Ronald Reagan and me
* Por Silvio Lancellotti
Em 1972, o governo dos Estados Unidos
me concedeu uma bolsa de estudos para a Universidade de Stanford, uma das
melhores do país. Eu podia montar o meu próprio currículo de aulas, desde que
cumprisse um certo número de créditos e aparecesse, nas tardes de quarta-feira,
num seminário sobre a Crise de Energia do começo daquela década. Tive tempo
para tocar flauta e para jogar tênis com os professores, por exemplo, do futuro
campeão John McEnroe. Vivi, lá em Stanford, meses sensacionais, inesquecíveis.
Os organizadores do meu curso,
inclusive, constantemente promoviam viagens a lugares importantes da região: o
Feather River, onde se descobriu o ouro, na Califórnia, em 1849; o Yosemite
Park; as florestas de sequóias gigantescas; o sítio dos geysers; os poços de
petróleo no litoral; até mesmo Sacramento, a capital oficial da Califórnia.
Então, com um grupo de colegas de várias nações, participei de uma entrevista
coletiva com Ronald Reagan, ex-ator e governador do Estado, já um possível
futuro candidato ao cargo de presidente dos EUA. Reagan simpatizou comigo
porque, acidentalmente, eu era o único dos presentes a carregar, além do
indefectível bloquinho de notas, uma máquina fotográfica. Graças à potência de
uma das minhas lentes, percebi que, bem ao estilão de Hollywood, o governador
cobria a pele do seu rosto com uma camadaça pesadíssima de maquilagem. Daí,
quando chegou a minha vez de falar, audaciosamente, eu lhe perguntei qual a
razão de tanto pancake. Reagan fechou a cara e não respondeu. De todo modo, ao
final da entrevista, no momento em que todos saímos à praça à frente do
palácio, ele me puxou pelo braço e, com um sorriso farto, me xingou de
impertinente e me indagou: “E você, por que você veste essa horrorosa calça
amarela?”
Acusei o golpe. Mas, acabei por soltar
uma gargalhada e ainda me permiti a chance de mais uma questão: “E o senhor não
tem medo de sair à rua, assim, sem proteção, sem segurança?” Reagan me deu um
tapinha nas costas e observou: “Quem quer matar, mata, tenha o seu alvo o
máximo de proteção. Basta que seja um fanático, ou um suicida”. Reagan
permaneceu como governador até 1974, virou presidente em 1980 e sofreu um
atentado, um tiro no seu pulmão, desferido por John W. Hinckley, em Março de 1981.
Sobreviveu. E só deixou o posto, em 1989, com 66% de popularidade.
* Diplomou-se em Arquitetura. Trabalhou
na revista “Veja” de 1967 até 1976, onde se tornou editor de “Artes &
Espetáculos”. Passou por “Vogue”, agências de publicidade, foi redator-chefe de
“Istoé”, colunista da “Folha” e do “Estadão”, fez programas de gastronomia em
várias emissoras de TV, virou comentarista de esportes da Band, Manchete e
Record, até se fixar, em 2003, na ESPN. Trabalha, além da ESPN, na Reuters, na
“Flash”, no portal Ig e na “Viva São Paulo” e é sócio da filha e do genro na
Lancellotti Pizza Delivery – site de Internet www.lancellotti.com.br.
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