O pavor de Shakespeare pela peste
bubônica
Ao se tratar de epidemias de peste bubônica, sobretudo na
Inglaterra, e ao se abordar a forma com que seus principais escritores se
referiram a esse flagelo em suas obras, um nome jamais pode ser ignorado, sob
pena do tema ficar superficial e incompleto. Refiro-me a William Shakespeare. É
verdade que o Bardo não escreveu nenhuma peça específica sobre a doença e muito
menos algum soneto a propósito. Não, ele não fez isso. Todavia, a peste está
presente em várias de suas produções teatrais, quase sempre em forma de praga
rogada por personagens contra seus desafetos, o que prova que a doença. além de
ser bastante comum,era considerada o maior dos males que podiam afetar alguém,
dada, claro, sua altíssima letalidade. Pudera!
Cito, de cabeça, três peças de Shakespeare de que me lembro,
em que tais imprecações, feitas por personagens, aparecem: “A tempestade”, “Ricardo
III” e “Coriolano””. Devem haver algumas outras, mas para identificá-las seria
necessário reler toda a vasta obra teatral do dramaturgo, consistente de 38
textos do gênero. Mas a peste foi realidade onipresente, se não na obra, na
vida de William Shakespeare. E ele tinha pavor mortal da doença. No lugar dele
e naquelas circunstâncias eu também teria. Aliás, não apenas eu, mas qualquer
pessoa de bom senso. E Shakespeare tinha motivos de sobra para tanto temor.
Afinal de contas, já no seu nascimento, em 1564, venceu a primeira batalha contra
o flagelo.
O futuro gênio da dramaturgia escapou, no parto, por muito
pouco, de forma “milagrosa”, de morrer em conseqüência da peste bubônica. Quando
do seu nascimento, não só sua cidadezinha natal, Stratford-upon-Avon, como o
cantão em que ela se situava, enfrentavam fulminante epidemia da doença. Praticamente
todas as casas da vizinhança da sua tiveram famílias inteiras dizimadas pela
enfermidade. A sua, no entanto... foi poupada. Pelo menos foi naquela epidemia
específica. Quis, como se vê, o acaso (ou sabe-se lá quem ou o quê) que a
Inglaterra e o mundo não fossem privados daquele que viria a se tornar algum
dia gênio da Literatura e da arte dramática.
Embora poupado no nascimento, Shakespeare não escapou da
tragédia da doença, que afetou diretamente sua família. Perdeu as irmãs Joan,
Margaret (apenas bebês) e Anne (com sete anos) para a praga letal. Mas não foi
só. A doença matou, também, seu irmão Edmund, quando este tinha 27 anos. Dizimou,
como se vê, a maior parte da sua família. Como “desgraça pouca é bobagem”, como
costuma afirmar o povão, a peste matou, ainda, seu único filho, Hamnet, quando
ele mal havia completado onze anos de idade. Não conheço nenhum outro escritor
que tenha experimentado tantas perdas em conseqüência desse flagelo. Embora pessoalmente
tenha sido poupado, perdeu cinco membros queridos de sua família em alguma das
tão freqüentes epidemias da doença. Era ou não era para ter pavor?!!!
Além das mortes, para o que, óbvio, não há remédio, a peste
bubônica influenciou, pode-se dizer de forma direta, em sua carreira de
dramaturgo, primeiro como ator e posteriormente como autor das 38 peças que nos
legou. A cada epidemia – e estas se sucediam com uma freqüência aterradora – os
teatros (seu único “ganha pão”), eram fechados, por motivos óbvios. Todavia, Shakespeare aproveitava essas
circunstâncias, esses forçados hiatos de contato com o público, para escrever.
Foi dessa forma que produziu, por exemplo, seus sonetos, que hoje rivalizam com
suas peças em popularidade e em interesse. Escreveu, ainda, muitos dos seus
principais dramas nessas ocasiões. Além disso, pôde viajar pelo país, levando
sua arte a pequenas e médias cidades inglesas. Ocorre que nem em todas as
epidemias os teatros do interior eram também fechados. O fechamento recaía mais
sobre as casas de espetáculo londrinas. E, para não ficar “desempregado”, ele e
sua “troupe” saíam em longas excursões pelo país, o que, certamente, contribuía
para conquistar novos públicos.
Observe-se que muitas vezes os teatros de Londres eram
fechados à revelia de Elizabeth I, sabidamente grande apreciadora e incentivadora
da arte dramática. Aliás, é conhecido (e louvado) o gosto da rainha pelos
espetáculos populares, embora, não raro, ela exagerasse. Bailados, mágicas e
representações cênicas de todo tipo eram apresentadas por onde quer que a soberana
fosse e ela deliciava-se com isso. Mas o mérito maior de Elizabeth I foi o de
contrabalançar a forte tendência puritana no seu reino. Às vezes, a vontade da
rainha não era suficiente para evitar o fechamento dos teatros, sobretudo os
londrinos. Foi o que aconteceu, por exemplo, na epidemia de 1592 a 1594. Por pressão
dos líderes religiosos, ela foi forçada a fechar as casas de espetáculo da
capital. Os puritanos recorreram a um sofisma, ou seja, a um silogismo incorreto,
para forçar esse ato extremo. Diziam (no seu supremo e tolo fanatismo): "A
causa da peste é o pecado. A causa do pecado é o teatro. Logo, observando bem,
a causa da peste é o teatro". Claro que não era!
Dependêssemos desses fanáticos, portanto, nós, do século
XXI, não teríamos jamais o que passou para a história das artes como “Teatro
Elizabetano”. Por consequência ficaríamos privados de um William Shakespeare e
de sua monumental obra dramática. Ainda bem que sua opinião não prevaleceu. Não
por “todo” o tempo, embora tenha prevalecido por “algum”. A peste inspirou, posto
que indiretamente, o Bardo a criar vários de seus personagens. Uma coisa que o
incomodava sobremaneira era o fato das pessoas pobres não poderem pagar os
medicamentos para tratar da doença e, por isso, morrerem às dezenas, às centenas,
aos milhares até. Ele supunha, claro, que tais “medicamentos” fossem eficazes,
quando em verdade nem eram. Afinal, como tenho enfatizado e reiterado, as
causas da peste bubônica eram desconhecidas e, por conseqüência, tudo o que se
destinasse a curá-la era inócuo, quando não mero veneno, que só apressava a
morte.
Boa leitura.
O Editor.
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Sei que não acredita no destino, Pedro, mas para mim, quis o destino que Shakespeare não morresse antes de nos legar a sua obra.
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