quarta-feira, 9 de março de 2016

Foto: Antigo Mercado Central de Montes Claros

Venham pra feira! É em Montes Claros!


* Por Mara Narciso


Toninho Rebello, o melhor prefeito de Montes Claros, tinha uma visão administrativa arrojada, mas seus detratores dizem que não respeitava a história. Derrubou o Mercado Central para limpar a Praça Doutor Carlos e fez outro à Rua Coronel Joaquim Costa. Queria conter a feira dentro de um prédio. Na cidade da época as pessoas se conheciam e a construção, ampla e limpa parecia suficiente. A fiscalização tinha pretensão civilizatória.

Açougues de azulejo, açougueiros de jaleco branco e lixeiras chegaram. A carne de sol brilhava nos ganchos mostrando a vocação local. Adiante, um arsenal de chás, beberagens, pinga, bucha vegetal, queijos, requeijão e manteiga, lojas de roupas populares, temperos e corantes (urucum) expostos em grandes bacias, medidos com colheres de sopa, toda sorte de bugigangas setorizadas. Noutro galpão, bancas com legumes e frutas do sul arrumadas de forma atraente. Do outro lado, num pátio não coberto, vendiam-se animais vivos.

No sábado, a feira era incontida. Feirantes invadiam a rua. Os compradores chegavam a pé com cestas de taquara, sacola de lona ou embornal de pano ou couro. Alguma coisa era embrulhada em papel de pão ou de carne, alguns reutilizados, mas a maioria era colocada nua dentro da sacola.

As paneleiras vendiam seus produtos de barro. Traziam potes, bilhas, jarros e brinquedos. Boa parte era exposta no chão, sem bancas, no máximo em cima de trapos ou sacos. As vendedoras eram mulheres que já nasciam velhas. Em geral maltratadas, desdentadas, descalças, com panos de saco amarrados na cabeça, roupas remendadas e até rasgadas, nos típicos vestidos rodados caipiras de cor verde ou rosa, muitas vezes sobre calças compridas. Algumas tinham sandálias de borracha, geralmente gastas e com tiras rompidas e amarradas com cordão e de cores diferentes entre si. Tiravam do chão seu sustento na forma de argila, formatavam a mesma toada sem arte, durante gerações. Assavam seu suor nalgum forno e na feira defendiam seus trocados. Traziam seus filhos pequenos que ficavam dentro de caixotes ao sol ou sob finos panos. Essas trabalhadoras eram chamadas agregadas, moravam “de favor”, os maridos trabalhavam na roça e recebiam a feira no sábado. Quase nunca viam dinheiro.

Outras mulheres produziam na madeira gamelas, conchas, colheres, ou faziam peneiras, vassouras, balaios, fruteiras e cestas de taquara ou arame, numa cantilena sem fim. As verdureiras produziam couve, coentro, cebolinha e alface. Traziam tudo na cabeça, dentro de pesados cestos, e falavam que vinham do Pentáurea, lugar de água limpa e de abacaxi famoso. Eram conhecidas pelo nome e costumavam ficar na mesma área. Reservavam seus produtos para as freguesas, assim como guardavam no chão, cobertas com panos, as cestas delas. Alguns curiosos bisbilhotavam, cobiçando a compra alheia, mas as verdureiras, tirando a mão intrusa diziam: é compra.

Eu era uma menina magra que carregava uma cesta de taquara que machucava meu braço, ainda assim, gostava de ir à feira com Milena, a minha mãe. Era uma manhã preciosa estar com ela e vê-la usar com ciência o parco dinheiro que meu pai lhe dava.

O tempo das águas trazia frutos do cerrado, que afiaram meu olfato, capaz de separar produtos de um cheiro só. Têm o mesmo odor e nunca se desimpregnaram de mim: murici, pequi, manga-ubá, panã e coquinho azedo. Só muito cedo para achar raridades como mangaba e murici, sendo preciso ficar de olho nas beiradas, pois os coletores ficavam desconfiados nos cantos, de olhos no chão, com o pequeno tesouro nas mãos, querendo ir embora logo.

Homens traziam em bruacas sobre cavalo sua produção de feijão catador, de corda, verde, e andu. Os animais ficavam amarrados nas proximidades, sujando o mundo, enquanto eles vendiam sem balança, medindo em “litros” de óleo de 900 ml, ou meiando um prato fundo esmaltado, passando a mão por cima. Farinha de mandioca, goma, beiju, farinha de milho e arroz estavam lá.

Periquitos, jandaias, mico, preá e pássaros eram vendidos como qualquer outro produto. Pintinhos de granja de um dia só serviam para morrer. Banana e laranja eram vendidas de dentro de carros velhos, sendo contadas as dúzias e colocadas nas sacolas pelos próprios produtores do inóspito sertão, onde então, chovia com regularidade.

Favos de mel eram vendidos dentro de uma lata, e não se pensava em adulteração. Os legumes eram pequenos, e havia mangarito, inhame, mandioca, batata doce, abóbora, quiabo, maxixe e caxi. Vendia-se mamão verde como legume. Jenipapo, jatobá, jambo, bacupari, pitomba, côco macaúba e buriti eram apreciados. É preciso conhecer para comprar rapadura boa. Melancia curraleira vinha inteira, e o comprador dava piparotes para desvendar seu interior. A cana-de-açúcar era dita cana caiana.

A escolha do frango caipira em pé era para entendidos. Não se pesava e o tamanho era estimado na hora. O bicho peado com palha de milho era colocado de cabeça para baixo, levantado e abaixado, avaliando-se a grossura das coxas. Ovos de galinha caipira eram escolhidos abrindo-se uma brechinha na palha para olhar a casca, contando-se as dúzias. Havia quem sacudia o produto e o olhava contra o sol.

Meninos magrelos recebiam algum trocado para levar as compras. Sem café, mal se aguentavam de pé. A feira de sábado, um dia já foi assim.

*Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”   




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