Ler com prazer
* Por Nei Duclós
Se você não tem biblioteca na maior
parte do território urbano do país e se você chega numa livraria e só são
destacados os livros descartáveis, e se essa situação ultrapassa as duas
décadas, então você está formando gerações de analfabetos, por mais que falem
em analfabetos funcionais. Quem sabe ler e não entende o que lê não é
alfabetizado, ponto. Quem só procura livro para esquecer no dia seguinte está
perdendo seu tempo com leituras sem sentido. Todo aprendizado é árduo e talvez
esse seja o maior equívoco do cultivo da leitura: para evitar que os jovens se
aborreçam com os livros tornados obrigatórios, achar que o período de aula deva
se transformar num recreio.
Quando chega a hora do recreio, se a
aula foi lúdica, o que o aluno deverá fazer? As novas gerações, como todas as
outras, têm fome de sobriedade, de seriedade, de responsabilidade. Não se deve
tirar de quem aprende o privilégio de percorrer um caminho difícil até o
conhecimento. Partir para a brincadeira, achando que isso vai resolver, é
desistir da luta.
A barreira maior entre uma formação
completa e a situação em que todos fingem ensinar ou aprender é a indiferença.
No filme Elefante, de Gus Van Sant
(título que se reporta à fábula oriental de quatro cegos que tentam adivinhar o
bicho tocando apenas uma parte dele), vemos o que faz a indiferença nutrida
pela impessoalidade do ambiente estudantil. A ausência dos adultos nos
problemas chaves da adolescência, a omissão diante de uma vida confinada ao
luxo, geram massacres não compreendidos em suas causas. Tateamos o problema com
nossas mãos cegas, enquanto se despejam na vida adulta milhões de pessoas sem a
companhia fundamental do livro. Pelo menos, do livro inesquecível, o amigo
certo para esta vida complicada.
Hoje existe uma tendência de tentar
preservar as crianças de situações duras na hora de pegar os livros. Revi um
dia desses, graças à Internet, o texto da minha primeira leitura, O Pequeno Lorde, de Frances H. Burnett O
pai do narrador-criança morre no início da história! Nesse caso, não há
concessões para a criança que vai pegar o livro. Falar com franqueza, não
tentar iludir com expedientes marotos, é a maneira mais sólida de conquistar
leitores. Deve haver um sentido para ficar horas do dia em frente às palavras.
Não será colocando a grande aventura de estar vivo para debaixo do tapete, ou
mentir sobre nossos destinos, que vamos conseguir algum resultado.
O mal do livro obrigatório é que limita
a mobilidade de quem procura o que ler. Deveria ser liberada a busca pela
leitura mais adequada (claro que com acompanhamento). Gostar de ler significa
encontrar no livro algo que prenda a atenção e emocione. Se isso não for feito
na escola, o novo leitor será presa fácil dos livros descartáveis. Pois ele vai
procurar o prazer negado na aula, o prazer que nada tem a ver com aprendizado
lúdico, mas com a legítima vontade de aprender que trazemos do berço. Não se lê
com prazer quando somos forçados a engolir pedreiras literárias nos verdes
anos. Ou quando somos levados a brincar de aprender na hora da primeira
dificuldade.
*
Autor de três livros de poesia: “Outubro” (1975), “No meio da rua” (1979) e “No
mar, Veremos” (2001); e de um romance: “Universo Baldio” (2004). Jornalista
desde 1970 e bacharel em História. Trabalha atualmente em Florianópolis, onde é
editor-executivo de duas revistas.
São quatro livros impressos de poesia, dois romances impressos e há muitos anos sou ex-editor das duas revistas. Não tem perigo de corrigir isso? O editor não lê o próprio blog? Já avisei inúmeras vezes aqui, em vão.
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