O Chico Buarque de Budapeste
* Por
Urariano Mota
Concorrendo com mais
de 230 livros, o romance Budapeste, de Chico Buarque, recebeu o prêmio de
melhor romance em língua portuguesa, ao fim da 11ª. Jornada Nacional de
Literatura.
Pelo valor em
dinheiro, de 100 mil reais, e pelo nível da concorrência, que reunia nomes como
José Saramago, Salim Miguel, José Nêumanne e Antonio Torres, o prêmio é de
vulto. Não foi o primeiro, nem certamente será o último.
Já em 2004, Budapeste
havia conseguido o prêmio Jabuti de Livro de Ficção do ano. No exterior, a sua
corrida também não é menor. Boas críticas na França, na Itália, e na Inglaterra
esteve entre os seis finalistas de melhor ficção estrangeira.
Um livro, enfim, que
se em lugar de prêmios e boas críticas recebesse medalhas, teria mais
condecorações que um general de caricatura. Desta sua última premiação, disse
um dos membros da Comissão Julgadora: Além de ser um romance muito bem escrito,
é gostoso, cativante. Parte de uma situação um tanto quanto inverossímil e
consegue dar verossimilhança a essa história. E o final é surpreendente.
O representante das
empresas que concederam o prêmio procurou ser mais claro: Chico Buarque está
colhendo o mérito de ser o maior compositor da música popular de língua
portuguesa: Ele fez uma nova viagem e, para não se repetir, escreve um romance
- Budapeste. As filhas dele contam que ele ficava sozinho no quarto, falando
sozinho e agora esse prêmio, que primeiro é o livro, mas também é o
reconhecimento ao mérito de Chico Buarque, escritor, homem que contribui com a
literatura. Em nome da Cia Zaffari Bourbon, que outorga esse prêmio, nos
sentimos honrados. Cabe salientar que o processo de escolha do romance é
complicado, principalmente por comparar coisas diferentes, mas eu penso que
esse prêmio ficou em boas mãos.
O porquê do prêmio
A notícia, como
dissemos, foi publicada em toda a imprensa. E como repórter não discute fatos
nem possui opinião, apenas publica releases, em atendimento ao critério da mais
absoluta objetividade, talvez por isso ninguém discutiu, ora discutir, sequer
insinuou, de passagem, o que é mesmo esse magnífico romance, tão belo e tantas
vezes premiado.
Mas, parece, aqui
somos injustos. Discutiram-no, sim: Em "Budapeste", romance marcado
pela figura do duplo, Chico conta a história do talentoso ghost-writer José
Costa, que narra sua própria história enquanto escreve outra. José Costa, ou
Zsoze Kósta, abandona a sua vida no Rio e acaba se exilando na Hungria, onde
aprende o difícil idioma, "segundo as más línguas, a única língua que o
diabo respeita", envolve-se com outra mulher e passa a viver entre as duas
cidades. Best-seller com mais de 220 mil exemplares comercializados no Brasil,
o romance é o livro de maior reconhecimento de público de Chico, segundo o
editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, e já foi vendido para mais de 15
países.
Ou seja, discutiram-no
à maneira dos ignorantes que pela vez primeira vêem uma obra de arte. Pelos
traços e características exteriores. E em se tratando de um romance, pelo
enredo, número de páginas, preço, e releases da editora. Mas estas
características, reconheçamos, estão longe da razão de ser da literatura.
A coisa diferente de
um romance
Quando Budapeste era
apenas um livro bem organizado em elogiosos comentários, antes desse último
prêmio, escrevemos: Desde o momento em que o narrador do livro "foi dar em
Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a
Frankfurt", os leitores críticos deveriam voar para outras plagas,
saudosos de Praga.
Isto porque a primeira
constatação é a de que o narrador não é do ramo. Se um romance for um feixe de
páginas, com palavra-puxa-palavra, um conjunto de sons, com ritmo, um devaneio,
um brinquedo, um jogo de costas para o mundo, bom, já não está aqui quem estava
antes.
Se assim for,
Budapeste é um excelente romance. Mas se o que desejamos, em boa-fé, paz e
paciência e esperança, é um livro que nos torne melhores do que éramos antes, e
"melhores" aqui expressa uma experiência de mundo que não
conhecíamos, que alargue o nosso tempo de vida, pois nos acorda para o que não
notávamos, e por isso nos deixa mais humanos e mais sábios, senhores
passageiros, apertem os cintos para um vôo bem longe de Budapeste.
Na linguagem, em
vários trechos o narrador é um Chico Buarque piorado, porque a passagem do
verso musical, contido, sintético, para a prosa não se faz sem trauma.... O
leitor deveria ser poupado de um ghost-writer que vive como um compositor de
sucesso.
Sem trabalhar,
consumindo, a comer e a beber, a pagar aulas de húngaro, sem prejuízo das suas
despesas domésticas no Rio, o narrador passa mais de quatro meses num bom hotel
em Budapeste!
Está certo,
concedamos, nisto vai uma licença ... da realidade. Licença que também deve ser
invocada em muitos outros trechos, mas um deles se destaca: quando na
decadência, de volta ao Rio, o personagem sem dinheiro passa mais de 100 dias
em um apartamento de hotel até ser cobrado!....
A própria Budapeste,
no livro, é uma cidade atemporal, vazia de qualquer humanidade, é um verbete na
enciclopédia, ou menos que isso, uma indicação, umas linhas e umas fotos de um
folder turístico.
Visto com os olhos de
hoje, depois de tantos esclarecedores prêmios, em nome da dignidade artística
de um dos melhores compositores de música popular do Brasil, deveríamos dizer
que Budapeste é um romance - e seja lá o que for e o sentido que se queira dar
à palavra -, é um livro escrito por um medíocre ghost-writer para receber a
assinatura de Chico Buarque de Holanda. Que o livro se venda e seja reconhecido
como escrito pelo genial compositor é cômico, ou tragicômico.
Comuniquem e digam a
ele
Enquanto escrevo estas
linhas ouço A lenda do Abaeté, no violão de Baden Powell, como uma força, como
um alento para o desconforto, para a exigência que devemos ter mesmo em relação
àqueles criadores que respeitamos.
Acreditem, essas coisas
a gente não escreve por prazer, mas ainda assim devem ser escritas. Algum
amigo, alguém da confiança dele e de coragem, precisa dizer a Chico Buarque de
Holanda que o romance não é a sua praia. Que ele não tente preencher os seus
vazios musicais com o escrever ficção.
Porque os desertos
criativos contaminam esse gênero difícil.
Algum anjo mau, mas ético, precisa soprar a seus ouvidos que não se
engane com os prêmios que tem acumulado, com as boas críticas recebidas, com as
vendas em alta no mercado. Porque ele, ao escrever livros como Budapeste,
repete à sua maneira o destino do compositor de Roda-Viva: a máquina o engole.
Para o mercado, Chico
Buarque é uma grife. Não existe o romance Budapeste - existe um produto Chico
Buarque de Holanda. O que ele fizer,
melhor dizendo, o que ele assinar traz a marca do gênio. Alguma dúvida? Tente
esculpir, tente pintar, tente a produção de cerâmicas.
Faça obras vulgares de
barro, pinte-as e ponha nelas a marca FB, Francisco Buarque - terá o mesmo
valor que as cerâmicas da sua vizinha assinatura FB, Francisco Brennand. Tente
estudar um pouco e cantar óperas - não tenha dúvida, frente a Pavarotti, na impossibilidade
estética de igualá-lo, receberá o prêmio especial de tenor de banheiro.
Tente virar modelo de
passarelas. Não tenha dúvida, receberá o prêmio de modelo mais qualquer coisa -
uma categoria especial, alternativa, para o consumo avesso a músculos e postura
de coluna.
Tente jogar futebol ao
lado de Júnior, Tostão e Zico em Roma, Tóquio ou Paris. Nos seus pés de Chico
Buarque, se não saírem os melhores passes, com certeza receberão as melhores
assistências, dos atletas coadjuvantes e do público. Mas poupe a literatura
brasileira dos seus geniais romances.
Porque o dano causado
é bem maior que um livro cometido por um autor, qualquer, de best-seller.
Vejam, se Paulo Coelho escreve, está no uso legítimo da sua expressão e do
direito do público que o adora, em mais de 100 países. Mas se Chico Buarque
escreve um romance, o crime cometido é maior que o escrever um mau livro.
É mais, ou melhor, é
menos que um direito legítimo de expressão. Porque essa má literatura ganha
prêmios, é saudada, e termina, esta é a maior desgraça, por fazer escola, de
gente e autores incautos que escreverão à moda Chico Buarque de Holanda. Porque
este é que é o escrever com alma, poesia, musicalidade e outros adjetivos
grandiloqüentes.
Vazios, inadequados,
de matarem Baudelaire pela segunda vez. Digam a ele essas verdades porque os
escritores queremos continuar a curtir e amar a música de Chico Buarque de
Holanda. Mas queremos à nossa maneira, aqui e ali desafinados, em meio ao coro
geral de elogios. Que no peito dos desafinados nem sempre bate um invejoso
coração.
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho
renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros.
Caro amigo e necessário escritor Pedro Bondaczuk: a sua pesquisa recupera o que andava esquecido.
ResponderExcluirAbração.
Os prêmios posteriores deram legitimidade ao Prêmio Jabuti, tão criticado, e acusado de ser comprado.
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