como a invenção do fogo, podem ser usadas para o bem. Por
todas essas razões, creio que o próximo século (referindo-se a este em que
estamos) será realmente interessante e, como disse, poderá marcar a
autodeterminação do indivíduo”. Deus que o ouça, Deutsch! Da minha parte, não
estou nada, nada otimista a esse respeito. Para mim, as megalópoles contemporâneas
não passam de imensas “fábricas de neuróticos” e tendem a inchar mais e mais,
para o nosso desconforto e desespero.
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Megalópolis são fábricas de neuróticos e de problemas insolúveis.
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