Do estado de direito ao da direita
* Por
Frei Betto
O Brasil passa por
intensa turbulência. Assemelha-se a uma nau sem rumo. A teimosia de Eduardo
Cunha, que não encontra seu Tirésias capaz de lhe indicar o caminho do bom
senso, paralisa o Congresso. Insiste em permanecer no cargo, mesmo colocado no
banco dos réus por dupla instância, o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados
e o Supremo Tribunal Federal (por unanimidade dos juízes).
O Executivo assiste ao
esgarçamento de sua base aliada e ao fracasso de sua política econômica. Dilma,
cercada de pretendentes ao cargo, lembra Penélope à espera da volta de Ulisses
em 2018...
O Judiciário ocupa o
proscênio da República. O juiz Sérgio Moro abusa de sua autoridade ao coagir
depoentes, e ministros do STF dão entrevistas antecipando suas posturas em
prováveis futuras decisões. Sou de opinião de que ministro do STF deveria, fora
da corte, fazer voto de silêncio.
Os ânimos tendem a se
acirrar. A oposição quer a saída de Dilma. Para colocar quem? Michel Temer?
Eduardo Cunha, o terceiro na linha sucessória, caso a chapa Dilma-Temer sofra
impeachment?
Temo que o Brasil
passe do Estado de Direito para o Estado da Direita. Como ocorreu na Alemanha
de Hitler, na Itália de Berlusconi, e ameaça se repetir se Trump for eleito nos
EUA. Neste país, os empregos na indústria caíram de 19,3 milhões em 1979 para
12,3 milhões em 2015, enquanto a população cresceu de 225 milhões para 321
milhões. Busca-se, agora, um "messias".
O PT teve muitos
acertos, mas também cometeu muitos erros em 12 anos de governo. Não promoveu
nenhuma reforma estrutural, nem politizou a nação. E suas promíscuas alianças
políticas o levaram a enredar-se no mensalão e no petrolão. Teima, no entanto,
em não fazer autocrítica, como lamentou Olívio Dutra em recente entrevista a
Roberto D'Ávila, e se recusa a apresentar um projeto consistente para o Brasil.
Quando um casal perde
a perspectiva de um projeto comum, a dois, a relação azeda. E se inicia a troca
de cobranças e acusações. O racional cede lugar ao emocional.
O mesmo acontece
quando uma nação carece de visão histórica e acredita que o futuro melhor
depende de salvadores da pátria, e não de projetos políticos. Já vimos este
"filme" no Brasil, intitulado "O caçador de marajás".
Se Lula, como jararaca
acuada, decidiu dar o bote e antecipar sua campanha eleitoral de 2018, basta se
dar conta de que é o fundador e presidente de honra do partido que governa o
Brasil.
Dilma foi eleita para
governar segundo o programa do PT. Antes que o Brasil afunde, convém tirar esse
programa da gaveta (aquele que se propagou na campanha eleitoral de 2014 e
levou Dilma à vitória), evitar o estelionato eleitoral e a presidente mostrar a
que veio nesses próximos três anos que lhe cabe governar o Brasil.
*
Escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol
dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial
da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de 60 livros, editados
no Brasil e no Exterior, entre os quais "Batismo de Sangue", e
"A Mosca Azul".
Dilma Vana Rousseff, a primeira mulher no Brasil, a ser eleita e reeleita presidente da República. Deveria ter ficado atenta à trajetória dos políticos, porque como já disse nas crônicas anteriores que suas alianças comprometeram, e muito, o futuro em prol do social.
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