Gentil pátria amada
* Por
Robledo Morais
Parei o carro a uns
cem metros da grande cerca de arame. Abri a porta do passageiro e,
vagarosamente ela apeou, andando a passos lentos. Seus oitenta anos impediam-na
de andar depressa, mas o detalhe pouco se lhe dava. Queria chegar ao lugar onde
viveu sua infância como sempre chegara: a pé. Sentindo-a cansada, sugeri uma
“parada técnica” à sombra de uma esguia farinheira. Esteira colorida no chão e
nos sentamos para conversar.
Eu a observava. Tinha
no rosto a expressão de uma tarde de sol ameno: refulgente e acolhedora.
Conversamos, dentre outras, sobre coisas de sua infância. “Se eu soubesse
escrever faria um livro”, murmurou. O silêncio morno e o olhar ansioso me
fizeram levantá-la num abraço. Sorriu! Voltamos a andar, agora um pouco mais
depressa. Súbito parou. “A casa era aqui, não existe mais, vamos voltar”, e me
apontou a terra transformada em espesso canavial. A luz amarelada do sol
iluminou o seu rosto umedecido de lágrimas. Voltamos ao carro. Quando tentei
partir, me obstou: “Não ande ainda, quero contar-lhe umas coisas”. E,
sonhadora: “Recordo a minha infância, quando aqui moravam as famílias dos meus
pais e tios. Éramos uma cooperativa doméstica.
Quando cheguei à idade
escolar, trocamos o sítio pela cidade. Meu pai era agricultor e arriscava uns
cortes de cabelos. Instalou-nos numa pequena casa e, para sobreviver, tornou-se
barbeiro profissional. Minha mãe, para ajudar na manutenção do lar, costurava
calças “de homem” para um comerciante. Matriculada numa escola pública, passei
ali dias dos mais felizes de minha infância.
Nossa professora era
bonita e inteligente, e, por acréscimo, sábia e bondosa. Ensinou-nos a ler e a
raciocinar. Sim, a raciocinar! Recomendava-nos o estudo, para nos tornarmos
cultas e usufruir as alegrias do saber. Hoje percebo que a maioria das pessoas
só pensa em espertezas e vantagens. Dão as costas para a cultura e a
honestidade. É o vaudeville da malandragem! Aquela professora, embora
vivêssemos em uma vila do Interior, incentivava-nos a ler, transportando-nos
para lugares longínquos!
Os livros, sem sairmos
de casa, permitiam-nos visualizar a neve, os grandes rios e mares de gelo; as
históricas e suntuosas catedrais das metrópoles europeias; as obras de arte da
cultura greco-romana e outras fantásticas viagens de nossa juvenil imaginação.
Nós, a ouvi-la embevecidas, quando se referia à São Paulo como a elegante e
charmosa terra da garoa, de uma garoa mansa, acolhedora, que embalava os povos
do mundo que ali habitavam!
O Rio de Janeiro, ah,
o Rio das belezas naturais, que ela chamava de Princesinha do Mar, contando-nos
dos mistérios do Atlântico e do suave balançar de suas ondas! Um suspiro, e
continuou: À Pátria Amada, louvávamos com seus hinos. Na sua data máxima - da
Independência - acordávamos ansiosas para o desfile escolar em sua homenagem.
Não vejo mais isso.
Perdemos os valores
cívicos? Só se pensa em faturar; apropriar-se do dinheiro público; mentir para
o povo, enquanto a Pátria agoniza nas enchentes e vazamentos de milhões de
toneladas de lama que destruíram a fauna e a flora mineira. E o que dizer dos
desmatamentos, das invasões de terras e da odiosa espera de doentes em imundos
corredores de hospitais do SUS?! Alguém socorrerá a gentil Pátria amada?”.
Outro suspiro, agora mais profundo. Guardei um solidário silêncio e fechei a
porta do carro. Apertou-me o peito aquele momento de solidão a dois, em que
ela, desnudando sua alma, deixou escorrer sem avareza o amor que a inundava.
Benditas confidências
que me fizeram entender que o amor nunca finda, tal a profusão na alma daquela
mulher, a contagiar a minha! Ao fitá-la, já com o carro em movimento, notei em
sua face a luminosidade do amor... Desses amores que nos fazem perder a noção
do tempo!
*
Juiz de Direito aposentado
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