Literatura e ideologia
O tema que trago, hoje, à baila é dos
mais polêmicos e é daqueles que sempre que são tratados, geram controvérsias e
dividem opiniões. Foi levantado por um leitor, que não vê nada de errado em
utilizar a literatura como veículo de ideologias que preguem justiça e
liberdade dos povos. Creio que, retoricamente, todas apregoem isso. Mas na
prática... Particularmente, não gosto de misturar as coisas. Mas achar que se
pode fazer Literatura absolutamente neutra, sem nenhum ranço ideológico, me
parece imensa ingenuidade.
Na poesia, por exemplo, oponho-me a
poemas que mais pareçam panfletos de propaganda do que obras de arte. A mistura
de movimentos ideológicos com literários tende a ser mais explosiva do que nitroglicerina.
Salvo alguma exceção (que desconheço) acaba por poluir a ambos. Ou seja, a
ideologia e a Literatura.
Há, porém, um conceito, mistura dos
dois, que considero válido e justo. Refiro-me à “Negritude”. E por que penso
assim? Porque não é segredo para ninguém a forma vil e covarde com que os povos
da África foram tratados ao longo da chamada História Moderna (iniciada com a
queda de Constantinopla, em 1454).
Refiro-me a essa indecência terrível e
injustificável, que foi a escravidão, e à atitude de rapina das potências
européias, em relação ao continente negro, a tal da “colonização”, empreendida
pela França, Grã-Bretanha, Bélgica e Alemanha, a partir de 1880.
René Maran, autor de “Batouala”, é
considerado, historicamente, como o precursor do movimento “Negritude”. Mas o
termo em si, e não propriamente o conceito que nomeou, foi criado, em 1935, por
Aimé Césaire. Esse escritor africano usou-o, pela primeira vez, em um artigo
que publicou no número três da revista “L’Étudient noir” (“O Estudante Negro”).
Os criadores do Negritude tinham em
mente, pelo menos no início, a reivindicação da identidade negra e de sua
cultura perante a dos colonizadores e repressores dos povos africanos. Não
tinha, pois, conotação política.
Quem, no entanto, deu impulso à idéia,
fazendo dela mais do que mera corrente artística, notadamente literária, foi um
dos maiores poetas e intelectuais da África, presidente, por décadas, do
Senegal após a sua independência (que inclusive esteve no Brasil, onde
participou de histórica sessão da Academia Brasileira de Letras), Leopold Sedar
Senghor.
Negritude, paulatinamente,
transformou-se em ideologia política. A partir de 1947, impulsionou o movimento
maciço de libertação dos povos africanos, que resultaria na independência da
totalidade dos atuais países do continente. Essa corrente de pensamento, que
começou nas colônias francesas, espalhou-se logo pela África inteira, mas
acabou desvirtuada, enquanto corrente exlusivamente literária.
Ressalte-se, a bem da verdade, que
vários intelectuais brancos, franceses, apoiaram, entusiasticamente, o
movimento. Jean-Paul Sartre foi um deles. O criador do “existencialismo”
definiu esse conceito da seguinte forma: “Negritude é a negação da negação do
homem negro”.
Posteriormente, alguns escritores (negros
e mestiços) condenaram o movimento. Alguns, achavam-no retórico demais, rústico
e simplificador e, sobretudo, pouco prático. Outros, por seu turno, entendiam o
oposto, ou seja, que era muito radical.
O nigeriano Wole Soyinka – ganhador de
um Prêmio Nobel de Literatura – justificou suas críticas, em relação ao
Negritude, da seguinte forma: “O tigre não declara sua ‘tigritude’ Salta sobre
sua presa e a devora”.
Fora da África, o movimento teve alguma
repercussão (relativamente pequena) apenas na França e em suas (ainda) colônias
nas Antilhas e na Ásia. No Brasil, após a visita de Senghor, chegou a se
esboçar o surgimento de uma “literatura negra”. Mas não teve, nem de longe, o
impacto havido na África. E você, paciente leitor, o que acha dessa mistura de
ideologia com Literatura? E, especificamente, do Negritude?
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Sou favorável as defesas ideológicas, ainda que saiba que a pessoa que lê, costume abandonar pelo meio o que fala contra suas convicções. Raramente, ou quase nuncas, vai adiante e muda o modo de pensar pelo oposto daquilo que acreditava.
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