O bebê de Tarlatana Rosa
* Por
Paulo Barreto
- Oh! uma história de
máscaras! quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos
dá essa sensação de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a
sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou de luxúrias atrozes.
Um carnaval sem aventura não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura. .
E Heitor de Alencar
esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade.
Havia no gabinete o
Barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta
implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a
aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um gianaclis
autêntico parecia absorto:
- É uma aventura
alegre? indagou Maria.
- Conforme os
temperamentos.
- Suja?
- Pavorosa ao menos.
- De dia?
- Não. Pela madrugada.
- Mas, homem de Deus,
conta! - suplicava Anatólio. - Olha que está adoecendo a Maria.
Heitor pegou um largo
trago à cigarreta.
- Não há quem não saia
no Carnaval disposto ao excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores
extravagâncias. O desejo, quase doentio é como incutido, infiltrado pelo
ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro
dias paranoicos, de pulos, de guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é
possível. Não há quem se contente com uma...
- Nem com um, -
atalhou Anatólio.
- Os sorrisos são
ofertas, os olhos suplicam, as gargalhadas passam como arrepios de urtiga pelo
ar. É possível que muita gente consiga ser indiferente. Eu sinto tudo isso. E
saindo, à noite, para a Porneia da cidade, saio como na Fenícia saíam os
navegadores para a procissão da primavera, ou os alexandrinos para a noite de
Afrodita.
- Muito bonito! -
ciciou Maria de Flor.
- Está claro que este
ano organizei uma partida com quatro ou cinco atrizes e quatro ou cinco
companheiros. Não me sentia com coragem de ficar só como um trapo no vagalhão
de volúpia e de prazer da cidade. O grupo era o meu salva-vidas. No primeiro
dia, no sábado, andamos de automóvel a percorrer os bailes. Íamos
indistintamente beber champanhe aos clubs de jogo que anunciavam bailes e aos
maxixes mais ordinários. Era divertidíssimo e ao quinto clube estávamos de todo
excitados. Foi quando lembrei uma visita ao baile público do Recreio. “Nossa
Senhora! disse a primeira estrela de revistas, que ia conosco. Mas é horrível!
Gente ordinária, marinheiros à paisana, fúfias dos pedaços mais esconsos da rua
de S. Jorge, um cheiro atroz, rolos constantes...” - Que tem isso? Não vamos
juntos?
Com efeito. Íamos
juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que temer e a gente conseguia
realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se bem. Naturalmente fomos e
era uma desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparramando belbutinas
fedorentas pelo estrado da banda militar, todo o pessoal de azeiteiros das
ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas, de íncubos em
frascos d’álcool, que têm as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços
como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de
papel de arroz. Não havia nada de novo. Apenas, como o grupo parava diante dos
dançarinos, eu senti que se roçava em mim, gordinho e apetecível, um bebê de
tartalana rosa. Olhei-lhe as pernas de meia curta. Bonitas. Verifiquei os
braços, o caído das espáduas, a curva do seio. Bem agradável. Quando ao rosto
era um rostinho atrevido, com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se
ofertando. Só postiço trazia o nariz, um nariz tão bem feito, tão acertado, que
foi preciso observar para verificá-lo falso. Não tive dúvida. Passei a mão e
preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu mais e disse num suspiro: - Ai que dói!
Estão vocês a ver que eu fiquei imediatamente disposto a fugir do grupo. Mas
comigo iam cinco ou seis damas elegantes capazes de se debochar, mas de não perdoar
os excessos alheios, e ser sem linha correr assim, abandonando-as, atrás de uma
frequentadora dos bailes do Recreio. Voltamos para os automóveis e fomos cear
no clube mais chic e mais secante da cidade.
- E o bebê?
- O bebê ficou. Mas no
domingo, em plena Avenida, indo eu ao lado do chauffeur, no burburinho
colossal, senti um beliscão na perna e uma voz rouca dizer: “para pagar o de
ontem.” Olhei. Era o bebê rosa, sorrindo, com o nariz postiço, aquele nariz tão
perfeito. Ainda tive tempo de indagar: onde vais hoje?
- A toda parte! -
respondeu, perdendo-se num grupo tumultuoso.
- Estava
perseguindo-te! - comentou Maria de Flor.
Talvez fosse um
homem... - soprou desconfiado o amável Anatólio.
- Não interrompam o
Heitor! - fez o barão, estendendo a mão.
Heitor acendeu outro
gianaclis, ponta de ouro, sorriu, continuou:
- Não o vi mais nessa
noite, e segunda-feira não o vi também. Na terça desliguei-me do grupo e caí no
mar alto da depravação, só, com uma roupa leve por cima da pele e todos os maus
instintos fustigados. De resto a cidade inteira estava assim. É o momento em
que por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes, é o
instante em que as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é
dúbia e todos nós a achamos inútil, a honra uma caceteação, o bom senso uma
fadiga. Nesse momento tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes;
nesse momento há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata
naturalmente.
Eu estava trepidante,
com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas do galarim
perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche
anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil.
Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval.
- A quem dizes!... -
suspirou Maria de Flor.
- Mas eu estava sem
sorte, com a guigne, com o caiporismo dos defuntos índios. Era aproximar-me,
era ver fugir a presa projetada. Depois de uma dessas caçadas pelas avenidas e
pelas praças, embarafustei pelo S. Pedro, meti-me nas danças, rocei-me àquela
gente em geral pouco limpa, insisti aqui, ali. Nada!
- É quando se fica
mais nervoso!
- Exatamente. Fiquei
nervoso até o fim do baile, vi sair toda a gente, e saí mais desesperado. Eram
três horas da manhã. O movimento das ruas abrandara. Os outros bailes já tinham
acabado. As praças, horas antes incendiadas pelos projetores elétricos e as
cambiantes enfumadas dos fogos de bengala, caíam em sombras - sombras cúmplices
da madrugada urbana. E só, indicando a folia, a excitação da cidade, um ou
outro carro arriado levando máscaras aos beijos ou alguma fantasia tilintando
guizos pelas calçadas fofas de confete. Oh! a impressão enervante dessas
figuras irreais na semissombra das horas mortas, roçando as calçadas,
tilintando aqui, ali um som perdido de guizo! Parece qualquer coisa de
impalpável, de vago, de enorme, emergindo da treva aos pedaços... E os dominós
embuçados, as dançarinas amarfanhadas, a coleção indecisa dos máscaras de
último instante arrastando-se extenuados! Dei para andar pelo Largo do Rocio e
ia caminhando para os lados da Secretaria do Interior, quando o vi, parado, o
bebê de tarlatana rosa.
Era ele! Senti
palpitar-me o coração. Parei. – “Os bons amigos sempre se encontram”- disse. O
bebê sorriu sem dizer palavra. - Estás esperando alguém? - Fez um gesto com a
cabeça que não. Enlacei-o. - Vens comigo? - Onde? - Indagou a sua voz áspera e
rouca. - Onde quiseres! - Peguei-lhe nas mãos. Estavam úmidas mas eram bem
tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios tocaram apenas
a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco.
- Por pouco...
- Não era preciso mais
no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia com a sua voz arfante e lúbrica: -
“Aqui não!” Passei-lhe o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra.
Ela apoiava-se em mim, mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados
pareciam fruir todo o bestial desejo que os meus diziam. Nessas fases do amor
não se conversa. Não trocamos uma frase. Eu sentia a ritmia desordenada do meu
coração e o sangue em desespero. Que mulher! Que vibração! Tínhamos voltado o
jardim. Diante da entrada que fica fronteira à Rua Leopoldina, ela parou,
hesitou. Depois arrastou-me, atravessou a praça, metemo-nos pela rua, escura e
sem luz. Ao fundo, o edifício das Belas Artes era desolador e lúgubre.
Apertei-a mais. Ela aconchegou-se mais. Como os seus olhos brilhavam!
Atravessamos a Rua Luís de Camões, ficamos bem em baixo das sombras espessas do
Conservatório de Música. Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor
vagamente ruça com a treva espancada um pouco pela luz de combustões distantes.
O meu bebê gordinho e rosa parecia um esquecimento do vício naquela austeridade
da noite. - Então, vamos? Indaguei. - Para onde? - Para a tua casa. - Ah! não,
em casa não podes... - Então por aí. - Entrar, sair, despir-me. Não sou disso!
- Que queres tu, filha? É impossível ficar aqui na rua. Daqui a minutos passa a
guarda. - Que tem? - Não é possível que nos julguem aqui para bom fim, na
madrugada de cinzas. Depois, às quatro tens que tirar a máscara. - Que máscara?
- O nariz.- Ah! Sim! E sem mais dizer puxou-me. Abracei-a. Beijei-lhe os
braços, beijei-lhe o colo, beijei-lhe o pescoço. Gulosamente a sua boca se
oferecia. Em torno de nós o mundo era qualquer coisa de opaco e de indeciso.
Sorvi-lhe o lábio.
Mas o meu nariz sentiu
o contato do nariz postiço dela, um nariz com cheiro a resina, um nariz que
fazia mal. - Tira o nariz! - Ela segredou: Não! Não! Custa tanto a colocar!
Procurei não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama.
O pedaço de papelão,
porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal estar curioso, um estado
de inibição esquisito. - Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois
não te disfarça nada. - Disfarça sim! - Não! Procurei-lhe nos cabelos o cordão.
Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa parecia uma
possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca.
Entreguei-me. O nariz roçava o meu; o nariz que não era dela, o nariz de fantasia.
Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a
esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos
meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha
uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos
atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinadamente - uma caveira com
carne...
Despeguei-a, recuei
num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu tremia de horror, de nojo. O bebê de
tarlatana rosa emborcara no chão com a caveira voltada para mim, num choro que
lhe arregaçava o beiço mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os
dentes alvos. - Perdoa! Perdoa! Não me batas. A culpa não é minha! Só no
Carnaval é que eu posso gozar. Então, aproveito, ouviste? aproveito. Fosse tu
que quiseste...
Sacudi-a com fúria,
pu-la de pé num safanão que a devia ter desarticulado. Uma vontade de cuspir,
de lançar apertava-me a glote, e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele
nariz, de quebrar aqueles dentes, de matar aquele atroz reverso da Luxúria...
Mas um apito trilou. O guarda estava na esquina e olhava-nos, reparando naquela
cena da semitreva. Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo o
mundo que a beijara? Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao
largo inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa, os queixos
batendo, ardendo em febre.
Quando parei à porta
de casa para tiver, é que reparei que a minha mão direita apertava uma pasta
oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê de tartalana rosa...
Heitor de Alencar
parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria de Flor mostrava uma
contração de horror na face e o doce Anatólio parecia mal. O próprio narrador
tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor. Houve um silêncio agoniento.
Afinal o Barão Belfort ergueu-se, tocou a campainha para que o criado trouxesse
refrigerantes, e resumiu:
- Uma aventura, meus
amigos, uma bela aventura. Quem não tem do Carnaval a sua aventura? Esta é pelo
menos empolgante.
E foi sentar-se ao
piano.
(Dentro da noite,
1910)
*
Jornalista, cronista, contista e teatrólogo, mais conhecido pelo pseudônimo de
João do Rio. Membro da Academia Brasileira de Letras.
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