Segundo precioso
A maioria das pessoas, entre os mais de
sete bilhões e meio de indivíduos que povoam a Terra nesta reta final de 2016,
ainda não se conscientizou da escassez do seu tempo de existência (impossível
de se saber de quantos anos, meses, dias, horas, minutos ou segundos será).
Estamos todos em uma trágica corda-bamba balançando sobre o abismo do não-ser,
sem nos darmos conta dessa primária realidade.
Mesmo os raríssimos "heróis"
da sobrevivência, que logram festejar um centenário ou quase, não podem afirmar
que viveram muito. Em termos relativos, este é um tempo extremamente escasso,
ínfimo e irrisório. O organismo humano foi programado para funcionar bem por
pelo menos 120 anos, o que também não é grande coisa. Por que não funciona? Por
uma série de razões, mais subjetivas do que objetivas que, no entanto, não
explicam coisa alguma. Mais confundem do que esclarecem.
A morte não tem e nunca teve lógica.
Jamais terá! É uma loteria macabra, que escolhe qualquer pessoa, em qualquer
hora ou lugar, de forma sempre aleatória. O homem, com toda a sua empáfia e
arrogância, é impotente para se defender dela. Há bebês que vivem algumas poucas
horas (ou nem isso), enquanto doentes terminais sobrevivem às doenças que lhes
corroem as entranhas e lhes minam a resistência orgânica por dez, quinze, vinte
anos ou mais, contrariando toda e qualquer lógica.
E não se morre apenas em decorrência da
ação de vírus ou bactérias ou de deficiências congênitas, genéticas, ou então
de disfunções provocadas por hábitos inadequados, quando não suicidas.
Acidentes de toda a sorte ceifam milhares de vidas, diariamente, em várias
partes do mundo. A violência, por seu turno, cobra pesadíssimo tributo dos
instintos mais baixos, e da ausência de amor, do ser humano. Além de guerras e
revoluções, homicídios hediondos, praticados pelos motivos mais torpes e
banais, interrompem, abruptamente, a vida de indivíduos no pleno gozo de saúde
perfeita, sem que esses possam prever e evitar. Trata-se, de fato, de uma
"loteria" macabra, da qual ninguém quer ser "sorteado". Mas
alguém sempre é.
Somos, todos, constantemente, ameaçados
por estas terríveis contingências, contra as quais somos absolutamente
impotentes. Ninguém está seguro. A segurança absoluta é ficção. Estamos
sujeitos, por exemplo, a sofrer, a qualquer momento e lugar, assalto armado, na
rua, no trabalho, ou em nossa própria casa, e a ser atingidos por disparos de
armas de fogo, ou por esfaqueamento, ou agredidos por objetos contundentes etc.
A morte nos espreita, a cada segundo, e em todo o lugar, sem que nos demos
conta disso. Julgamo-nos invulneráveis e imortais.
Mais importante do que a quantidade de
anos vividos, todavia, é a qualidade da vida que se leva. E esta, teoricamente,
está em nossas mãos determinar. Importa (e muito) o que se pensa, como se age e
a forma com que reagimos diante das adversidades. É certo que sozinhos não
podemos modificar o mundo, mas temos plenas condições de contribuir para isso.
O "apóstolo da não-violência" (que no entanto foi ceifado por ela), o
Mahatma Gandhi, observou, num discurso famoso: "Se um único homem atingir
a mais elevada qualidade de amor, isto será suficiente para neutralizar o ódio
de milhões".
Quem
vive somente para si, sem ligar a mínima para o próximo, pode até parecer que
leve vantagens sobre os demais, pelo ilusório poder que eventualmente detém e
pela quantidade de satisfações sensoriais que goza. Mas depois que morre... A
maioria dos que agem dessa forma não deixa o mínimo vestígio de que sequer
existiu, pouco depois da extinção física, tão logo seja partilhado seu espólio.
Sua morte será um alívio geral. Tal pessoa, com toda sua arrogância e
prepotência, não passou de uma vida inútil e parasitária. Machado de Assis, no
romance "Dom Casmurro", observou: "Matamos o tempo, o tempo nos
enterra". A afirmação é muito mais do que mero jogo de palavras. Basta
refletir sobre seu significado.
Cada segundo da nossa existência é
preciosíssimo, posto que único (pode ser o último) e devemos ser avaros com
ele, não o desperdiçando com tolices, lamúrias, banalidades e ninharias. E nem
é tão difícil sobreviver na memória dos
pósteros, bastando, para isso, ser "conhecido" e ter "fama"
de haver produzido alguma coisa (obra, idéia, opinião etc.) em favor da
comunidade, mesmo que isso não haja ocorrido de fato, ou não tenha a
importância que lhe seja atribuída. Pois, como assinalou Jorge Luís Borges, no
poema "Aonde Terão Ido?" (livro "Obras Completas", vol. V,
Editora Globo):
"Não
se aflija.
Na
memória
dos
tempos que vêm
cada
qual de nós será
duro
e audaz como ninguém.
Os
vis serão generosos
e
os fracos, bravos e altivos,
não
há nada como a morte
para
melhorar os vivos".
Seria isso um consolo? Prefiro a
insegura e inconstante "gangorra" da vida, com seus perigos e
incertezas. E, se fosse possível, eternamente...
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
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