O
mágico lúcido
O assunto, hoje, é Drummond. E tratar
do poeta de Itabira, seja por qual motivo for, é sempre agradável, ainda mais
ouvindo Beethoven no Sonora, magnífico serviço prestado pelo portal Terra aos
amantes do que é estético, belo, divino e mágico. Aliás, para se deliciar com
os versos deste “encantador” (não de serpentes, mas de corações) nem seria
necessário tamanho requinte, embora ele somente multiplique ainda mais o
prazer.
Todavia, hoje não falarei do poeta das
Gerais na função de autor, mas de “personagem”. E do livro de uma escritora que
ele apreciava, Marlene de Castro Correia. A obra? Tem título que vem a calhar:
“Drummond: a magia lúcida”.
É isso que esse poeta majestoso foi:
mágico, sem tirar e nem pôr. Mágico das metáforas. Mágico das emoções. Mágico
dos sentimentos. Mágico das idéias. Mágico do que vocês quiserem. E ninguém
melhor para falar dele do que essa escritora de quem Drummond declarou, certa
feita: “Marlene gosta da minha obra, mostra porque gosta e quer que os outros
gostem”. Como deixar de gostar de você, querido poeta?!! Só se o sujeito for
bronco, muito burro e absolutamente insensível!
O livro em questão foi lançado há já
algum tempo pela Editora Jorge Zahar. Mas o propósito não é fazer nenhuma
resenha dele e nem esmiuçá-lo. Compre-o, leia-o e faça você mesmo o seu juízo a
propósito. Minha intenção é somente citá-lo, e dizer que gostei muito das
colocações de Marlene. E isso basta!
Mas, cá para nós, voltando à questão da
magia, só um mágico conseguiria sobreviver na memória e no coração do povo por
tantos anos após sua morte. E não me enganei não. Drummond é lido e recitado
não apenas por sisudos e doutos intelectuais, mas por pessoas simples, que têm
dificuldades para entender até um reles bilhete. Portanto, pelo povo sim. E isso é magia pura. Mas não magia negra,
claro. .
Seus versos continuam atuais,
vibrantes, originais e vivos. São como se tivessem sido escritos há meros
minutos. É ou não é magia?! Concordo com o que Linhares Filho, poeta, crítico e
professor da Universidade do Ceará escreveu, no artigo “Vinte anos de
atualidade”, publicado no suplemento especial com que o jornal “O Povo”, de
Fortaleza brindou seu leitor, em 17 de agosto de 2007, por ocasião do 20°
aniversário da morte do poeta:
“Drummond... constitui-se num lírico de
aguda percepção da psique humana, apreendendo a tortura e o consolo do amor,
enxergando o mundo através de uma ótica realista e cheia de humor,
contrabalançando uma ternura austera com o senso do trágico e do absurdo
existenciais, porque cultivador do cotidiano, mas transcendendo-o pelo enfoque
poético, porque cultivador de um peculiar memorialismo em versos, porque
intensamente preocupado com a opressão da sociedade de consumo e com o destino
do homem no universo periclitante; porque perqueridor, elaborador do enigma e
valorizador da palavra (...)”
Bela análise! Linhares Filho, que
também já escreveu um livro sobre o poeta de Itabira (“O amor e outros aspectos
em Drummond”) lembra outros estudos da poética drummondiana, como os de Affonso
Romano de Sant’Anna, Manuel de Moraes, Gilberto Mendonça Teles, José Guilherme
Merquior, Joaquim Francisco Coelho, Oton Moacir Garcia, Silviano Santiago,
Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Davi Arriguci e Francisco Carvalho.
Leiam este poema de Drummond e digam se
não é coisa de mágico, de “magia lúcida”:
Quando
nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(O Poema de Sete Chaves, do livro Alguma Poesia, 1930)
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(O Poema de Sete Chaves, do livro Alguma Poesia, 1930)
Como é gostoso escrever sobre Drummond!
Tomara que apareçam muitos pretextos, como este, do livro de Marlene de Castro
Correa. Mas se não aparecerem... que raios, escreverei sobre ele assim
mesmo!!!!
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Mais que um passeio, é um voo livre sobre as coisas do coração. No ano que vem serão trinta anos sem Drummond, um bom motivo para falar dele muitas vezes.
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