“E
o meu coração, embora finja fazer mil viagens, fica batendo parado naquela
estação” (João Donato, Caetano Veloso e Ronaldo Bastos)
* Por
Mara Narciso
Supõe-se que quem
goste de ler sobre os caminhos da morte seja mórbido. O mais recente livro de
Glorinha Mameluque fala disso e é bom lê-lo.
A morte não é a protagonista. A personagem principal é o amor. Raras
vezes se viu uma doença feroz devorar alguém tão amado. A doença de Pedro
Mameluque intensificou o amor e união da sua família, que decidiu mudar toda a
sua rotina para ficar ao lado dele até o momento final. Quem conheceu Pedro
sabe que sua vida foi de bondade, honradez, respeito e dignidade. “Amor do
princípio ao fim” conta a penitência de uma vítima da Demência com Corpos de
Lewy, doença semelhante ao Mal de Alzheimer.
A deposição de
proteína anômala vai matando as células cerebrais e a pessoa perde uma a uma as
suas funções. A perda da memória faz parte da fase inicial da moléstia, que
leva a alterações de humor, de comportamento, perda do equilíbrio e da
capacidade motora, atingindo os controles conscientes e os inconscientes, como
a deglutição e a respiração. Então, quem recebe este diagnóstico sabe que tudo
terminará em alguns anos. Como o início é sutil, não se define exatamente
quando começou.
A intenção de Glorinha
Mameluque, formada em Enfermagem, Direito e Psicologia, foi encontrar caminhos
para tratar, reduzindo a dor e honrando a dignidade do doente, e então, ajudar
os outros com seu relato. A rota em direção ao abismo foi amenizada com a
presença permanente da família e dos recursos da medicina, evitando-se a
Distanásia, ou seja, a obstinação terapêutica, com intervenções inúteis. O primeiro
livro sobre o tema, “Sabemos quem ele é” fala da doença inicial, e este fala do
tratamento paliativo (pálio é manto, cobertura), do acolhimento incondicional
da esposa e dos quatro filhos Leopoldo, Gustavo, Christina e Patrícia, que dão
uma aula de amor, união e fé.
Diminuta em tamanho e
grande em coragem, Glorinha Mameluque escancarou portas e janelas, derrubou
barreiras, mostrou tudo. Poupou seus leitores apenas dos detalhes pesados,
ocultando parcela dos escombros dessa doença trágica e incapacitante. Pedro
prestou destacado serviço de solidariedade como advogado carcerário e sua amada
Glorinha nos presta um magnífico auxílio, explicando de forma limpa, como ser
magnânima no trato do portador de doença degenerativa.
A autora, membro
efetivo da Academia Montesclarense de Letras, ameniza sem ocultar o essencial,
colocando a sua imensa fé e sensibilidade com citações de tratamentos
paliativos, partes da Bíblia e poemas que adoçam a leitura, trazem aperto ao
coração, engulhos no estômago e choro. Quando um ente querido está em cima de uma
cama, corpo largado, afogado em secreções, a morte rondando o quarto, só com
muita força para manter o controle. Personagem e autora, Glorinha premia o
leitor com preciosas reflexões, fotos de reuniões familiares e de viagens
feitas até um ano antes do fim. O doente viajava, e ainda que não soubesse o
que se passava, a face relaxada e as batidas cardíacas harmoniosas mostravam
que se sentia bem, e valia a pena levá-lo. Não, não haveria CTI, entubação e
respirador, uma decisão difícil de ser tomada. A gastrostomia, para alimentar
pela barriga, quando não mais conseguia engolir, o desapego para deixá-lo ir,
foram momentos funestos. O sopro de vida se acabou em casa, no aconchego dos
entes queridos, como planejado.
O livro conforta os
que lutam com pacientes neurológicos. Apenas com desprendimento é possível
expor uma ferida desse porte. Imitando Glorinha, que mostrou habilidade poética
na despedida do seu grande amor, eis um poema cantado por Adriana Calcanhoto,
que fala de um adeus definitivo. Chama-se “Naquela Estação” e diz assim:
“Você
entrou num trem
E
eu na estação vendo o céu fugir
Também
não dava mais para tentar
Lhe
convencer a não partir
Agora
tudo bem
Você
partiu para ver outras paisagens
E
o meu coração embora finja fazer mil viagens
Fica
batendo parado naquela estação”.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Deve ser realmente emocionante esse relato. Uma prova para o paciente e talvez até maior para a família.
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