Medo da luz
A luz, em intensidade adequada, e o
calor, na medida certa, são essenciais para a vida, assim como a conhecemos. Esse
fenômeno maravilhoso, que pode ser classificado como “milagre”, dada sua
raridade no Sistema Solar, só foi possível surgir, se manter e progredir por
aqui em virtude da existência de condições ideais para isso. A principal (ou
uma das principais) é a posição da Terra em relação ao Sol: nem perto demais (o
que a esterilizaria, como são os casos de Mercúrio e de Vênus) e nem distante
demais (o que a congelaria), como ocorre nos demais planetas da nossa família
planetária a partir de Marte.
Já escrevi em uma crônica anterior (mas
faço questão de reiterar, por estar convencido de que se trata de uma verdade)
que “a vida consiste em uma contínua descoberta, do berço à tumba, desde o
nascimento até a morte. A partir do útero materno, quando nosso sistema nervoso
e, por conseqüência, o cérebro, estão formados, já temos consciência, embora
sem possibilidades de externar esse conhecimento, de que existimos e nos
encontramos em um ambiente muito bem-protegido e acolhedor”. Pelo menos é o que
dizem os especialistas.
Aliás, isto é possível de se comprovar,
mediante o processo da regressão. Tudo o que nos ocorreu, desde que o sistema
nervoso e sua “estação controladora”, o cérebro, se formaram, está gravado em
nosso inconsciente. Às vezes é possível trazer essas informações à tona. Em
outras... ainda não. Mas elas existem, estão ali e só se destroem com a nossa
morte.
Essa “descoberta” intra-uterina é a
primeira de uma sucessão que cada indivíduo terá no correr de sua existência,
de acordo com sua realidade e sua personalidade. E ao morrer, descobrirá o
quanto foram tolos os dogmas e valores aos quais se aferrou. Mas então já será
tarde...
Há quem (secretamente) tema a verdade,
por receio de descobrir coisas a próprio respeito que o envergonhem e diminuam.
Tolice! Apenas conhecendo, em profundidade, o que somos e onde podemos chegar,
teremos condições de promover nossa evolução (material e, principalmente,
espiritual).
Não podemos agir como uma criança, que
tem medo da escuridão. No caso dela, o temor até se explica: é instintivo. Mas
temermos a luz, que exponha o que, de fato, somos, é atitude tola, senão
trágica. Temos que nos aceitar, mas agir concretamente no sentido de contínua
melhoria, principalmente da correção dos defeitos. E esta só nos pode ser
proporcionada pelo conhecimento exato, pela farta informação e pelo máximo
saber.
Foi para isso que Deus nos dotou de
razão. Concedeu-nos, também, todavia, o livre-arbítrio. Cabe-nos, pois, buscar
ou fugir da luz, mas arcar com as conseqüências dessa opção. A primeira atitude
é, obviamente, sensata e sábia. A segunda é tolice, tentativa vã e inútil de
fugirmos de nós mesmos e das nossas verdades. Já na Antigüidade grega Platão
constatava: “Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a
real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”. Essa fuga, portanto,
é uma atitude imperdoável.
A luz do conhecimento tem lá os seus
riscos, claro. É preciso, sobretudo, saber utilizá-lo em sentido construtivo,
jamais como arma de destruição. O ser humano, por exemplo, conquistou o átomo,
embora não tenha feito sempre o melhor uso dessa ciência. Descobriu e mapeou os
códigos genéticos, responsáveis pelas características de todos os seres.
Aprendeu a duplicar animais e vegetais.
O casal primitivo, como se vê,
metaforicamente, desobedeceu o Criador e comeu o fruto da Árvore do Bem e do
Mal. Perdeu a inocência original, embora conquistasse o potencial de saber de
tudo. Ou quase tudo. Só um conhecimento, e para o seu próprio bem, lhe foi
vedado e para sempre: O do mistério da essência da vida. Caso o conhecesse,
provavelmente conduziria à extinção da espécie (o que o homem pode fazer,
mediante mau uso dos segredos do átomo).
Algumas verdades, pré-existentes, mas
que por alguma razão, não conseguimos alcançar em determinado período da nossa
trajetória vital, de repente, emergem diante de nós, se desnudam aos nossos
olhos e se revelam à nossa consciência. Muitas são óbvias, mas encaramo-las
dessa maneira apenas depois da revelação. Esta, em geral, ocorre com a
aquisição da experiência, resultado de muitos anos de empirismo, de sucessivas
tentativas e erros. Torna-se, para nós, também uma descoberta.
Não há, pois, outro caminho para se
chegar ao “topo da montanha” senão o da busca, e não da fuga da luz. A única
estratégia cabível é a de valorizar o que a pessoa é e o que já conquistou. Ou
seja, é o autoconhecimento. É a informação precisa sobre todos e sobre tudo. É
o estímulo à criatividade.
Mas é preciso ter ambição e querer
sempre mais, sem medir esforços para a obtenção do que se deseja (desde que,
óbvio, seja lícito e não fira direitos alheios). É necessário querer o máximo
para se obter o mínimo. Os objetivos, todavia, têm que ser factíveis, mesmo que
minimamente. É inútil correr atrás de sombras, de fantasmas, de miragens e de
fantasias que se desfazem, tão logo se chega perto. “Realismo”, é a
palavra-chave. E a busca incessante da luz.
Boa leitura!
O Editor.
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O mau uso do átomo está na ordem do dia, considerando-se os últimos fatos na Coreia do Norte.
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