Circo Dois Irmãos
* Por
Marcelo Sguassábia
É logo pelo início da
manhã, quando o sol se espreguiça sobre o baú de retratos, que dá pra ver o que
há de pó e o que há de tempo acumulados sobre ele.
Abro sem grande
vontade, com a expectativa de quem sabe há muito o que vai encontrar. Range a
dobradiça e salta a foto preto e branco 6x6, como um palhaço de mola numa caixa
de surpresas.
Daquela foto eu não
lembrava mesmo. Soco na cara, chute na ideia, salto mortal no trapézio de
outras, muitas, ternas eras. Eu e meu irmão em frente a um circo, sei lá
quando, sei lá onde nem por quê. Circo e nada para mim desde sempre é a mesma
coisa. Podem todos eles pegar fogo que não hão de derreter a frieza que me
causam.
Mas, senhoras e
senhores, se o retrato veio à tona que comece o espetáculo. O inevitável número
dos panos coloridos, amarrados uns aos outros, que o mágico vai tirando das
entranhas. Quanto mais tira mais falta tirar. Tento gostar da lembrança,
tratá-la sem rancor ou hostilidade. Pra facilitar as coisas coloco no último
volume Being for the benefit of Mr. Kite, especiaria circense do Sargento
Pimenta, o quarentão e ainda contundente monumento dos Fab Four.
Não sei se contaminado
pela lisergia do disco, fecho os olhos e trago à vida aquele elenco de
mambembes esquecidos. Desfilam um a um à minha frente, se apresentando em
respeitosa reverência. E cada artista que passa é uma metáfora do mundo de
verdade além da lona. Do faquir ao engolidor de fogo, por um momento a trupe
inteira faz sentido e tem função, enquanto Gonzales, o mágico, continua a
expelir trapos pela boca. Em cada pano se estampa um instantâneo vivido,
comicamente exposto num palco de segunda por um ilusionista de terceira.
Então vejo que o
homem-bala, a exemplo do Gonzales, também tem cartas na manga. Que a faca
atirada na mulher tem dois gumes, nenhum deles afiados. Que a dança dos
cachorros e a graça estudada dos elefantes põem mais medo nas crianças do que a
fúria do leões.
A mão é mais rápida
que o olho: na tentativa de desvendar o truque, me iludo mais uma vez. E girem os
pratos, rufem os tambores, andem pelo arame sem rede de proteção. É assim que
se acende a emoção da plateia. Mais um pouco e entram as coristas de coxas
flácidas e seu can-can mal ensaiado, na sequência os cavalos, o urso de
sombrinha e os gêmeos malabaristas.
Respeitável público,
lá vêm eles - Pirulito e Paçoquinha, com tortas nas fuças fazendo os pirralhos
rolarem de rir. Atrás dos clowns, um macaco de óculos escuros e camiseta
listada, como os macacos todos de todos os circos.
Na arquibancada de tábuas
cabia a cidade toda. Humanos bestas, humanos macacos, humanos peruas, humanos
cobras. Mas principalmente humanos ratos. Uma extensa fauna deles.
Caro leitor, peça de
volta o dinheiro da entrada. A lona está furada e um vento dos diabos açoita o
picadeiro. O redemoinho na serragem certamente há de cegá-lo, e o espetáculo,
convenhamos, ficou muito, muito aquém do que o cartaz anunciava.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Não seja cruel, caro autor. O circo é vida, além de ser morte. Um pouco de cada e mais do que o próprio espetáculo, suas palavras rendem risos.
ResponderExcluir"Uma pirueta
Duas piruetas
Bravo, bravo
Superpiruetas
Ultrapiruetas
Bravo, bravo
Salta sobre
A arquibancada
E tomba de nariz
Que a moçada
Vai pedir bis" (Chico Buarque)
Não seja cruel, caro autor. O circo é vida, além de ser morte. Um pouco de cada e mais do que o próprio espetáculo, suas palavras rendem risos.
ResponderExcluir"Uma pirueta
Duas piruetas
Bravo, bravo
Superpiruetas
Ultrapiruetas
Bravo, bravo
Salta sobre
A arquibancada
E tomba de nariz
Que a moçada
Vai pedir bis" (Chico Buarque)