Para levantar a caboclada
* Por Mara Narciso
O verbo
“montesclareou” transformou as Festas de Agosto de Montes Claros. A cultura
está a cada dia mais viva. Sem datas precisas, as manifestações culturais
espontâneas, populares e religiosas não têm documento de fundação, assim como
as palavras criadas podem não ter suas paternidades comprovadas. Houve um
período em que as festas minguaram, mas ressurgiram e agora acontece o apogeu.
Agarrados aos céus, os dançantes remanescentes superaram adversidades, não
rejeitaram apoios, nem acréscimos, nem aculturamentos, também não se
incomodaram com os teóricos, que, tomando atitudes opostas, explicam aos
participantes quem são eles e como devem agir.
Nas manifestações dos
caboclinhos, marujos e catopês, Maria do Socorro Pereira Domingos, de 38 anos é
assediada e fotografada, porque é Chefe do Primeiro Terno de Caboclinhos do
Divino Espírito Santo. Está no comando da caboclada, de viola em punho, subindo
e descendo as ruas nos dias de festa desde a morte do pai, Joaquim Poló, há
oito anos. Já participou dos festejos por diversas vezes grávida, mas agora é
diferente, pois está em gestação adiantada de gêmeas. Saiu vestida de vermelho,
a cor do terno, com um cocar vermelho, camiseta e uma ampla saia rodada,
tocando e cantando, mas, por ordens médicas, não dançou. Vai completar oito
filhos e segura um menino pequeno pela mão. Não liga para as câmeras, e,
completamente à vontade, mas com poucos sorrisos, atende a todos. Devido ao seu
estado interessante, procura sentar-se à sombra, tomar água, mas não para de
orientar seus comandados. Seu marido, por timidez, não gosta de ser
fotografado.
Quando o desfile
começa, a cacicona Socorro sai à frente de uma das filas e a sua filha Suziane
Pereira Domingos, de 18 anos, puxa o cordão do outro lado. Como a mãe, a moça
toca viola, e sai no terno desde um ano de idade. Seguindo a tradição, também
com o título de cacicona, tem poder no grupo, ensina e corrige. Seus
conhecimentos musicais, a devoção e os rituais foram passados pela família. Os
irmãos são Guilherme, que é violeiro, Gustavo, Sabrina e Sara. O terno tem
também violão, cavaquinho, rebeca, e a Bandeira do Divino, que é vermelha. As
crianças, vestidas com saiotes e cocares de penas coloridas, camiseta cor da
pele, cantando e dançando, levam arco e flecha e seguem os músicos.
Joaquim Poló, pai de
Socorro, era violeiro da Marujada e os Caboclinhos eram comandados por
Luizinho. Após uma troca entre amigos, Poló ficou com o comando dos caboclos.
Socorro foi a primeira menina a desfilar no grupo. Eram apenas meninos
descalços e nus com tanga de penas de galinha e uma vez seu pai a colocou entre
eles e desafiou Mestre Zanza a dizer qual era a sua filha. Ele titubeou. O pai
não participou por um período, e ela ficou parada uns anos também. Muito
doente, Poló quis que ela seguisse. Então, decidiu levantar a caboclada. Todos
ajudaram, conseguiu força, lutou, gostou e vai continuar. De contra-mestre foi
a mestre. “Os caboclinhos são os índios, que festejam na cidade, cantam, batem
flecha, dançam a dança do cipó, cantam o cântico da morte, dobram o
instrumento, trançam fita, elevam o mastro, fazem o jogo de porta-bandeiras e
tudo vai seguindo pela tradição oral. Com o tempo, os meninos, envergonhados de
usar saia de penas, foram saindo. Foi quando chamei as meninas”, diz a
cacicona. E completa: “os caboclinhos são coisas do Divino Espírito Santo, que
meu pai deixou pra mim”. Pessoas de fora são aceitas, mas precisam respeitar os
rituais, ensaiar, ter compromisso, visitar as bandeiras e fazer orações.
Ser a única mulher
mestre num universo masculino gera preconceito. Este vem de dentro e não de
fora. Quando Socorro começou tinha vergonha, usava cabelo curto, disfarçava.
Mas superou, e chegou a ter apenas mulheres nos caboclinhos. Depois os homens
voltaram. Nos dias de desfile, o terno sai cedo, almoça depois das 15 h e só
volta tarde da noite. O cansaço não atrapalha, pois celebrar Nossa Senhora do
Rosário, São Benedito e o Divino Espírito Santo é brincar no meio da fé, da
luz, do ritmo e da devoção. O prazer dessas experiências não se define:
vive-se!
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
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