Epidemia de peste extinta por um grande
incêndio
A Inglaterra – como ademais praticamente todas as regiões do
mundo e, especialmente da Europa – foi cenário de inúmeras epidemias. E não
somente de peste bubônica, mas também do cólera, varíola, tifo etc.etc.etc.,
todas com absurda quantidade de mortos no seu rastro. As condições sanitárias
no país, incluindo Londres, eram péssimas. Não havia qualquer preocupação com
medidas de higiene, nem mesmo as mais primárias, hoje até mesmo instintivas, o
que favorecia o surgimento de vários agentes patogênicos, tanto vírus quanto
bactérias. Por exemplo, esgoto corria solto nas ruas das principais cidades
(incluindo a capital), praticamente todas sem calçamento, que se transformavam em
imensos lodaçais em épocas de chuva – que ali eram (e ainda são) freqüentes.
Lixo acumulava-se por toda a parte, propiciando grande população de pragas,
sobretudo de ratos, baratas, pulgas e percevejos, entre tantas outras. A
proporção de roedores, por exemplo, estimada por cronistas da época, seria de
cinco para cada habitante da cidade (e desconfio que essa cifra era super,
hiper, mega subestimada).
Somado a tudo isso, a Medicina era tão tosca que mal merecia
essa designação. Era mais uma prática empírica, na base de tentativa e erro,
que propiciava, ademais, a existência de uma legião de charlatães. Até meados
do século XIX, desconhecia-se, até mesmo, a simples existência de vírus e bactérias,
causadores das diversas doenças (epidêmicas ou não). Seria de se estranhar, pois, se não ocorressem
tantas, tão freqüentes e catastróficas epidemias com estas condições. O
ambiente era para lá de propício para isso. Esta era, claro, a realidade não
somente da Inglaterra, mas praticamente do mundo todo. Nem é preciso ressaltar
que nos grotões miseráveis da Europa, Ásia, África e das Américas as coisas
eram muito, muitíssimo piores. Mas tratemos, pelo menos por enquanto, de uma epidemia
específica que devastou a população de Londres. Não me refiro à pandemia de 1347,
que por muito pouco não transformou a Europa (pelo menos sua maior parte) em um
“continente fantasma”. A epidemia que trago à baila foi a dos anos de 1665 e
1666 que, por paradoxal que pareça, foi contida e debelada não por eficazes
medidas profiláticas (longe disso), mas por outra catástrofe de dimensões
épicas: um monstruoso incêndio, de quatro dias de duração, que transformou
Londres num inferno.
A epidemia, sozinha, causou a morte de cerca de 75 mil
pessoas (e tenho sérias dúvidas sobre estimativas desse tipo, que raramente são
minimamente exatas), de acordo com relatos de escritores da época. A peste
estava incontrolável, fazendo, diariamente, dezenas, centenas, milhares de
vítimas fatais. Mas eis que, em setembro de 1666, outra tragédia, a do fogo,
viria se somar à mortal doença. Durante quatro desesperadores dias, as chamas
devoraram, num piscar de olhos, e reduziram a cinzas mais de treze mil casas,
oitenta e sete igrejas e deixaram um número estimado de oitenta mil londrinos desabrigados.
E o desastre não foi causado por nenhum piromaníaco maluco, com complexo de
Nero. O incêndio, que começou em uma padaria, foi absolutamente acidental,
conforme apuraram as autoridades.
Embora o fogo tenha matado até mais pessoas do que a peste,
acabou evitando, por estranho que pareça, uma catástrofe potencialmente muito
maior. Destruiu vários bairros insalubres, com longo histórico de servirem de
foco para diversas epidemias anteriores (inclusive esta, de 1665). Tanto isso é
verdade que depois do incêndio, a peste bubônica cessou por completo, como que
num passe de mágica. Centenas de milhares de ratos foram, também,
providencialmente imolados deixando de contaminar, dessa forma, uma incontável
quantidade de pessoas. Dois londrinos, de perfis completamente diferentes,
legaram-nos relatos diferentes sobre a epidemia de 1665: Samuel Pepys e Daniel
Defoe.
O primeiro foi um funcionário público que nunca pensou em
ser escritor. Já o segundo, tornou-se expoente da Literatura inglesa, com
livros que ainda hoje vendem aos milhões, como “A vida amorosa de Moll Flanders”,
“A journal of the plague year” e, sobretudo, “Robinson Crusoe”. Todavia, o
relato que merece credibilidade é, sem dúvida, o de Pepys e por diversas
razões. Cito, apenas, duas delas. A primeira é que testemunhou tanto a
epidemia, quanto o grande incêndio de Londres. A segunda, que registrou a
evolução das catástrofes dia a dia, em um diário que deu o que fazer aos
pesquisadores para decifrá-lo, já que foi escrito taquigraficamente. Estava
claro que nem lhe passava pela cabeça que esses registros fossem transformados
em um livro. Mas foram. Isso, porém, exigiu um trabalho danado. Foram
necessários dois séculos completos para que aquilo que esse homem escreveu
fosse transcrito para a linguagem comum. Seu diário, transformado em livro, só
teve versão definitiva em 1970, ano em que foi, finalmente, publicado.
Tratarei, oportunamente, desses registros, feitos por nove anos e que só foram
interrompidos porque Pepys foi acometido de uma grave doença nos olhos, que o
deixou praticamente cego.
Já o texto de Daniel Defoe não merece tanta credibilidade e
por um motivo muito simples. Embora tenha sido, reconhecidamente, ótimo escritor
e competente jornalista, tinha, somente, cinco anos de idade quando a epidemia
ocorreu e seis quando se deu o grande incêndio de Londres. Tudo o que cita, portanto,
é, digamos, de “segunda mão”, conseqüência de pesquisas, e não de vivência.
São, todavia, apesar das restrições a Defoe, textos que merecem comentários
detalhados e cuidadosos, por nos revelarem como era a Londres por ocasião
dessas duas catástrofes, o que me proponho a fazer na sequência.
Boa leitura.
O Editor.
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