Camadas
* Por
Eduardo Oliveira Freire
Quando criança,
Cláudio adorava ir à casa dos avós. Podia brincar à vontade na chácara. Era um
paraíso para ele e os primos.
Numa noite, quando
foram dormir, a avó saiu para dar uma volta. Sempre sentia calores e precisava
caminhar pela noite fresca. Cláudio estava sem sono e, quando foi à varanda,
flagrou a avó beijando ardentemente o caseiro mais jovem. Cláudio ficou horrorizado,
sempre achou sua vó parecida com a imagem imaculada da dona Benta do Sitio do
Pica-Pau Amarelo. Retornou á cama, chorando. Nunca mais quis voltar à chácara.
Alguns anos depois,
retornou para ver o avô doente e deprimido pela morte de sua esposa. Foram dias
agradáveis. O avô lhe perguntou por que
nunca mais quis ir ao sítio. O jovem revelou o caso da avó e se surpreendeu de
o velho não esboçar nenhum sentimento.
Só disse que o desejo
para ele tinha passado, mas, não para ela e que isto era insignificante em
relação ao fato de estarem juntos na alegria, na tristeza, na saúde e na doença
por quase toda a vida juntos. O avô sabia que ela o amava verdadeiramente.
Ainda disse a Cláudio
que era muito jovem para compreender as ambiguidades do ser humano. Todo mondo
possui camadas que se revelavam com o passar das estações.
Cláudio só entenderia
o diálogo com o avô, anos depois.
*
Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante
a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/
Libertário como a Lady de Chatterley.
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