O
físico fica menor enquanto o mito cresce
* Por Mara Narciso
O maior de todos é
João Faria, celebridade cujo sobrenome não tem “s”. Os seus combustíveis são a
fé sem concessões e a obsessão titânica. A natureza lhe deu bons recursos
físicos, alta estatura e força, mas, desajeitado, não tem beleza e possui pouca
habilidade na comunicação. É homem trabalhador e corajoso, tendo recebido, por
quinhão, ritmo e tenacidade incríveis.
Tantas maneiras de
ser, tantos lugares para se cair e foi dar de cara em Montes Claros. Seu avô
Corinto era amigo de Indalício Narciso, proprietário da fazendinha Aliança, que
é próxima da cidade. Com bom porte, João trabalhou naquela roça, rachou lenha,
foi carreiro, fez trabalho braçal grosseiro e se casou com Benedita, filha de
Manoel Urubu, criada ali por Picucha. Tiveram três filhos, dois meninos e uma
menina. A mãe de João Faria era negra, e seu pai, José Faria, era branco. Viúvo
casou-se com Nega, irmã de Picucha, e foram morar na Aliança.
João tinha tudo para
ter uma existência singela, obscura, no anonimato. Mas não foi assim. Não era
alfabetizado, morou anos como agregado num rancho, de portinhola exígua, que
mal o cabia, ao lado de um bambuzal, no qual não fez nenhuma melhoria. Não
tinha salário e recebia uma feira semanal. Tempos depois, com a indenização
trabalhista, saiu da Aliança, comprou uma carroça e uma casa, e em 1977
mudou-se para o Bairro Camilo Prates. Ganhou a vida transportando ferro, sobre
tração animal.
Havia uma cerca entre
os quintais do seu bairro. Um dia, um chapa de caminhão vulgo Estrelinha,
abusado, falou obscenidades para Benedita, sua esposa. Ela contou ao marido.
João defendeu sua honra disparando com uma garrucha um tiro fatal, no peito do
vizinho. Foi a julgamento, sendo absolvido pelo júri. Sidônio Paes Ferreira fez
sua defesa. Até o promotor pediu a sua absolvição. Seu gesto, para os conceitos
daquela época, foi considerado um serviço de limpeza social, pois o morto era
temido por bater em todos, até na polícia. Após o acerto com a justiça, saiu
livre para continuar a labutar vida afora. A esposa de João Faria é cega há
vários anos, devido ao glaucoma, mas encontra-se adaptada a situação e faz tudo
em casa.
Herdou do pai José
Faria, que era caixeiro de frente do terno de catopês, o gosto e o conhecimento
pelos rituais religiosos. Quando o terno ia acabar devido a um desentendimento
entre o mestre e o procurador, João, aos 17 anos foi eleito por aclamação.
Tornou-se Mestre do 2º Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário, e esta é a
sua glória, há 54 anos. O carroceiro humilde no restante do ano torna-se um
ícone, um rei por curtos cinco dias, alguém festejado, assediado, fotografado à
exaustão. Ressurge a cada agosto, quando se dá a transformação, e sai cidade
afora comandando o terno com mão férrea.
É fácil sentir-se
atraído pelos catopês. A roupagem branca, singela de mangas compridas, o
capacete bordado de pedras sobre a testa, encimado com penas de pavão, e as
fitas coloridas que vão da cabeça aos pés, têm uma estética privilegiada. Belos
e fotogênicos os catopês atraem os olhos, o coração e as câmeras fotográficas.
Durante a festa
católica, há o esquecimento da vida real, e afunda-se no mundo do sagrado, da
adoração, e da fé, os quais dão forças para intermináveis batuques, cantorias e
circunvoluções ritualísticas, um inusitado bailado, sob sol forte ou debaixo da
lua. A incorporação espiritual é tão notável, que se pensa que o chefe dos
catopês esteja em transe. Basta um som sair de sua boca, e o grupo que vai,
volta e segue seus passos. João Faria canta, dança e toca o seu tambor com um
fervor que comove. É um rito que não aceita mudanças. As evoluções do mestre
catopê, assim como o batuque do seu grupo têm a marca da forte devoção. Vê-lo
subir e descer as ruas principais da cidade impressiona, num homem encurvado
aos 71 anos. Seus filhos não o seguiram. As décadas avançaram, e ele, antes
alto e forte, foi perdendo o tamanho e a força, enquanto seu espírito e o mito
se amplificaram. Os personagens de Montes Claros têm e fazem história, no caso
dos catopês, há 177 anos.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”
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