Sobre
a construção de sertões pessoais
* Por
Renato Contente
Ao ouvir Vermelhas
nuvens (2012), segundo álbum do pernambucano Hugo Linns, os diferentes sertões
que podem nos habitar se excitam de maneira curiosa. De início, eles já surgem
vigorosos e trazem à tona as pequenas referências de Sertão que guardamos, não
raro, em cantos meio perdidos da memória: uma viagem de infância, um
documentário visto na tevê, um dia de festa num mercado público.
Algo no disco também
insinua que os sertões suscitados pela viola dinâmica de Linns têm mais a ver
com um significado vasto da palavra (algo como o utilizado por Guimarães Rosa,
para quem o Sertão é dentro da gente) do que o de uma geografia física
propriamente dita. O instrumento é apresentado pelo artista através de nuances
renovadas e provocativas. Disseca o Brasil de dentro pra fora, do interior para
o litoral, e também um pouco da gente, num movimento semelhante.
Linns é um dos nomes
da cena contemporânea que se propõem a modernizar a viola dinâmica (ou
nordestina, como também é conhecida) através da música instrumental. Sem
palavras ou canto, o pernambucano rompe a tradição do instrumento de servir
essencialmente como acompanhamento dos versos de cantadores para experimentar
suas potencialidades distintas.
Em comparação ao
início de seu projeto solo como violeiro – registrado no álbum Fita branca
(2009) –, o pernambucano traz em Vermelhas nuvens uma sonoridade mais
elaborada, consistente. Como o próprio artista apontou, parte disso se deveu à
textura musical que imprimiu à obra com o auxílio de pedais e slides (tubo oco
de metal que se acopla ao instrumento).
Com formação no
Conservatório Pernambucano de Música e na UFPE, Hugo tem como
violeiro-referência o serratalhadense Adelmo Arcoverde, com quem tocou por três
anos e aprendeu a criar sertões. Os doze temas que constituem seu segundo álbum
espelham essa trajetória moldada por emboladas, baiões, cocos e maracatus, mas
inovam ao apresentar com sutileza elementos dissonantes do universo roqueiro,
com influências de The Doors a Radiohead.
O disco sinaliza,
assim, o surgimento de um novo e surpreendente sertão no mapa da música feita
em Pernambuco. De asfalto, terra batida ou em outro aspecto geográfico (físico
ou emocional), algo é certo: o tanto que existe de Sertão em cada um de nós
fica melhor delineado depois de ouvir Hugo Linns.
*
Jornalista
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