Desvio de finalidade
* Por
Marcelo Sguassábia
Viver em comunidade é
viver com responsabilidade. Como nem todos pensam assim, abusos sempre
acontecem. Mas chega uma hora em que é preciso colocar ordem na casa, para que
prevaleça um mínimo de civilidade e observância a normas de boa e saudável
convivência. E essa hora chegou para o nosso condomínio. Mais especificamente,
refiro-me a irregularidades na utilização segura do playground, e à necessidade
de estabelecermos a quem ele de fato se destina.
Não é novidade para
ninguém que o gira-gira existe para turbinar o efeito da bebida, por isso está
estrategicamente instalado próximo ao lazer dos adultos. É insano permitir que
crianças se aproximem dele. Se a força do equipamento em alta velocidade pode
derrubar gente de noventa quilos, que ali espairece responsavelmente entre uma
mão e outra de carteado no salão de festas, o que dizer de gurizinhos mais
leves que um saco de arroz Tio João? O desastre é tão certo quanto as horas de
choro que o sucedem. E, em ocorrendo acidente, os condôminos respondem juridicamente
pelas despesas do hospital. Ou da funerária.
Para evitar que
menores de 21 se aproximem dos balanços, o subsíndico mandou instalar um
engenhoso mecanismo de senha alfanumérica combinado com biometria de
reconhecimento digital e leitura de iris. Qualquer tentativa de acesso indevido
ao equipamento resultará, após três digitações incorretas da senha, no bloqueio
do movimento pendular do balanço. Na eventualidade do infantiloide conseguir
dar umas balançadas, em questão de segundos seu assento será ejetado. De
castigo, acabará no mínimo com um traumatismo craniano. Bem feito. Se os pais
não corrigem, a comissão administrativa do prédio saberá fazê-lo. Esses
pequenos mal-educados aprenderão na marra a evitar a traquinagem.
Dizem que é
"escorregador" o nome que a molecada dá ao escalador-fitness,
adquirido para complementar a nossa já bem equipada academia de ginástica.
Enquanto nós, adultos, utilizamos o aparelho para fortalecer as panturrilhas na
subida da escadinha, os guris usam a escada para se jogarem aos berros na rampa
metálica - o que é um contrassenso. Com essa brincadeira besta, impedem que as
pessoas mais velhas utilizem o escalador para o fim que foi concebido: cuidar
da forma física.
Em relação à
gaiola-labirinto, as reclamações são quase diárias. Tal qual selvagens micos, a
meninada em algazarra usa o emaranhando metálico para exercitar os bíceps.
Outro flagrante absurdo, pois a gaiola foi feita para secar roupas (facilitando
a vida das nossas prendadas condôminas), ou para espionar com binóculos as
banhistas do prédio ao lado (caso dos respeitáveis condôminos).
Playground não é e nem
nunca foi lugar de criança, mas a impressão que se tem é que a proibição exerce
sobre elas um fascínio irresistível. A plaquinha "Proibida a entrada de
menores", afixada com destaque ao lado do par de gangorras, parece aguçar
ainda mais os pestinhas. Medidas extremas, ainda em estudos, serão necessárias.
Contamos com a compreensão e o apoio de todos.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Subir pelas escadas e me jogar na rampa, está aí uma boa ideia. De hoje em diante farei o jogo inverso ao que fazia antes. Brincadeira. Saudades do escorregador da Praça de Esportes.
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