Devaneios de uma roqueira 19
* Por
Fernando Yanmar Narciso
CAPÍTULO 9
Barbie, Barbie...
Largando uma tonelada nos comments do meu blog de novo, huh? Às vezes ela se
cansa de falar só comigo e dana de escrever monólogos no meu blog. E como
‘ocêis’ tão carecas de saber, aqui na área quem monologa sou eu! Nem sei como
ela conseguiu acesso à net se o celular dela continua detido lá no Ceasa but
anyway...
Quem acha meus
escritos exagerados precisava conhecer os traumas literários de minha prima.
Dramática que só ela, podia até arrumar um empregão de novelista lá na
Venezuela. (Risos) Como Barbie explicou lá no box de comentários, ela e tia
Flor combinam tão bem quanto volante e vodca. ‘Num’ é só a cópia física entre
as duas que impressiona à primeira vista, mas ‘tumém’ a compulsão por implicar
com tudo.
Em dez minutos de lero
ela ‘teceu críticas construtivas’ à minha bandana de estimação, ao monstro em
minhas costas, aos brincos desbotados, à minha maquiagem que ‘num’ consegue
disfarçar as sardas, à nossa magreza, à minha calça que ‘parece que foi soldada
às suas coxas’, aos tênis All Star velhos e ao broche de girassol que Barbie
usa no topo do chapéu- O que, apesar de ser o penduricalho favorito de minha
prima e de ela o ter desde menina, ‘num’ deixa de ser um fuckin’ girassol
saindo pelo topo da cabeça dela!
É impossível prever o
que pode acontecer quando Bárbara visita a casa dela, mas o mesmo ‘num’ pode
ser dito do que acontece no fim das visitas. Então o que me resta a fazer
nesses casos é me manter na minha, respirar fundo e recitar em minha cabeça a
letra de Tourette’s do Nirvana. I dunno why, mas aquela gritaria sem sentido de
meu Kurt de algum jeito sempre me deixa em alfa...
Nem me lembrava há
quantas semanas ‘num’ via um prato de comida de verdade na minha frente. Viver
da dieta de café, abacate, pão na chapa, álcool e comprimidos mil é para
poucos. Era só arroz, papa de milho e pudim de carne, mas era a última coca
gelada do deserto pra nós duas. Mandei a educação fazer companhia pra Kurt Cobain
lá no inferno e me esbaldei!
- Credo, Lex! Pelo
menos tira o cotovelo de dentro do prato!
- Fica na sua, Barbie!
Vou é estocar pro inverno!
Devo ter mesmo
exagerado um tiquinho na lambança, tia Flor até veio me dar na nuca com o pano
de prato...
- Ó os modos, Alexia!
Aprendeu nada morando com a gente, não?
- Foi mal, tia...
- E ‘ocê tumém’,
Bárbara! Já é uma afronta comer de chapéu, e ‘ocê num’ pára de tremer o garfo
em cima do prato, que agonia!
Ela murmurou pelas
narinas alguma coisa impossível de entender. Depois do almoço fizemos uma
pequena Jam Session pra tia Flor com os violõezinhos em que a gente aprendeu a
tocar. A gente ‘panha’ eles toda vez que viemos aqui e me impressiona que tia
ainda os tenha guardados. Até as cordas ela troca de vez em quando. E também me
espanta que ela nunca tenha limpado as gomas de chiclete mascado que eu prendia
atrás do meu, do jeito que mãe e filha são tão neat freaks...
- Eu sou, eu sou, eu
sou/Eu sou amor da cabeça aos pés! Eu sou, eu sou, eu sou/Eu sou amor da cabeça
aos pés!
- Pode descansar em
paz, Barbie, porque nem Gal Costa canta essa música ‘mió’que ‘ocê’!
- Ah, ‘num’ exagera,
prima...
- Mas eu criei duas
músicas de primeira grandeza! Quase chorei!
- É, tia, ‘nóis’ dá
nossos pulinhos... Por onde anda a Clarissa?
- Ela vive na capital
desde o começo do ano, no colégio marista, esqueceu? Tem ralado feito uma
condenada pra fazer parte da equipe de ginástica do Estado.
- Vi as fotos e as
medalhas dela na estante de troféus. Ela tá virando um mulherão, hem? Aposto
que as colegas têm até medo dela!
- E pai?- Bárbara
interveio, aposto que só pra parar de ouvir sobre a irmãzinha...- Cadê ele?
- Seu pai é... Seu
pai, né? Depois que aposentou, faz dez ano que ‘num’ vê a cor do sol. Fica o
tempo todo trancado no quarto com o ‘radim’ de pilha, come só mamão e pinga,
‘num’ deixa ninguém entrar... E como anda o posto?
- Nem me lembre, mãe.
Detesto aquele lugar do fundo da minha alma!- Barbie meteu a cabeça entre os
ombros e começou a chorar furiosamente- Detesto, detesto, detesto!! Faz meses
que ninguém abastece, só aparece mendigo e drogado por lá e o prédio tá caindo
em cima da gente. Hoje de manhã o Ulysses fez o favor de arrancar a pia do
banheiro pela vigésima vez.
- Ulysses? Continua
transando com aquele vigarista, Alexia?
- Kurt Cobain! Claro
que não, né, tia? ‘Nóis’ é só amigo, mas ele continua azucrinando a gente todo
dia.
- Fez muito bem em
passar a rasteira nele! Aquilo ‘num’ vale um tostão furado, sô!
- Vem falar isso pra
mim?
- Bom, mãe. Agora o
assunto de que eu vim tratar com a senhora. O posto tá tão miserável que hoje,
quando eu fui encomendar a feira pra ele no Ceasa, só tinha 100 na carteira pra
uma conta de 600. Paguei um mico federal na frente de todo mundo e quase soquei
a cara do fornecedor...
- Como assim ‘quase’?
- Ela tem tentado se
segurar...
- Opa! Quer dizer que
minha filha caipirona que vive dando cascudo em tudo que é marmanjo tá tentando
virar uma pessoa civilizada, sô?
- ‘Num’ é fácil, mãe.
Eu saí de lá quase vomitando os pulmão. Tive de deixar lá a bolsa com tudo
dentro como garantia de pagamento. De forma que, eu vim ver se a senhora tem
como me emprestar algum...
- Eu, minha filha?
Olha pra mim, olha pra nossa casa! A gente já mora nesse mesmo prédio há trinta
anos! ‘Nóis’ nunca conseguiu juntar o bastante pra ir embora daqui, ‘ocê’ sabe.
Ainda ‘vivemo’ da aposentadoria de seu pai. Sua irmã ainda dorme no berço que
era seu!
- É, pra emprestar pra
filha de verdade ‘num’ tem, mas pra tirar vai saber daonde e mandar a caçula
adotada pra capital, nunca falta um tostão...
Já vi de tudo na vida,
mas o tom como Barbie rosnou as palavras ‘filha’, ‘adotada’ e ‘nunca’ pode
causar incidentes internacionais! ‘Mió’ eu já ir me atocaiando e... Mayday,
every day, my day/Could've had a heart attack, my heart/We don't know anything,
my heart/We all want something fair, my heart…**
- BÁRBARA YRACEMA
MOURA BERNARDES! MAIS RESPEITO COM SUA MÃE!
- É... Eu devo ter
sido uma bruta decepção pra senhora, mesmo... Como a cria do seu sangue não
conseguia pinotar sem cair, precisou recorrer ao sangue dos outros pra realizar
seu sonho frustrado de infância, né?
- Não me faz buscar lá
dentro o espera-marido, malcriada!
- Que foi? Não
consegue aceitar a verdade, mãe? Você me largou, sim senhora!- Barbie veio de
indicador em riste pro nariz da própria mãe, pronta pra guerra- Largou e foi
caçar aquela pivetinha pra ensinar ela a ser tudo que eu quase morri tentando
fazer só pra te ver sorrindo!
- Baaaaaaarbie,
controla a boca, prima!
Agora danou tudo! Tia
Flor puxou a filha pela gola da túnica e olhou no meio dos olhos dela com o
punho erguido e fogo sendo projetado pelas pupilas. Nada como o bom e velho
diálogo...
Alexia, sua não tão
confiável narradora.
*
Escritor e designer gráfico. Contatos:
HTTP://www.facebook.com/fernandoyanmar.narciso
cyberyanmar@gmail.com
Conheçam
meu livro! http://www.facebook.com/umdiacomooutroqualquer
**Letra
de Tourette’s do Nirvana
Precisam-se ensinar boas maneiras a essas meninas.
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