Picasso e os curadores
* Por Plínio
Palhano
Por ocasião da Mostra do Redescobrimento, Brasil +
500, no ano 2000, em São Paulo, surgiram, como sempre acontece, polêmicas
saudáveis, entre elas a questão do verdadeiro papel do curador. Isso porque
alguns artistas se sentiram injustiçados ou, de alguma forma, não dignamente
representados naquela grande exposição.
Alguns críticos, historiadores e museólogos se
interessaram em participar da discussão. A revista Arte & Informação pôs em
circuito essas importantes vozes de profissionais envolvidos com as artes
plásticas. Paulo Sérgio Duarte, um deles, que prefere ser identificado como um
coordenador de projetos, renegando o título de curador, disse com fundamento
que "O bom curador é aquele que não aparece - deixa aparecer só a obra de
arte que ele está mostrando. Quando a curadoria tem visibilidade, ela já está
estragando tudo". Para se entender com a curadoria, o artista plástico
Cildo Meireles, um dos escolhidos na Mostra, foi obrigado a se utilizar de um
intermediário no diálogo, com o objetivo de colocar o seu ponto de vista em
relação às obras que participariam, embora tenha predominado a versão da
curadoria do evento, sobre a qual, naquela oportunidade, Meireles expressou
publicamente sua contrariedade.
Outro artista que se sentiu pobremente representado
foi Henrique do Amaral. Dos seus trabalhos, foram selecionados apenas dois, não
considerados por ele importantes para aquele momento, por não favorecer uma
visão real da sua obra, realizada em 45 anos de arte. Amaral chegou a afirmar:
"Não sou o darling da moçada". Por sua vez, a crítica de arte,
historiadora e museóloga Aracy Amaral foi contundente e irônica: "Os
curadores usam roupas de grife, como treinadores da Seleção Brasileira -
sapatos, relógios - e há um dandismo no ar que combina com a banalização de
sexo, afetos, moral, uso de drogas, como se nada mais importasse, só isso: a
avassaladora importância do dinheiro e das grifes".
Em seu Dicionário Crítico de Política Cultural,
Teixeira Coelho aproxima o sentido atual do curador com a definição jurídica
tradicional: "aquele que, por incumbência legal ou jurídica (no caso,
cultural) tem a função de zelar pelos bens e interesses dos que por si não o
possam fazer, como os órfãos, loucos, tóxico-dependentes, estróinas etc. Os
artistas surgem, assim, como aqueles que não sabem ou não explicitam as
tendências em que se encaixam, suas hipóteses de trabalho, suas propostas: não
têm controle sobre sua obra, são relativamente incapazes de geri-la". Ou
seja: em tese, o artista deixou de pensar o seu mundo, sua cultura, para ser
simples instrumento de reflexões teóricas desse novo agente da arte - o
curador.
Mas os artistas deram as suas definições e criaram
a história da arte de que temos notícia. Não coube a nenhuma outra figura, a
não ser a eles, os artistas, a construção desse pensamento. Claro que sempre
estiveram associados, de forma instintiva e inteligente, ao poder. Poder do
qual hoje esse personagem, o curador, é o mais próximo.
Difícil é imaginar um artista como Picasso, com
aquele olhar penetrante e agudo que tinha, ouvindo docilmente a opinião de um
curador sobre como deveria ser sua próxima retrospectiva. Ele, de braços
cruzados, com ar de quem está se protegendo das possíveis interferências
estabelecidas dentro dos "critérios" internacionais vigentes...
Brassaï, o fotógrafo predileto do artista, no seu livro Conversas com Picasso,
narra um fato por ele presenciado que pode ilustrar muito bem o que queremos
dizer.
Um importante editor alemão estava interessadíssimo
em lançar uma espécie de álbum só sobre as esculturas do mestre. E como Brassaï
era o fotógrafo oficial, acompanhava o editor na revisão das esculturas, que
deveriam ser fotografadas no ateliê do artista. De repente, o alemão pára ante
uma escultura (A Ave) e murmura no ouvido do fotógrafo: "Não vale a pena
fotografá-la. É mais um objeto que uma escultura..." Picasso conseguiu
ouvir a frase do editor e com energia, apontando para a escultura, disse:
"Faço questão absoluta de que essa escultura figure em meu álbum!".
E, horas mais tarde, sem a presença do editor no ateliê, Brassaï ouve o
desabafo do artista: "Um objeto! Minha Ave então não passa de um objeto!
Quem ele pensa que é, esse homem? Ensinar a mim, Picasso, o que é ou não uma
escultura! É muito atrevimento! Disso eu entendo provavelmente mais que ele...
O que é escultura? O que é pintura? As pessoas se apegam às idéias velhas, a
definições caducas, como se o papel do artista não fosse precisamente propor
novas definições...".
*
Artista plástico e escritor
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