Cabelos ao vento
* Por
Marcelo Sguassábia
Nem todo mundo sabe,
mas o cabelo, se bem conservado, é eterno (não se animem os carecas, a
eternidade é do dito cujo fora da cabeça, e não em cima dela). Pura proteína,
pode manter-se intacto com o passar dos séculos, mesmo debaixo da terra e
exposto aos vermes. Mais: tanto o cabelo quanto as unhas continuam crescendo
após o sepultamento, por períodos que variam de organismo para organismo.
Melhor dizendo, de cadáver para cadáver.
Com apogeu no século
19, o hábito de guardar mechas de cabelo vem da Grécia antiga. O mais comum era
acondicionar em caixinhas, envelopes ou no interior de camafeus um cacho do
primeiro corte ou do último, já da pessoa defunta, como recordação. Namorados
também enviavam madeixas às suas caras metades, para diminuir saudades e
distâncias. Enfim, era uma relíquia sem prazo de validade que entes queridos
presenteavam-se mutuamente, e que literalmente significava ter a posse de um
pedaço da pessoa.
Alguns, mais espertos,
tinham acesso a defuntos ilustres e, disfarçadamente, davam um jeito de
surrupiar um ou outro cacho para legar à posteridade. Visando, obviamente,
fazer dinheiro com isso no futuro.
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VIENA, 2014, EM UMA
CASA DE LEILÕES.
Separados em suas
respectivas mechas e divididos por área de notabilidade - políticos,
presidentes da república, reis, cientistas, músicos, escritores e filósofos, os
cabelos aguardavam os novos donos, que os arrematariam em lances milionários.
Dentre outros, ali estavam amostras capilares de George Washington, Chopin, Napoleão
Bonaparte, Nietszche, Mozart, Oscar Wilde, Mussolini, Einstein e Picasso.
Então o improvável e
espetacular desastre se deu, por conta de uma reles veneziana com o trinco
enguiçado. Um vento encanado e pronto: as mechas todas em redemoinho, para sempre
misturadas.
- Gente, e agora?
Leilão marcado... Para saber que cabelo é de quem nós temos que enviar, fio por
fio, à análise de DNA. Precisamos de novas certificações de autenticidade.
- Com resultados
prontos até depois de amanhã? Tá fácil, heim. Estamos perdidos.
- Tanto melhor! Os
cabelos são todos de grandes gênios da humanidade, não são? Quem arrematar a
mecha do Oscar Wilde, por exemplo, vai levar cabelos de um monte de outras
celebridades. Sem pagar nada mais por isso! Um grande negócio.
- Tá bom. Aí o dono do
chumaço resolve fazer um DNA, para saber se o cabelo que ele comprou é o mesmo
que ele levou...
- Repito: vai perceber
que está na vantagem. Se fizer o DNA dos outros fios, terá uma grata e
bombástica surpresa. Vai descobrir que possui metade da Enciclopédia Britânica
em forma de cabelo.
- Vamos perder
credibilidade como casa de leilões...
- Bom, a rigor, se
alguém contestar, o problema é do laboratório que deu o laudo do DNA. Podemos
falar que a culpa é deles, e nunca ninguém ficará sabendo desse acidente do
vento entrando pela janela.
- Canalhice,
velhacaria. Muito mau-caratismo para o meu gosto. A culpa foi do vento, temos
que assumir isso...
- E perder milhões,
cancelando o leilão?
A PORTAS (E
VENEZIANAS) TRANCADAS, FIZERAM UM PACTO DE CUMPLICIDADE E SILÊNCIO. VARARAM
NOITE E MADRUGADA JUNTANDO CABELOS EM MECHAS QUE SE ASSEMELHAVAM PELA COR.
TODAS AS RELÍQUIAS FORAM ARREMATADAS. NUNCA NINGUÉM CONTESTOU A AUTENTICIDADE
DELAS.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Moço, que enredo!
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