O efeito sem causa
* Por Rosana Hermann
De repente, do nada, sem nenhum aviso,
o acaso vem e zás! E lá está, a flecha no seu peito. A torta na cara. A pedra
no sapato.
Ter um blog aberto na rede é aceitar o
risco de ser alvo de um sniper, um
figurante vestido de índio, um confeiteiro sem fronteira. Mais dia menos dia,
acontecerá. Com ou sem motivo, conhecendo ou não o ofensor você será atacado.
Como dizia Nelson Rodrigues, é batata.
A explicação não é dramática mas
estatística. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde cerca de dez por
cento da população do planeta tem algum tipo de doença mental. Pode ser uma
depressão inofensiva, uma esquizofrenia, um transtorno bipolar, tanto faz o
diagnóstico. Vale lembrar que ninguém tem culpa de ser doente e todo mundo
passa por fases difíceis. Atire o primeiro mouse quem nunca teve vontade de
destruir alguém na rede. Fato é que, se
mil pessoas entrarem em contato com você, via blog, email ou comunicador
instantâneo, cem poderão ter algum problema psiquiátrico. Não é difícil
compreender que um paranóico qualquer identifique você como inimigo a ser
destruído. Isso sem contar todos os problemas de caráter que afetam boa parte
da população.
O problema é que, quando acontece,
irrita. Enche o saco, porque os padrões são sempre os mesmos. Tem a pessoa que
confunde erro de digitação com erro de português, tem o chato que acompanha sua
vida com lente de aumento e fica à espreita no aguardo de qualquer deslize para
dar o bote com seu ‘ah há!’, tem o anônimo despeitado que entra no blog não
para falar com você mas de você, como se os outros leitores
fossem parte de uma platéia para seus muxoxos. Tem o agressivo patológico, tem
o covarde pentelho, tem o chato impertinente. Embora constantes e inevitáveis
todos esses casos compõem uma minoria. Em geral, a relação entre blogueiros e
leitores é muito boa, mesmo porque muitos leitores também são blogueiros e,
neste caso, estamos navegando no mesmo barco.
Reme em frente. Divirta-se. Esqueça.
Releve. Deixe passar. Os cães ladram, a caravana passa, os posts descem, os
comentários somem, a Internet cai, o saco esvazia e a longo prazo, estaremos
todos vendo a grama crescer pela raiz.
*Rosana Hermann
é Mestre em Física Nuclear pela USP de formação, escriba de profissão,
humorista por vocação, blogueira por opção e, mediante pagamento, apresentadora
de televisão.
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