A menina do chemisier rosa
* Por
Alberto Cohen
Devo confessar que meu
grande amor é uma menina. Às vezes ela tem quatorze, outras vezes quinze anos.
Não mais que isso.
Amo seu jeito de andar
com a cabeça levemente inclinada para um lado, como se escutasse alguma
melodia, e de estreitar os olhos quando olha para mim. Ela usa óculos.
É, ao mesmo tempo,
gozado e enternecedor vê-la, quando lê ou estuda, enrolar com os dedos a mecha
de cabelos lisos, cor de cobre, e comovente ouvir seus planos de ser médica
para ajudar as pessoas.
Lembrei, agora mesmo,
que seus cadernos são de folhas avulsas cortadas ao meio e quase todos têm,
colados na capa, um passarinho, uma flor, um coração.
Como posso deixar de
amar essa menina tão bonitinha em seu chemisier rosa e tão perfumada de White
Magnólia? E como gosta, realmente, de poesia! Principalmente a minha aos
dezessete anos!
Aos domingos, quando a
levo à missa numa igrejinha de subúrbio, vou coberto de orgulho por tê-la ao
meu lado e ouvi-la dizer que somos namorados. Nessas horas, sinto que será,
sempre, a minha menina.
O mais importante é
que, no meu coração, ela permanecerá toda a vida, meiga e boa, terá quatorze ou
quinze anos e não irá crescer para se tornar, talvez, uma mulher maldosa e
amarga que não lembre que, um dia, fazer-me feliz foi seu maior sonho.
Não! A minha menina,
meiga e bonitinha, quatorze ou quinze anos, chemisier rosa, White Magnólia,
jamais me fará infeliz.
Deixem-na assim, fiel
e constante, morando em minhas lembranças e nos meus sonhos (a casa de sonhos
que lhe prometi). Nosso tempo será démodé, mas dourado, com beijos roubados,
poemas de amor e a emoção imensa de andar de mãos dadas pela vida inteira.
*
Poeta paraense.
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