A
Menina e Deus
* Por Risomar
Fasanaro
A mãe estava debruçada sobre a máquina Singer,
costurando. Tinha alguns vestidos para entregar e nos últimos dias ficava até a
madrugada para dar conta das entregas. A casa ficava entregue a Marinete, a
empregada doméstica. Envolta em seus pensamentos, a mãe não se deu conta quando
a menina, chegando bem perto dela disse em tom de segredo: “mamãe, eu descobri
uma coisa...”
Ainda absorta em seus pensamentos, ela
não ouviu, por isso a menina chegou bem perto do seu ouvido e repetiu: “eu
descobri uma coisa...” A mãe então se deu conta da presença da pirralha:
- Descobriu o quê? Não me venha com
mentiras, que senão dou-lhe umas palmadas...
- Não, mamãe, é uma coisa que ninguém
sabe...
- O que é? Diga logo que tenho muito
trabalho, ainda tenho três vestidos pra entregar até o final da semana. E se for fofoca, já
sabe, vai ficar de castigo. Vá dizendo logo!...
- Mamãe, eu descobri que Deus não existe!
A mãe largou a costura e virou-se para
ela com os olhos arregalados:
- O quê???! O que foi que você disse?!
- O quê???! O que foi que você disse?!
- Eu disse que Deus não existe.
- Onde foi que você ouviu isso, menina
desnaturada?
- Eu não ouvi, mamãe, eu descobri.
- Descobriu onde? Está ficando doida
pra dizer um absurdo desse?
A menina sentiu uma onda de felicidade
invadindo-a. A mãe largara as costuras para
dar atenção às suas palavras, às suas descobertas. Então aquilo era
realmente alguma coisa muito, muito importante.
A mãe levantou-se e, muito irritada,
disse:
- Nunca mais repita isso, ouviu bem?
Nunca mais! E responda: por que você está dizendo essas coisas? Com quem você
está andando que está lhe botando a perder?
- Com ninguém, mamãe. Eu sei que Ele
não existe. Porque se Ele existisse me dava uma bicicleta.
- Mas era só o que me faltava! Eu não
tenho paciência pra ouvir uma asneira dessas. Marinete! me traz um copo d’água.
Ela notou que a mãe estava realmente
muito abalada com suas palavras. Tomou calmamente a água, olhando-a fixamente.
- Essa menina tem uns mistérios que não
são pra idade dela. A empregada ouviu e comentou: “será que ela não ouviu
alguém dizer isso, dona Januária?” E
ouviu a mãe dizer baixinho, cochichando com a empregada, pensando que ela não
ouviria:
- Não...essas coisas são dela mesma.
Essa menina é cheia de cavilação. Você não vê com o que ela brinca? Ela não
brinca com boneca, não brinca de comidinha, de casinha....ela é diferente...As
brincadeiras dela são com gafanhoto...com sabugo de milho...Você não vê ela
formando batalhões de gafanhotos? Brinca com cigarra, com caroços de jaca...
Virou-se outra vez , agora irritada, e
disse à filha:
- E nunca mais repita isso. Deus pode
lhe castigar! Vá já brincar no quintal antes que lhe dê uma surra!
E continuou baixinho, como se pensasse
alto:
- Era só o que me faltava...Uma filha comunista!!!
Tudo começara no dia que, embaixo da
mangueira que havia no quintal, ela
tentava descobrir qual era a forma correta de pegar uma lagarta sem se
queimar. Descobriu que bastava pegá-la com cuidado pelos pêlos. O que queimava
era a barriga da lagarta. Depois achou um casulo. Pegou-o cuidadosamente entre
as mãos e viu que a borboleta estava começando a rompê-lo. Olhou-o
demoradamente, sentindo todas suas reentrâncias e de repente lhe veio um
pensamento. Sim, era aquilo! Descobrira!
Levantou-se correndo soltando o
casulo, e correu para a mãe que naquele
instante, como em todos os instantes em que sua infância precisou dela, estava
debruçada sobre a máquina Singer, costurando vestidos para aquelas mulheres grã-finas,
que podiam comprar cinco, dez, bicicletas para seus filhos se quisessem.
Depois da revelação do seu segredo à mãe, a menina voltou pra debaixo da
mangueira e a lagarta já não se
encontrava mais ali. Nem o casulo. Procurou, procurou, mas não os encontrou.
Foi pra debaixo do pé de jurubeba e começou a formar um batalhão com os gafanhotos. Que bonitos que eles eram... Iguaizinhos
aos soldados enfileirados de manhã, no campo de futebol, em frente à sua casa.
Continuou pensando na existência de Deus. Quer dizer que se Ele existe mesmo, além
de não dar nada que se pede, ainda castiga a gente?
Aquela certeza começara pequenininha,
quase invisível: do tamainho de uma semente de maria-sem-vergonha, que ela
plantava no jardim e aos poucos ia crescendo, crescendo, até que não agüentava
mais e aí explodia e de lá saía o rebento, uma pontinha de nada branca que aos
poucos se tornava verdinha e subia pela terra, crescendo, tomando forma de
folha, de caule e logo estava coberta de flores. Pois tinha sido assim a sua dúvida. Nascera ali, escondida dentro dela,
no escuro do seu serzinho menino, sem
que ninguém visse; e de repente ela sentiu que vinha crescendo, crescendo,
tomando seu peito, inundando sua alma. Não dava mais pra esconder. Era preciso
contar a alguém aquela coisa tão grande, tão importante que brotara dentro de
si. E escolhera a mãe, a pessoa mais importante da sua vida para a ela revelar
sua descoberta.
Lembrou dos tantos dias e noites em
que, ajoelhada, rezava pedindo a Deus que lhe desse uma bicicleta. Estava
cansada de esmolar uma volta, uma voltinha só às filhas do capitão. O pai delas havia
adquirido uma para cada filha.
Os dias se passavam e o pai não
comprava. Ela lembrava-o, pedia e eram sempre as mesmas respostas: não posso,
não tenho dinheiro...Mas e o pai de fulana? Ele além de ser capitão, só tem
duas filhas, eu sou sargento e tenho
quatro, era a resposta do pai. Só posso comprar uma bicicleta pra você quando
Getúlio der um aumento. Mas e as orações? E os pedidos que fazia a Deus, isso
não resolvia? Decididamente, Ele não existia, concluiu. E se existia, não tinha
poder. Quem tinha poder, quem decidia se a gente podia ou não ter alguma coisa
era aquele homem do retrato pendurado na parede, com uma gravata feita com a
bandeira brasileira.
Ah... Então essa era mais uma razão
para não acreditar nas aulas de catecismo. O padre tinha dito que Deus era o Todo Poderoso criador do céu e da
Terra, mas na verdade era aquele homem
do retrato quem decidia se ela iria ganhar ou não uma bicicleta.
-Quem é Getúlio, papai?
-Getúlio é o presidente.
-E o que é presidente?
-É o homem que governa o país.
-Ahan...então governo não presta, não é
papai?
O pai se assombrou com as idéias da
filha. Onde ela andava aprendendo tudo aquilo? Ontem não acreditava em Deus,
hoje achava que governo não prestava. Decididamente ele, um sargento do
exército, morando em uma vila militar
onde muito raramente entrava um
civil, estava criando uma filha anarquista.
Realmente havia muita coisa no mundo
que ela não entendia. Não encontrou a lagarta nem o casulo, mas achou uma
cigarra no tronco da mangueira. Pegou a cigarra e começou a procurar pra
descobrir de onde vinha o canto. Aquietou-se e procurou entender a existência
de Deus. Sim, pode ser que Ele exista, pensou.
Por que as pessoas grandes não contam à
gente o que elas sabem? Por que mamãe
não conta o que havia antes de haver o mundo? Se Deus existia, onde Ele estava
antes de criar o mundo? E se criou tudo isso que existe, por que não lhe dava a
bicicleta? Se existisse e não lhe dava,
é porque queria lhe castigar. Mas
castigar por quê? Porque ela não sabia a tabuada de multiplicar do
oito e do nove?
Mas se Ele existe, isso não é
coisa de Deus. O padre tinha lido direto do Catecismo: “quem é Deus? Deus é um
Ser perfeitíssimo, criador do céu e da terra.” Ora, um ser perfeitíssimo não a
castigaria porque não sabia as tabuadas do oito e do nove...
Ah... tinha tirado os sapatos e andado
na lama. Seria por isso? Mas Deus teria tempo a perder olhando as meninas que
andam descalças? Ora, esse Deus não combinava com o que o padre tinha ensinado.
Além do mais, procurava ser uma menina tão piedosa. Ia aos terços de maio todas
as noites, era uma das escolhidas para levar flores ao altar de Nossa
Senhora... Nada disso valia?
Mas...se fosse mesmo o homem da gravata
com a bandeira brasileira que mandava, conforme o pai havia dito, então Deus ou
não existia ou não mandava mesmo. Era aquele tal de Getúlio quem decidia tudo.
Era muito melhor a gente não ter governo.
Quando voltava da escola, ouvia os
soldados comentando: que meninas bonitas, já pensou quando crescerem? Mas a ela
não interessava ser bonita. Só muitos anos mais tarde descobriria quantas
portas a beleza abria. Via na revista “O Cruzeiro” do que a beleza era capaz.
As atrizes de cinema – todas, todas – eram bonitas. Mas a ela aquilo não
interessava. O que queria era a sua bicicleta. Será que se ela fosse bonita
ganharia a bicicleta?
A mãe dissera que Deus não se ocupava
com ninharias. Só se preocupava com coisas grandes.
-Que coisas grandes, mamãe?
-A guerra, por exemplo. Deus se
preocupa com o que acontece com as pessoas que vivem na guerra. Que estão
morrendo... Deus se preocupa com os que estão doentes nos hospitais...Com quem
passa fome...Não vai se preocupar com coisas pequenas, com ninharias...
Ora, se Ele se preocupava com aquelas
coisas, por que as guerras continuavam, as pessoas passavam fome... os
hospitais estavam cheios de gente doente? Por que ele não resolvia tudo aquilo?
E se a bicicleta era ninharia, porque Ele que era Todo Poderoso não lhe dava
uma? Não era mais fácil atender às ninharias do que às coisas grandes? Foi o
que se perguntou, quando se sentou de
novo embaixo da mangueira.
O paraíso de que o padre falava devia
ser igual a Vila de Socorro. Era como se todo o resto do mundo fosse feito de
escuridão, e ali, só ali houvesse
luz, somente ali habitasse a felicidade. O chão de barro
vermelho, as árvores, o rio... Quando de lá se afastava, para passar uns dias
na casa dos padrinhos em Areias, era como se tivesse saído da luz e mergulhasse
na escuridão.
A casa dos padrinhos tinha um longo e
escuro corredor, e a madrinha vivia reclamando de doenças. Toda semana ia ao
médico. Ela e o irmão que já havia alguns anos morava com a madrinha,
aproveitavam quando ela saía para ficarem sentados na janela cantando, vendo os
trens que passavam. Ela gostava de ouvi-lo cantar “guriatã de coqueiro/ fugiu
de sua gaiola/guriatã de coqueiro bateu asas e foi embora...”
Quando a madrinha apontava do outro
lado da linha do trem, os dois saíam da janela e fingiam que estavam lendo, pra
não levar bronca. Ficavam ali, naquele ambiente em penumbra, com as
janelas apenas semiabertas. Uma casa sem cor, sem alegria.
Dias depois, quando voltava à casa dos
pais, já no trem vislumbrava a claridão da Vila de Socorro. Ali podia andar
descalça, escondida da mãe, sair na chuva e enfiar os pés na lama vermelha, na
estrada que dava pra ponte do seu Alderico. Passar debaixo da cajazeira, que de
tão grande parecia se debruçar sobre a estrada, para espiar as pessoas que por
lá passavam. Ali tudo era luz, tudo era dia de festa.
Em Socorro não precisava almoçar. O bom
mesmo era comer frutas. Quando crescesse só comeria frutas. Achava uma delícia
comer jaca, sentir o brilho do néctar derretendo na boca, o gosto do caju, os
fiapos de manga entrando nos dentes, os araçás da beira da estrada... Não,
decididamente, só queria comer frutas.
A professora contara a história de uns
monges que se alimentavam só com frutas. Eram homens santos, dissera. Pronto,
descobrira: queria ser santa pra se alimentar só com frutas...
- Mamãe, eu quero ser santa.
- De onde vem essa novidade agora?
- É que nunca mais vou precisar comer
arroz nem feijão, nem carne. Vou comer só frutas.
- Ah, é? E como é que a santa vai
explicar a Deus que não acredita n’Ele?
Desistiu de ser santa. Passou a jogar o
almoço no lixo. Fazia isso aos poucos, para
a mãe não desconfiar. Cada vez que chegava perto dela, a mãe notava que
havia menos comida e, assim, pensava que ela estava comendo. O pão, ela atirava
atrás dos móveis, Marinete, sua cúmplice, não contava nada, pegava o pão e
jogava no lixo.
A mãe ficava verdadeiramente enfurecida
com aquela menina estranha que só queria tomar café em canecos “de louça bem
fininha, mamãe... a senhora compra pra mim?” Ela não sabia ainda a diferença
entre porcelana e louça comum, das xícaras em que os irmãos tomavam café com
leite sem reclamar. Agora se achava, aos
oito anos, com o direito de dizer que detestava leite. E se a forçassem,
vomitava. A mãe desistira de contrariá-la.
Essa menina parece que é feita de
alfenim, cheia de não-me-toques. Não era. Gostava de andar descalça, enfiar o
pé na lama vermelha do barro da estrada,
de ficar no meio das meninas e moças que dançavam Pastoril. Gostava de
ver as mulheres fazendo renda de bilro nos longos quintais de terra batida,
varridos com vassouras de capim verdinho. Gostava de ficar sentadnha ali, ao
lado de dona Maria benzedeira... Até aprendera toda a reza, e em casa com três
folhas de pinhão benzia o cachorro, as galinhas...
A mãe não queria que andasse descalça.
O pai saía de Socorro e ia até a feira de Jaboatão comprar alpercatas de couro
cru pra ela e a irmã calçarem no dia a dia. Mas a mãe vivia debruçada na
máquina de costura, não via nada do que ela e os irmãos faziam...
O sol começava a ficar menos forte.
Levantou-se e foi pra casa. Tomou banho e sentou-se nos degraus da varanda, pra
chupar uma manga.
Algum tempo depois, viu o pai que
voltava do quartel, com um embrulhinho nas mãos. Atravessava a ponte sobre o
rio Jaboatão que ligava a vila dos oficiais à dos sargentos ao mesmo tempo que
separava as crianças que tinham os brinquedos que quisessem das que não tinham.
Foi correndo ao encontro dele.
-Papai, a gente pode escrever pro
presidente?
-Sim, pode sim.
-E ele lê?
-Bom, isso eu não garanto.
- Se eu escrever uma carta pra ele, o
Sr. bota no correio?
- Boto sim. Mas você já sabe escrever
carta?
-Sei sim, dona Cândida ensinou a gente.
Eu até escrevi uma carta pra Doroty Lamour.
-Foi mesmo? E o que você escreveu pra
ela?
- Ah... eu pedi a ela que se tivesse
algum daqueles sarongs que ela usa nos
filmes, e que não quisesse mais, que mandasse pra mim...
- E você acha que ela vai mandar?
- Não, papai, a gente não pôs a carta
no correio. A professora disse que era só pra gente aprender a escrever
carta... Mas a que vou escrever pro presidente eu quero que o Sr. coloque no correio. O Sr. coloca?
- E o que você vai dizer ao presidente?
A menina não
ouviu a pergunta do pai. Uma borboleta amarela passou voando e ela, com o
vestido todo sujo dos respingos de manga,
saiu correndo atrás da borboleta como se pudesse, com seus braços,
agarrar Deus.
*
Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora
de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de
Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e
José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.
Nenhum comentário:
Postar um comentário