Foto: Antigo Mercado Central de Montes Claros
Venham pra feira! É em Montes Claros!
* Por
Mara Narciso
Toninho Rebello, o
melhor prefeito de Montes Claros, tinha uma visão administrativa arrojada, mas
seus detratores dizem que não respeitava a história. Derrubou o Mercado Central
para limpar a Praça Doutor Carlos e fez outro à Rua Coronel Joaquim Costa.
Queria conter a feira dentro de um prédio. Na cidade da época as pessoas se
conheciam e a construção, ampla e limpa parecia suficiente. A fiscalização
tinha pretensão civilizatória.
Açougues de azulejo,
açougueiros de jaleco branco e lixeiras chegaram. A carne de sol brilhava nos
ganchos mostrando a vocação local. Adiante, um arsenal de chás, beberagens,
pinga, bucha vegetal, queijos, requeijão e manteiga, lojas de roupas populares,
temperos e corantes (urucum) expostos em grandes bacias, medidos com colheres
de sopa, toda sorte de bugigangas setorizadas. Noutro galpão, bancas com
legumes e frutas do sul arrumadas de forma atraente. Do outro lado, num pátio
não coberto, vendiam-se animais vivos.
No sábado, a feira era
incontida. Feirantes invadiam a rua. Os compradores chegavam a pé com cestas de
taquara, sacola de lona ou embornal de pano ou couro. Alguma coisa era
embrulhada em papel de pão ou de carne, alguns reutilizados, mas a maioria era
colocada nua dentro da sacola.
As paneleiras vendiam
seus produtos de barro. Traziam potes, bilhas, jarros e brinquedos. Boa parte
era exposta no chão, sem bancas, no máximo em cima de trapos ou sacos. As
vendedoras eram mulheres que já nasciam velhas. Em geral maltratadas,
desdentadas, descalças, com panos de saco amarrados na cabeça, roupas
remendadas e até rasgadas, nos típicos vestidos rodados caipiras de cor verde
ou rosa, muitas vezes sobre calças compridas. Algumas tinham sandálias de borracha,
geralmente gastas e com tiras rompidas e amarradas com cordão e de cores
diferentes entre si. Tiravam do chão seu sustento na forma de argila,
formatavam a mesma toada sem arte, durante gerações. Assavam seu suor nalgum
forno e na feira defendiam seus trocados. Traziam seus filhos pequenos que
ficavam dentro de caixotes ao sol ou sob finos panos. Essas trabalhadoras eram
chamadas agregadas, moravam “de favor”, os maridos trabalhavam na roça e
recebiam a feira no sábado. Quase nunca viam dinheiro.
Outras mulheres
produziam na madeira gamelas, conchas, colheres, ou faziam peneiras, vassouras,
balaios, fruteiras e cestas de taquara ou arame, numa cantilena sem fim. As
verdureiras produziam couve, coentro, cebolinha e alface. Traziam tudo na
cabeça, dentro de pesados cestos, e falavam que vinham do Pentáurea, lugar de
água limpa e de abacaxi famoso. Eram conhecidas pelo nome e costumavam ficar na
mesma área. Reservavam seus produtos para as freguesas, assim como guardavam no
chão, cobertas com panos, as cestas delas. Alguns curiosos bisbilhotavam,
cobiçando a compra alheia, mas as verdureiras, tirando a mão intrusa diziam: é
compra.
Eu era uma menina
magra que carregava uma cesta de taquara que machucava meu braço, ainda assim,
gostava de ir à feira com Milena, a minha mãe. Era uma manhã preciosa estar com
ela e vê-la usar com ciência o parco dinheiro que meu pai lhe dava.
O tempo das águas
trazia frutos do cerrado, que afiaram meu olfato, capaz de separar produtos de
um cheiro só. Têm o mesmo odor e nunca se desimpregnaram de mim: murici, pequi,
manga-ubá, panã e coquinho azedo. Só muito cedo para achar raridades como
mangaba e murici, sendo preciso ficar de olho nas beiradas, pois os coletores
ficavam desconfiados nos cantos, de olhos no chão, com o pequeno tesouro nas
mãos, querendo ir embora logo.
Homens traziam em
bruacas sobre cavalo sua produção de feijão catador, de corda, verde, e andu.
Os animais ficavam amarrados nas proximidades, sujando o mundo, enquanto eles
vendiam sem balança, medindo em “litros” de óleo de 900 ml, ou meiando um prato
fundo esmaltado, passando a mão por cima. Farinha de mandioca, goma, beiju,
farinha de milho e arroz estavam lá.
Periquitos, jandaias,
mico, preá e pássaros eram vendidos como qualquer outro produto. Pintinhos de
granja de um dia só serviam para morrer. Banana e laranja eram vendidas de
dentro de carros velhos, sendo contadas as dúzias e colocadas nas sacolas pelos
próprios produtores do inóspito sertão, onde então, chovia com regularidade.
Favos de mel eram
vendidos dentro de uma lata, e não se pensava em adulteração. Os legumes eram
pequenos, e havia mangarito, inhame, mandioca, batata doce, abóbora, quiabo,
maxixe e caxi. Vendia-se mamão verde como legume. Jenipapo, jatobá, jambo,
bacupari, pitomba, côco macaúba e buriti eram apreciados. É preciso conhecer
para comprar rapadura boa. Melancia curraleira vinha inteira, e o comprador
dava piparotes para desvendar seu interior. A cana-de-açúcar era dita cana
caiana.
A escolha do frango
caipira em pé era para entendidos. Não se pesava e o tamanho era estimado na
hora. O bicho peado com palha de milho era colocado de cabeça para baixo,
levantado e abaixado, avaliando-se a grossura das coxas. Ovos de galinha
caipira eram escolhidos abrindo-se uma brechinha na palha para olhar a casca,
contando-se as dúzias. Havia quem sacudia o produto e o olhava contra o sol.
Meninos magrelos
recebiam algum trocado para levar as compras. Sem café, mal se aguentavam de
pé. A feira de sábado, um dia já foi assim.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Tempos muito, muito, mas muito melhores! Abraços, Mara.
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