Ciência e
consciência
* Por Pedro J. Bondaczuk
A consciência é o conhecimento objetivo de tudo o que nos
cerca e das informações que recebemos de várias fontes, internas ou externas.
Ou seja, é o "saber que sabemos que sabemos". Parece estranho dizer
dessa forma, mas é isso mesmo. Há sensações, reflexões, emoções que integram o
nosso patrimônio cultural, mas que ficam escondidas em um dos substratos da
nossa mente, no chamado subconsciente.
Subitamente, por alguma razão que desconhecemos, emerge,
aflora, brota ao consciente, em geral nos momentos de maior necessidade. Por
isso é que se diz, e com razão, que o homem ignora seu verdadeiro potencial.
Outros conhecimentos – estes mais impressões dos cinco sentidos – também fazem
parte do nosso acervo mental, embora permaneçam encerrados num patamar abaixo ainda
do da subconsciência. Trata-se do inconsciente. Em outras palavras, é "não
saber que sabemos".
Nossos sentidos são hábeis "repórteres". Captam, o
tempo todo (mesmo quando estamos dormindo), um volume imenso de informações.
Estas são armazenadas no cérebro e podem ou não ser utilizadas, de acordo com
as circunstâncias e necessidades. Algumas são básicas, indispensáveis à
sobrevivência, e são usadas quase que instintivamente. Outras, são
sofisticadas, sutis, bem elaboradas, profundas e nos tornam artistas, filósofos
ou cientistas.
Há os que sabem usar adequadamente esse
"computador" fantástico, com que a natureza nos dotou para que, mesmo
sendo um dos animais mamíferos mais frágeis, possam preponderar sobre a
natureza. Outros deixam que ele mofe, embolore, crie pó.
Muitas dessas informações que captamos permanecem por anos
no subconsciente, até que aflorem, subitamente, sem aviso prévio, à
consciência. As sensações e emoções, por seu turno, ficam
"arquivadas" no inconsciente e cobram o seu preço, quando são ruins,
podendo deflagrar doenças (físicas ou mentais) muitas vezes incuráveis em nosso
organismo, quando não letais.
O filósofo norte-americano Will Durant comentou, em um de
seus livros: "Considere-se a consciência. Que misteriosa faculdade é esta
que nos faz cientes do que estamos fazendo, ou do que fizemos, ou do que
pretendemos fazer? Que percebe o conflito das nossas próprias idéias e por meio
de umas critica outras? Que imagina possíveis reações e prevê resultados
prováveis? Que, depois de pacientemente analisada uma situação, a atende com os
recursos do pensamento e do desejo coordenados num sentido criador?".
É comum dizer-se de pessoas maldosas, que utilizam todo o
seu tempo para lesar ou aborrecer outras, ou para agredir os mais fracos, ou para
burlar as leis e as normas morais e que não se arrependem (pelo menos
externamente) dos seus atos, que elas "não têm consciência".
Não é verdade! Possuir, certamente, possuem. O que não fazem
é atender aos seus ditames. Por pior que seja, rufião, assassino, ladrão, ou
tenha o defeito que tiver, esse indivíduo desajustado sabe o mal que está praticando, embora tente se justificar diante
de si e dos outros.
Quando tais pessoas são punidas, o que acontece com grande
freqüência, afirmam que foram injustiçadas. Culpam os pais, as más companhias,
a sociedade etc., por sua estupidez. Mas no íntimo, no fundo da sua mente,
sabem que são sociopatas, quando não psicopatas.
O desajustado está consciente do seu desajuste. O que não
tem é vontade, ou competência, ou ambos para se ajustar. É um indivíduo que não
cultivou a pequena consciência que tem e esta se atrofiou.
O artista, em especial o poeta, desenvolve com anos de
exercício a aptidão de explorar sutilmente o subconsciente à cata de emoções
que lhe sirvam de matéria-prima para maravilhosas obras de arte. Sons, imagens,
odores, sensações agradáveis ditadas pelos cinco sentidos, são transformados
por esses criadores (que valorizam e dão nobreza à vida humana) em melodias,
telas, esculturas, palavras que formam metáforas bem ajustadas e harmoniosas.
Com o talento de que são dotados, nos transmitem suas
emoções, às quais agregamos as nossas, ditadas por nossa própria experiência
pessoal. Percebam o sentimento que há neste poema "Invictus", de
William Ernest Henley. Sintam-no, pois a poesia é feita para sentir e não
simplesmente para analisar intelectualmente:
"Do fundo da noite que me envolve,
negra como o inferno de um pólo ao
outro,
eu agradeço aos deuses, não importa
quais,
pela minha alma inconquistável.
Dominado pelas circunstâncias,
não me rebelei nem me insurgi.
Sob os golpes do destino
minha cabeça está ensangüentada, mas
não pendida.
Além deste vale de cóleras e lágrimas
cresce de forma nítida o horror das
sombras,
e, no entanto, a ameaça dos anos,
agora e sempre, me encontro sem temor.
Não importa que estreito seja o portão,
como cheio de castigos e pergaminho,
eu sou o dono do meu destino:
Eu sou o comandante da minha
alma".
Todos somos, em princípio, senhores da nossa trajetória pelo
mundo. Ocorre que muitos abrem mão dessa prerrogativa, por não saberem fazer
uso da consciência de que são dotados. Permitem que ela se atrofie, se
esclerose, beire a necrose. São guiados, não guiam. São conduzidos, não
conduzem. São influenciados, não influenciam. De tanto fazer concessões, abrem
mão da vida, em seu sentido mais elevado: o da dignidade.
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
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