Arte pelo amor à
vida
O poeta irlandês Seamus Heaney,
desconhecido em âmbito internacional (mas dizem que bastante apreciado em seu
país), foi o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1995. A Academia da
Suécia, responsável pela outorga, justificou, na oportunidade, a escolha
ressaltando que seus poemas exaltam os milagres diários que ocorrem na vida do
homem. E quantos não se verificam cotidianamente! Claro que se trata, na
maioria das vezes, dos pequenos, daqueles que sequer percebemos. Mas estão presentes.
E todos os dias. O simples fato de acordarmos vivos a cada manhã é milagroso. A
Terra é tão frágil e exposta a tantos perigos e o homem tão pequeno, que essa
sobrevivência chega a ser excepcional. Mas não nos damos conta.
Optamos pelo exercício covarde e inútil
das lamúrias, queixas e recriminações. Escolhemos objetivos errados para correr
atrás e com isso construímos somente a infelicidade. Experimente, leitor amigo,
a título de teste, cumprimentar alguém agora, qualquer pessoa, conhecida ou não.
Pergunte-lhe o de praxe: "como vai?". A resposta certamente vai
variar muito pouco, apenas na ênfase. "Mais ou menos", dirão alguns
(talvez a maioria). "Mal", responderá secamente o sujeito sisudo e
eternamente mau-humorado. "Vou indo", afirmará vagamente outro.
E assim por diante. Claro que a insatisfação, na devida dose, é saudável. Mas
desde que acompanhada do necessário esforço para satisfazer o que se deseja ou
que se precisa.
Contudo a vida é um milagre. Nossas
pequenas vitórias diárias sobre os instintos e sobre as deficiências (todos
temos as nossas) o são. O suceder das gerações... Os ciclos da natureza... As
quatro estações... A correspondência no amor... As oportunidades... A aquisição
de conhecimentos... As artes... Tudo isso é um milagre! Mas nós não nos satisfazemos
com o que julgamos ser tão pouco. Queremos mais, muito mais. Aspiramos o poder.
Nos trucidamos por bens cuja posse será apenas transitória, no espaço
relativamente curto da nossa existência. Colocamos a "miragem" da
propriedade como dogma sagrado, sem admitir contestações. E achamos que somos
civilizados.
Érico
Veríssimo, em seu livro "O resto é silêncio", põe na boca de um
personagem aquilo que considero o meu credo, enquanto indivíduo e intelectual.
Diz: "Arte pelo amor da vida. Pinta-se, compõe-se música, escreve-se
romance ou poesia, faz-se escultura, enfim, praticam-se todas as formas de
arte, parece-me, num desejo de imitar a vida, corrigi-la, compreendê-la, ampliá-la
ou fruí-la da maneira mais sensualmente larga. E não devemos esquecer que
nisso, como em tudo o mais, há sempre a presença do mistério". Eu diria,
do milagre.
A poesia, no Brasil, é tratada como um
gênero menor, maldito, visto com menosprezo pelo público e pelos editores. Os
mais broncos acham que se trata de coisa de "maricas". Para outros,
não passa de jogo de palavras. Outros ainda confundem-na com a água com
açúcar banal, de rimas pobres, popularesca, que alguns tentam lhes impingir.
Para um poeta lançar um livro, tenha o valor literário que tiver, precisará custear
a edição. Nenhuma editora se arriscará a bancá-lo. Argumentará com o risco do
encalhe. E raramente o infeliz autor consegue vender um número de exemplares
suficiente que lhe permita sequer recuperar o investimento.
Não preciso ir longe para fazer essa
constatação. Cito o caso dos meus dois livros inéditos de poesia, “Carrossel” e
“O poeta de alma azul”, cujos poemas venho postando, há já alguns dias, nas
redes sociais. Admito que não sou nenhum Quintana, ou Drummond, ou Bandeira.
Talvez até chegasse a esse patamar caso me sentisse “motivado”. Se meus poemas
não são geniais (não são mesmo) não fogem, todavia, da média de qualidade dos
que têm livros do gênero publicados. Com eles, venci alguns concursos, regionais
e até nacionais, em que não conhecia nenhum jurado e, portanto, a conquista não
se deveu a nenhuma “marmelada”. No entanto... cansei de ser recusado por
editoras, pelas razões mais pueris que se possa imaginar. Decidi que eles
permanecerão inéditos e ponto final.
A não ser que se trate de um dos
chamados "monstros sagrados" das letras, como Drummond, Bandeira,
Mário de Andrade, Guilherme de Almeida e um ou outro mais, nossas oportunidades
de publicação são ZERO. E todos estes poetas citados também enfrentaram as
mesmas dificuldades que os desconhecidos enfrentam para brindar o público com
sua arte. No entanto, a poesia está longe de morrer. Felizmente. Caso morresse,
o mundo, que já é tão chato, se tornaria chatérrimo, sombrio, horrível e
insuportável.
Todos os dias aparecem novos e bons
escritores do gênero, dispostos a todos os sacrifícios para comunicar aos
outros os seus sentimentos. Para desvendar-lhes um mundo novo de beleza, de
harmonia e de humanidade. O pior é que este ato de generosidade é,
invariavelmente, mal-interpretado. É visto como mera manifestação de vaidade. E
ainda assim os poetas persistem. É outro milagre do cotidiano. São pessoas que
fazem arte pelo amor à vida. São prestidigitadores que tiram da cartola da
realidade pombas brancas de paz. São mágicos que constroem mundos da frágil
matéria-prima das palavras. Murilo Mendes constata: "A poesia é muito
grande/mas o alfabeto é bem curto". Por isso, a atribuição do Nobel a
Heaney, que sabe vislumbrar estrelas, onde a maioria das pessoas apenas vê uma
suja poça de água, foi bastante justa. Trata-se de alguém que, de tanto exaltar
os milagres do cotidiano, viu o maior deles se materializar diante dos olhos.
Boa
Leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
"E ainda assim os poetas persistem. É outro milagre do cotidiano. São pessoas que fazem arte pelo amor à vida. São prestidigitadores que tiram da cartola da realidade pombas brancas de paz. São mágicos que constroem mundos da frágil matéria-prima das palavras." Para nosso aplauso.
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