Despedida às travessuras
* Por
Manuel Antonio de Almeida
O Leonardo abandonara
de uma vez para sempre a casa fatal onde tinha sofrido tamanha infelicidade;
nem mesmo passara mais por aquelas alturas; de maneira que o compadre por muito
tempo não lhe pôde pôr a vista em cima.
O pequeno, enquanto se
achou novato em casa do padrinho, portou-se com toda a sisudez e gravidade;
apenas porém foi tomando mais familiaridade, começou a pôr as manguinhas de
fora. Apesar disto porém captou do padrinho maior afeição, que se foi
aumentando de dia em dia, e que em breve chegou ao extremo da amizade cega e
apaixonada. Até nas próprias travessuras do menino, as mais das vezes malignas,
achava o bom do homem muita graça; não havia para ele em todo o bairro
rapazinho mais bonito, e não se fartava de contar à vizinhança tudo o que ele
dizia e fazia; às vezes eram verdadeiras ações de menino mal-criado, que ele
achava cheio de espírito e de viveza; outras vezes eram ditos que denotavam já
muita velhacaria para aquela idade, e que ele julgava os mais ingênuos do
mundo.
Era isto natural em um
homem de uma vida como a sua; tinha já 50 e tantos anos, nunca tinha tido
afeições; passara sempre só, isolado; era verdadeiro partidário do mais
decidido celibato. Assim à primeira afeição que fora levado a contrair sua alma
expandiu-se toda inteira, e seu amor pelo pequeno subiu ao grau de rematada
cegueira. Este, aproveitando-se da imunidade em que se achava por tal motivo,
fazia tudo quanto lhe vinha à cabeça.
Umas vezes sentado na loja divertia-se em
fazer caretas aos fregueses quando estes se estavam barbeando. Uns
enfureciam-se, outros riam sem querer; do que resultava que saíam muitas vezes
com a cara cortada, com grande prazer do menino e descrédito do padrinho.
Outras vezes escondia em algum canto a mais afiada navalha do padrinho, e o
freguês levava por muito tempo com a cara cheia de sabão mordendo-se de
impaciência enquanto este a procurava; ele ria-se furtiva e malignamente. Não
parava em casa coisa alguma por muito tempo inteira; fazia andar tudo numa
poeira; pelos quintais atirava pedras aos telhados dos vizinhos; sentado à
porta da rua, entendia com quem passava e com quem estava pelas janelas, de
maneira que ninguém por ali gostava dele. O padrinho porém não se dava disto, e
continuava a querer-lhe sempre muito bem. Gastava às vezes as noites em fazer
castelos no ar a seu respeito; sonhava-lhe uma grande fortuna e uma elevada
posição, e tratava de estudar os meios que o levassem a esse fim. Eis aqui
pouco mais ou menos o fio dos seus raciocínios. Pelo ofício do pai... (pensava
ele) ganha-se, é verdade, dinheiro quando se tem jeito, porém sempre se há de
dizer: - ora, é um meirinho!... Nada... por este lado não... Pelo meu ofício...
verdade é que eu arranjei-me (há neste arranjei-me uma história que havemos de
contar), porém não o quero fazer escravo dos quatro vinténs dos fregueses...
Seria talvez bom mandá-lo ao estudo... porém para que diabo serve o estudo?
Verdade é que ele parece ter boa memória, e eu podia mais para diante mandá-lo
a Coimbra... Sim, é verdade... eu tenho aquelas patacas; estou já velho, não
tenho filhos nem outros parentes... mas também que diabo se fará ele em
Coimbra? licenciado não; é mau ofício; letrado? era bom... sim, letrado... mas
não; não, tenho zanga de quem me lida com papéis e demandas... Clérigo?... um
senhor clérigo é muito bom... é uma coisa muito séria... ganha-se muito... pode
vir um dia a ser cura. Está dito, há de ser clérigo... ora, se há de ser; hei
de ter ainda o gostinho de o ver dizer missa... de o ver pregar na Sé, e então
hei de mostrar a toda esta gentalha aqui da vizinhança que não gosta dele que
eu tinha muita razão em lhe querer bem. Ele está ainda muito pequeno, mas vou
tratar de o ir desasnando aqui mesmo em casa, e quando tiver 12 ou 14 anos há
de me entrar para a escola.
Tendo ruminado por muito tempo esta idéia, um
dia de manhã chamou o pequeno e disse-lhe:
- Menino, venha cá,
você está ficando um homem (tinha ele 9 anos); é preciso que aprenda alguma
coisa para vir um dia a ser gente; de segunda-feira em diante (estava em
quarta-feira) começarei a ensinar-lhe o bê-a-bá. Farte-se de travessuras por
este resto da semana.
O menino ouviu este
discurso com um ar meio admirado, meio desgostoso, e respondeu:
- Então eu não hei de
ir mais ao quintal, nem hei de brincar na porta?
- Aos domingos, quando
voltarmos da missa...
- Ora, eu não gosto da
missa.
O padrinho não gostou
da resposta; não era bom anúncio para quem se destinava a ser padre; mas nem
por isso perdeu as esperanças.
O menino tomou bem
sentido nestas palavras do padrinho: “Farte-se de travessuras por este resto da
semana”, e acreditou que aquilo era uma licença ampla para fazer tudo quanto de
bom e de mau lhe lembrasse durante o tempo que ainda lhe restava de folga.
Levou pois todo o dia em uma desenvoltura assustadora; o padrinho foi achá-lo
por duas ou três vezes a cavalo em cima do muro que dividia o quintal da casa
do vizinho, em grande risco de precipitar-se.
Ao anoitecer, estando
sentado à porta da loja, viu ao longe no princípio da rua um acompanhamento
alumiado pela luz de lanternas e tochas, e ouviu padres a rezarem; estremeceu
de alegria e pôs-se em pé de um salto. Era a Via-Sacra do Bom-Jesus.
Há bem pouco tempo que
existiam ainda em certas ruas desta cidade cruzes negras pregadas pelas paredes
de espaço em espaço.
Às quartas-feiras e em
outros dias da semana saía do Bom-Jesus e de outras igrejas uma espécie de
procissão composta de alguns padres conduzindo cruzes, irmãos de algumas
irmandades com lanternas, e povo em grande quantidade; os padres rezavam e o
povo acompanhava a reza. Em cada cruz parava o acompanhamento, ajoelhavam-se
todos, e oravam durante muito tempo. Este ato, que satisfazia a devoção dos
carolas, dava pasto e ocasião a quanta sorte de zombaria e de imoralidade
lembrava aos rapazes daquela época, que são os velhos de hoje, e que tanto
clamam contra o desrespeito dos moços de agora. Caminhavam eles em charola
atrás da procissão, interrompendo a cantoria com ditérios em voz alta, ora
simplesmente engraçados, ora pouco decentes; levavam longos fios de barbante,
em cuja extremidade iam penduradas grossas bolas de cera. Se ia por ali ao seu
alcance algum infeliz, a quem os anos tivessem despido a cabeça dos cabelos,
colocavam-se em distância conveniente, e escondidos por trás de um ou de outro,
arremessavam o projetil que ia bater em cheio sobre a calva do devoto; puxavam
rapidamente o barbante, e ninguém podia saber donde tinha partido o golpe.
Estas e outras cenas excitavam vozeria e gargalhadas na multidão.
Era a isto que
naqueles devotos tempos se chamava correr a Via-Sacra.
O menino, como já
dissemos, estremecera de prazer ao ver aproximar-se a procissão. Desceu
sorrateiramente a soleira, e sem ser visto pelo padrinho colocou-se unido à
parede entre as duas portas da loja, levantando-se na ponta dos pés para ver
mais a seu gosto.
Vinha aproximando-se o
acompanhamento, e o menino palpitava de prazer. Chegou mesmo defronte da porta;
teve ele então um pensamento que o fez estremecer; tornou-se a lembrar das
palavras do padrinho: “farte-se de travessuras”; espiou para dentro da loja,
viu-o entretido, deu um salto do lugar onde estava, misturou-se com a multidão,
e lá foi concorrendo com suas gargalhadas e seus gritos para aumentar a
vozeria. Era um prazer febril que ele sentia; esqueceu-se de tudo, pulou,
saltou, gritou, rezou, cantou, e só não fez daquilo o que não estava em suas
forças. Fez camaradagem com dois outros meninos do seu tamanho que também iam
no rancho, e quando deu acordo de si estava de volta com a Via-Sacra na Igreja
do Bom-Jesus.
(Memórias de um
sargento de milícias, cap. III)
*
Jornalista, cronista, romancista e crítico literário, membro da Academia
Brasileira de Letras.
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