Qualidade como
objetivo
O ensaísta norte-americano Ralph Waldo
Emerson, autor, entre outros, de dois livros hoje considerados clássicos no
mundo da cultura, "Ensaios" e "Diários"‚ é , ao lado de
Henry David Thoreau e de Montaigne, um dos meus preferidos. Essa preferência
pelo escritor de Boston deve-se, exatamente, ao fato dele ser uma espécie de
contraponto a esses dois. Trata-se de um intelectual positivo, que crê na
racionalidade humana e põe como limite ao talento e à criatividade – não
especificamente literários – "as estrelas". Ou seja, recomenda que
ousemos, que busquemos esgotar nossas potencialidades, que sejamos
autoconfiantes, autodisciplinados e até obstinados na busca do topo, do ápice,
do cume da nossa atividade. Thoreau, por outro lado, é amargo em determinados
ensaios, embora defensor radical da individualidade. E Montaigne é um
verdadeiro "cirurgião da alma humana". E o que encontra nela nem
sempre é bonito, nobre e louvável.
Uma das citações de Emerson, que grifei
quando da primeira leitura e sobre a qual busco refletir periodicamente, é a
seguinte: "Se um homem pode escrever um livro melhor, pregar um sermão
melhor, ou fazer uma ratoeira melhor do que o vizinho, mesmo que construa sua
casa na floresta, o mundo abrirá uma trilha até sua porta". Seria, de
fato, tão simples? As pessoas estariam dispostas, sem esta ou mais aquela, a
reconhecer e valorizar os talentos alheios, em meio a tanta competição desleal,
onde não há regras estatuídas e onde raramente a ética e a moral prevalecem?
Haveria tanto critério? Haveria tanta justiça para com os que criam, os que
ensinam, os que pregam, os competentes, os abnegados, os íntegros e os
"melhores"? Não certamente! Não pelo menos como prática geral. Há,
além destes, muitos outros pontos a ponderar.
Para que alguém nos procure porque
escrevemos um livro melhor, ou pregamos um sermão melhor ou fizemos uma
ratoeira melhor, é preciso, antes de tudo, que todos saibam disso. Aí entra o
primeiro obstáculo: a divulgação da nossa "excelência". Os recursos
que o cidadão dispõe para isso são extremamente frágeis. Quantos têm acesso aos
meios de comunicação, nessa maré humana que há no Planeta neste fim de milênio?
Poucos. Diria, pouquíssimos. E destes, quantos têm o poder de convencer os comunicadores
de que de fato são o supra-sumo de suas respectivas atividades? Menos ainda.
Ademais, o conceito de melhor ou pior é puramente subjetivo. Depende do preparo
intelectual, do gosto, do critério de julgamento, da imparcialidade e da
boa-vontade do julgador. São inúmeros, por exemplo, os escritores que foram um
fracasso enquanto vivos e que só tiveram seus talentos reconhecidos depois de
mortos. Ou que, mesmo reconhecidos, não conseguiram unanimidade. Basta citar a
interminável relação dos injustiçados do Prêmio Nobel de Literatura.
Em outras artes e ofícios isso também
ocorre. O exemplo mais evidente é o do pintor Vincent Van Gogh. Quantos quadros
o mestre holandês vendeu em vida? Apenas dois, e assim mesmo ao seu irmão, que
os adquiriu a título de estímulo. Morreu infeliz e amargurado, em um manicômio,
sendo, sob os padrões da sua época, o protótipo acabado do fracassado. Hoje,
essas mesmas telas que pintou e foram ridicularizadas pelos críticos e
recusadas pelos "marchands", têm um valor inacessível para a maioria
dos bolsos. São as obras de arte mais caras jamais vendidas em qualquer parte
do Planeta. O tempo fez-lhe justiça. Mas o mundo nunca abriu "uma trilha
até a sua porta". Claro que Emerson não pretendeu aconselhar ninguém a se
acomodar com sua excelência, esperando um reconhecimento automático e
consensual por parte da sociedade. O que fez foi uma apologia da qualidade.
Vendeu a idéia que devemos buscar ser os melhores no que fazemos, apesar da
subjetividade desse conceito.
Cada um de nós vem ao mundo com duplo
compromisso. O primeiro (nossa maior obrigação na vida) é o de sermos felizes.
O segundo, não menos importante, é o de acrescentarmos conhecimentos e
experiências ao patrimônio cultural comum, que vem sendo engrossado e
enriquecido desde o surgimento da humanidade civilizada, do qual usufruímos
enquanto estamos vivos. A esse propósito, Jacques Maritain observa: "Por
ser capaz de adquirir conhecimentos o homem não progride na sua vida
específica...sem a experiência coletiva, previamente acumulada e preservada, e
sem a transmissão normal de conhecimentos adquiridos". E para esse
usufruto e esse acréscimo ao "estoque" cultural humano, convenhamos,
não podemos "construir nossa casa na floresta" do isolamento.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
O isolamento não fará bem algum, a menos que se queira ser um monge.
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