Grandezas de Pernambuco
* Por
Urariano Mota
O leitor perdoe o
título ufanista, uma forma de ser do Recife. Mas esse modo recifense não é o
motivo. A explicação vem do Brasil destes dias. A gente anda tão abatido pelo
golpe, tão cabisbaixo pela crise da recessão a que a política reacionária da
Lava Jato nos levou, que é preciso levantar os olhos para a luz da grandeza
mais perto de nós, que muita vezes não vemos.
Todos sabem, e nunca
será demais repetir que é do Recife a primeira sinagoga das Américas, levantada
pelos judeus recifenses que depois criaram Nova Iorque. Todos sabem que neste
chão fértil vingou uma árvore de poetas que honram a poesia brasileira, de
Manuel Bandeira a João Cabral, passando por Solano Trindade, Mauro Mota,
Joaquim Cardozo, Carlos Pena Filho, Ascenso Ferreira e Alberto da Cunha Melo.
Esses poetas vêm sem consulta ao google, basta a invocação da memória afetiva,
maior e mais segura. E não quero nem me lembrar do carnaval de maior
participação popular do planeta, ou do cinema de Kleber Mendonça Filho. Nem
mesmo falar do genial João do Caldíssimo, que de Água Fria atraía para o seu
caldinho de feijão e cachaça os artistas de todo o Brasil.
Penso agora em Nova
Jerusalém, em Fazenda Nova, na encenação monumental da sua Paixão de Cristo.
Penso no resultado de forças vindas do pioneirismo de Plínio Pacheco, que era
apaixonado pelo teatro, que mergulhou nessa paixão Diva Pacheco e ampliou o
coração no agreste seco de Pernambuco, criando o maior teatro ao ar livre do
mundo.
As informações gerais
num piscar de olhos informam que Nova Jerusalém é o maior teatro a céu aberto
do mundo, com nove palcos, muralha de 3.500 m, 70 torres em 100 mil metros
abertos para a encenação anual da Paixão de Cristo. Mas eu prefiro falar do que
vi há mais de um ano. A memória da gente é seletiva, isso todos sabem. Mas
antes dela, a seleção é feita pelos olhos, que dirigem a nossa câmera íntima
para o particular, nunca para o todo. Na verdade, no detalhe, no que nos
impressiona e se guarda é que está o reflexo do total. Assim, em Nova Jerusalém
primeiro me impressionou a pessoa de Robinson Pacheco, mais conhecido por
Robinho, o filho que herdou a obra de Plínio Pacheco. Não pelas características
físicas de indivíduo louro, olhos claros, atarracado, comandante e organizador
do espaço imenso de Fazenda Nova. Esses exteriores, creiam, em mim não geravam
uma aproximação.
Nele, guardei primeiro
o justo orgulho que possui do pai, um intelectual gaúcho pernambucanizado que
falava "a vida me colocou diante da pedra e da figura de granito que é o
homem nordestino. Este é meu povo, cantando num cenário de sol". Em
segundo lugar, vi a pessoa que gosta de fazer amigos, – logo eu, que não sou um
primor de sociabilidade. Depois, a revelação de ver Robinho cantar aboio com um
sentimento e voz de ir às lágrimas, ao entoar a tragédia do amor de um
vaqueiro. Nesse ponto, já me encontrava esquecido do que era exterior da sua
pessoa. E tanto, que no calor do entusiasmo lhe pedi o papel de Barrabás na
Paixão de Cristo. Eu queria ser o bandido libertador contra a opressão de Roma,
pensava. E Robinho, ao me ver de barba, com a pele de mulato da Palestina,
aceitou. Mas diplomático propôs:
- Não é melhor você
ver o espetáculo antes?
Assim foi. À noite,
antes da magnífica ressurreição de Jesus Cristo, eu vi um indivíduo barbado,
fedido e mal pago, que de braços abertos parecia mais espantar passarinho em
roçado. Era Barrabás. E desisti de aparecer na Paixão de Cristo. Mas quem não
pode ser bandido heroico, pode ao menos louvar o que é digno de ser louvado.
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação
de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja
paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e
“Dicionário amoroso de Recife”. Tem
inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros
Um caminho pouco habitual de fazer a aproximação. No mundo real, a aparência é exatamente tudo.
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